📘 Almas de Fera
Capítulo 66 – O Refúgio do Leão
A noite caiu devagar e em silêncio sobre o Palácio dos Leões, cobrindo tudo com o seu manto escuro e calmo. A lua cheia brilhava intensa no céu sem nuvens, derramando uma luz prateada e suave que entrava pelas grandes janelas altas, desenhando sombras compridas nos pisos de pedra.
No canto mais afastado do quarto, Zaira continuava na sua pequena forma de raposa de pelo ruivo. Apesar de ainda guardar alguma mágoa e zanga no coração, o cansaço e a emoção do dia tinham‑na vencido: dormia profundamente, enrolada sobre si mesma num pequeno novelo quente, encostada à parede fria.
Kael observava‑a de longe, sentado imóvel na penumbra. Suspirou baixinho, com um sorriso meio triste e muito doce.
— Tão teimosa quanto sempre… — murmurou para si mesmo com carinho.
Mas sabia muito bem que deixá‑la ali a dormir no chão duro e frio não era de maneira nenhuma boa ideia — especialmente agora, que havia vidas tão frágeis e preciosas a dependerem do seu bem‑estar.
Uma luz suave e dourada envolveu devagar o corpo do rei. Momentos depois, no lugar do homem ergueu‑se um enorme leão de pelagem dourada e brilhante, juba farta e majestosa que lhe caía sobre o peito, e grandes olhos vermelhos que brilhavam com inteligência e amor.
O grande animal aproximou‑se devagar e com infinito cuidado, sem fazer o menor ruído, até chegar ao canto onde ela repousava. Com toda a delicadeza do mundo, segurou‑a suavemente pela pele solta da nuca — tal como fazem os grandes felinos ao transportarem as suas crias pequenas — com uma força tão leve que nem a acordou, tomando todo o cuidado para não a magoar ou incomodar.
Ainda meio perdida no sono, Zaira soltou um pequeno som abafado de leve protesto, mexendo a ponta da cauda:
— Mrrr…
Mas não acordou de todo; apenas ajustou um pouco a sua posição, sentindo‑se segura mesmo assim.
Kael caminhou lentamente até à enorme cama real e pousou‑a com extremo cuidado sobre os coxins macios e quentes, onde nada a poderia magoar. A pequena raposa mexeu‑se um pouco no sono, esticou‑se e voltou a enrolar‑se numa bola aconchegada.
O leão dourado ficou ali parado a observá‑la durante alguns segundos, certificando‑se de que estava bem colocada e confortável. Depois ergueu‑se um pouco, subiu também para o leito amplo e deitou‑se de lado, formando um grande círculo protetor à volta dela com o seu próprio corpo forte e quente — uma muralha viva contra qualquer perigo ou frio.
Sentindo o calor familiar e a presença forte ali tão perto, Zaira abriu devagar um pouco os olhos pesados. Ao ver aquela juba imensa e dourada a rodeá‑la, reconheceu‑o imediatamente, mesmo naquela forma. Ainda que no fundo do seu coração continuasse um pouco zangada, algo mais forte e antigo falou mais alto: instintivamente, aproximou‑se e aconchegou‑se contra o peito largo e suave dele, procurando o seu calor e segurança.
Kael sentiu‑o e sorriu por dentro, satisfeito e tranquilo. A pequena raposa encostou a cabeça no seu pelo macio, soltou um leve suspiro de alívio e voltou a adormecer profundamente.
O grande leão baixou devagar a cabeça e lambeu‑lhe muito suavemente a testa, num gesto de ternura imensa.
— Dorme bem, minha pequena raposa… nada te fará m*l enquanto eu estiver aqui — sussurrou ele baixinho, sem som.
Durante o resto da noite, Kael permaneceu acordado, de olhos abertos e atentos, vigiando‑a em silêncio absoluto.
Lá fora, muito longe dali, muito além das muralhas altas e seguras do reino, uma sombra imensa e escura cortava os céus iluminados pela lua, avançando devagar mas sem parar na sua direção — Vharok aproximava‑se cada vez mais.
Mas ali, dentro daqueles muros e sob o olhar atento do seu guardião, a pequena raposa estava verdadeiramente segura. Porque o seu leão estava ali, e não deixaria que nada nem ninguém a tocasse.
continua...