Confissões na estufa

1697 Words
📘 Almas de Fera Capítulo 53 – Confissões na Estufa Kael permaneceu em silêncio, abraçando Zaira com firmeza e ternura, como se o seu próprio corpo pudesse servir‑lhe de escudo contra todas as lembranças dolorosas. Ela continuava a tremer nos seus braços, embora já com menos intensidade do que antes. A cauda ruiva estava completamente eriçada, os pelos todos em pé, e as suas orelhas macias encontravam‑se baixas e deitadas contra a cabeça, sinal claro de quanto ainda se sentia vulnerável. O rei leão acariciou‑lhe delicadamente os cabelos, passando a mão devagar por entre os fios avermelhados, depois desceu até tocar suavemente uma das orelhas — com um carinho que só ele sabia dar. — Não precisas de enfrentar isto sozinha, Zaira. Nunca mais. Tudo o que carregas, passa a ser nosso também. Zaira apertou a roupa dele com mais força, os dedos agarrando‑se ao tecido forte como se temesse que ele desaparecesse se a soltasse um pouco que fosse. Durante alguns minutos, nenhum dos dois falou. Apenas o som suave e rítmico da chuva que começara a cair sobre o teto de vidro da estufa preenchia o silêncio, misturando‑se ao cheiro fresco da terra molhada e das flores exóticas que cresciam por ali. A luz, filtrada pelas gotas de água, tornava‑se mais suave e dourada, acalmando pouco a pouco o ambiente. Finalmente, Zaira respirou fundo, enchendo os pulmões daquele ar puro e perfumado, e ergueu um pouco o rosto para o ver melhor. — Eu nunca te contei nada disto… — começou ela, com voz baixa e ainda um pouco trémula — …porque pensei que já tinha superado por completo. Achei que era algo do passado, que já não me afetava. Kael afastou‑se ligeiramente apenas o suficiente para poder olhar diretamente nos seus olhos verdes, segurando‑lhe com firmeza mas doçura as mãos pequenas nas suas grandes e quentes. — O que aconteceu realmente naquele dia, minha querida? Conta‑me tudo. Estou aqui só para ouvir. Zaira baixou os olhos, olhando para as suas próprias mãos entrelaçadas nas dele, e começou a falar devagar, como se cada palavra ainda doesse um pouco ao ser dita. — Eu tinha sete anos apenas. Era pequena, muito curiosa e gostava de correr pelas matas perto da fronteira do nosso reino, longe dos olhares dos guardas. Achava que conhecia cada árvore, cada pedra, cada trilho. Naquele dia, porém, um dragão selvagem, muito jovem e sem qualquer domínio sobre si mesmo, atravessou as altas montanhas que nos separam das terras antigas deles. Ela fechou os olhos com força, tentando controlar as lágrimas que ameaçavam voltar a cair, e a voz ficou mais fraca ainda. — Lembro‑me de repente o céu ficar escuro como se fosse noite em pleno dia… das asas imensas a baterem com uma força que fazia o chão tremer… daquele rugido que gelou todo o sangue nas minhas veias… e depois o fogo, muito quente e brilhante, queimando tudo à volta. Eu fiquei paralisada, sem conseguir correr nem sequer gritar. Kael ouviu atentamente cada detalhe, sem a interromper, mas o seu olhar tornou‑se cada vez mais terno e protetor, e apertou‑lhe as mãos com mais suavidade. — Os meus pais e os guardas mais rápidos chegaram a tempo de me salvar, mas não sem custo — continuou ela, passando a mão levemente por um ombro, como se ainda sentisse a marca antiga ali. — Fiquei gravemente ferida, perdi muito sangue e fiquei doente por semanas. Durante muitos anos, acordava todas as noites a chorar e a tremer, a ver aquelas mesmas imagens na escuridão. Ela apertou as mãos uma contra a outra, olhando para o chão coberto de folhas. — Quando conheci a Elyra há alguns anos, e vi que existiam híbridos dragão tão bons, calmos e leais como ela, forcei‑me a mim mesma a enfrentar o meu receio. Estudei a sua história, convivi com o seu povo, aprendi a distinguir o que é bom e o que é mau. Achei que tinha vencido de vez aquela criança assustada que vivia dentro de mim. Zaira levantou finalmente o olhar para os olhos dourados de Kael, cheios de confiança e amor por ela. — Mas quando ouvi aquele rugido poderoso e sombrio de Vharok lá em cima… foi como se o tempo voltasse para trás de repente. Deixei de ser a princesa forte e corajosa que tento ser… e voltei a ser apenas aquela pequena raposa indefesa, sozinha e com medo. Kael segurou‑lhe então delicadamente o rosto entre as duas mãos grandes e quentes, obrigando‑a a olhar bem para ele, e falou com uma voz calma, profunda e cheia de verdade. — Ouve‑me bem, Zaira: ter medo não te torna fraca de maneira nenhuma. Ela piscou os olhos, admirada. — Não? — perguntou baixinho. — De forma alguma — respondeu ele com firmeza. — Significa apenas que foste ferida profundamente, que passaste por algo terrível que ninguém deveria ter de passar tão cedo. E apesar de toda essa dor e de todo esse receio, tu continuaste a levantar‑te, a aprender, a amar e a proteger os outros. Isso não é fraqueza… isso é uma das maiores forças que já vi em alguém. Os olhos verdes da raposa encheram‑se de novo de lágrimas, mas agora eram lágrimas diferentes — de alívio, de compreensão e de amor. — E se, quando chegar a hora de enfrentarmos Vharok, eu congelar outra vez? Se não conseguir reagir? — perguntou ela, com receio. — Então eu estarei imediatamente ao teu lado, à tua frente ou atrás de ti — onde precisares — e não deixarei que nada te toque — prometeu ele com toda a seriedade do mundo. — E não estaremos só nós dois. Os teus pais, os nossos amigos, todos os povos que amam a paz e a justiça estarão contigo. Ninguém te deixará só. — Kael… — sussurrou ela, emocionada. Ela permaneceu em silêncio por alguns segundos, sentindo cada palavra dele penetrar no seu coração e acalmar cada ferida antiga. Depois, lentamente, aproximou‑se e encostou a sua testa na dele, fechando os olhos e sentindo a sua respiração calma e forte. — Obrigada por não me julgares… obrigada por seres quem és. Nesse momento, ouviram‑se passos calmos e preocupados aproximando‑se da porta de madeira da estufa. A porta abriu‑se devagar. Selene entrou primeiro, com o rosto cheio de aflição e carinho, seguida de perto por Arion — alto, sereno e protetor — e, por fim, Elyra, com o seu porte elegante e olhar atento. Ao verem‑nos ali, abraçados e com os olhos ainda brilhantes de lágrimas, Selene aproximou‑se imediatamente, quase a correr. — Minha querida… meu amor… sabíamos que algo não estava bem quando desapareceste assim de repente — disse ela com voz doce, estendendo os braços. Zaira sentiu‑se um pouco envergonhada por ter sido vista assim, mas a sua mãe abraçou‑a sem hesitar, forte e demoradamente, sentindo o seu coração bater ainda mais rápido. Arion aproximou‑se também, pousando uma mão forte e pesada sobre o ombro da filha, com um sorriso triste mas cheio de compreensão. Elyra ficou um pouco mais afastada, observando‑a em silêncio, com uma expressão séria e compassiva nos seus olhos de cor de âmbar. Quando os olhos de Zaira se encontraram com os dela, a princesa dragão falou com calma e sinceridade: — Ouvi dizer que saíste do salão completamente assustada, e imaginei logo o que se passava. Zaira desviou o olhar, sentindo‑se pequena. — Peço desculpa por ter fugido assim… por ter mostrado fraqueza… Elyra abanou a cabeça com firmeza, aproximando‑se um pouco mais. — Não tens de pedir desculpa por nada, Zaira. E muito menos chamar a ti própria de fraca. O que sentes é natural, justo e muito mais comum do que imaginas. Todos ali olharam para ela, surpreendidos. A jovem dragão continuou, olhando pela janela de vidro na direção das nuvens escuras lá muito longe: — Muitos dos mais velhos e dos mais guerreiros da minha própria tribo também tremem só de ouvir o nome ou a voz de Vharok. Afinal, foi ele, há eras, que quase destruiu os nossos antigos reinos, que matou os nossos antepassados e que fez com que os que restaram tivessem de se esconder e mudar para sempre. Ele é uma força antiga, c***l e destruidora — diferente de todos nós que descendemos da mesma linhagem. Zaira levantou lentamente a cabeça, os olhos arregalados de surpresa. — A sério? Então não sou a única… — De maneira nenhuma — sorriu‑lhe Elyra com doçura. — O teu medo é compreensível, justo e humano. Mas lembra‑te sempre disto: Vharok é apenas um ser, mau e orgulhoso. Ele não representa, nem de longe, todos os dragões, nem todos os que têm essa origem. Nós escolhemos ser diferentes. Nós escolhemos estar ao teu lado. Zaira olhou para a amiga durante alguns segundos, sentindo uma paz e uma força novas crescerem dentro de si, e acabou por assentir devagar, com um pequeno sorriso a aparecer‑lhe nos lábios. Pela primeira vez desde que ouvira aquele som aterrador no céu, sentiu o peso enorme que carregava no peito diminuir um pouco, deixar de ser tão esmagador. Sabia que o receio ainda lá estaria, mas agora já não era uma sombra sozinha — tinha amigos, família e amor para o combater. Mas, muito longe dali, nas profundezas escuras e frias das Montanhas Sombrias, onde nem a luz do sol conseguia chegar, dois enormes olhos dourados e brilhantes abriram‑se lentamente na escuridão absoluta. Uma presença imensa, antiga e cheia de malícia mexeu‑se devagar, fazendo a própria montanha tremer ligeiramente. E Vharok sorriu — um sorriso enorme, cheio de dentes afiados e de planos sombrios — sabendo que o seu nome já semeava o que ele mais queria: confusão e receio nos corações daqueles que um dia iria enfrentar.
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD