O refúgio da pequena raposa

878 Words
📘 Almas de Fera Capítulo 63 – O Refúgio da Pequena Raposa Assim que chegaram aos grandes e tranquilos aposentos reais, Kael colocou Zaira com todo o cuidado do mundo sobre a cama macia e fofa, cobrindo‑a de seguida com um tecido leve e quente. Ela permaneceu sentada ali por alguns segundos, em silêncio, com o olhar perdido e pesado. Ainda sentia no corpo o abalo da queda, a dor ligeira nos ossos e, sobretudo, o frio na barriga provocado por aquele som terrível — ainda conseguia ouvir o rugido profundo de Vharok a ecoar repetidamente na sua mente, como se estivesse ali mesmo ao lado. Kael ajoelhou‑se devagar diante dela, para ficar à sua altura, e tocou‑lhe suavemente na mão. — Como te sentes agora, minha querida? Dói‑te muito alguma coisa? Zaira baixou o olhar, encolhendo‑se um pouco para dentro de si mesma. — Só… muito cansada. Como se tivesse carregado uma montanha às costas o dia todo — respondeu numa voz muito baixa e fraca. Antes que Kael pudesse acrescentar mais uma palavra ou um carinho, uma luz suave e dourada começou a brilhar à volta do seu corpo, cobrindo‑a por instantes. Quando a luz se desfez, ali já não estava a princesa: apenas uma pequena raposa de pelo ruivo brilhante, de olhos grandes e doces, frágil e querida como nunca. Sem hesitar nem perder um segundo, a pequena criatura caminhou devagar até ao seu amado e aninhou‑se imediatamente no colo dele, enrolada‑se ali como se ali estivesse o lugar mais seguro de todo o universo. Kael sorriu‑lhe com uma ternura imensa, acolhendo‑a melhor e apoiando‑a contra si. — Voltaste à tua forma preferida, não foi? O teu pequeno refúgio… — murmurou ele com carinho. A cauda fofa dela abanou muito lentamente e fracamente, concordando. Ele passou‑lhe a mão devagar sobre a cabeça e por detrás das orelhas sensíveis, fazendo‑a suspirar de alívio. — Sabes? Não precisas de ser forte, destemida ou valente o tempo todo, Zaira. Podes ser pequena, cansada ou assustada sempre que precisares. Eu estarei sempre aqui para ti. A pequena raposa fechou os olhos pesados, sentindo‑se finalmente em paz. Pouco depois, a porta abriu‑se devagar e sem ruído: Selene e Arion entraram, olhando com cuidado para o casal ali junto à janela. Ao verem a filha outra vez na sua forma mais pequena e inocente, Selene soltou um suspiro doce e triste ao mesmo tempo. — Ela voltou a esconder‑se neste seu mundo mais pequeno e calmo… — disse ela baixinho. Arion assentiu, recordando‑se de tempos muito antigos. — Quando era apenas uma menina, fazia exatamente a mesma coisa. Sempre que algo a assustava muito ou a deixava profundamente triste, transformava‑se e não queria voltar a ser maior durante dias. Era a sua forma de se proteger. Kael continuou a afagar‑lhe o pelo macio, sem nunca parar. — E ainda agora é assim… ainda está muito abalada, assustada e ferida por causa da ameaça de Vharok. Precisa de sentir que nada a pode alcançar. Selene aproximou‑se devagar da beira da cama e tocou com muito carinho nas costas da filha adormecida. Zaira abriu um pouco os olhos, reconheceu a mãe, mas preferiu aproximar‑se ainda mais de Kael, escondendo o focinho bem fundo no peito forte e quente dele. A rainha sorriu com doçura e compreensão, mas havia também uma nova preocupação na sua expressão. — Sim… e agora temos ainda mais, muito mais razões para a proteger de tudo o que possa magoá‑la ou assustá‑la — acrescentou ela num tom quase só para si mesma, sabendo bem o que isso significava. Kael ergueu ligeiramente o olhar para os sogros, compreendendo perfeitamente o sentido daquelas palavras. Ele já sabia da notícia maravilhosa e frágil que crescia dentro dela… mas ainda não tivera coragem nem oportunidade de lho contar, com medo de a assustar ou sobrecarregar ainda mais a sua mente e o seu coração. Entretanto, a pequena raposa já caía num sono profundo e reparador. A sua cauda comprida e macia permanecia enrolada com força à volta do braço de Kael, como se tivesse medo de que ele desaparecesse ou a deixasse sozinha se o soltasse. Ele inclinou‑se devagar e pousou um beijo suave e quente no topo da cabeça dela, entre as duas orelhas. — Descansa bem, minha pequena raposa. Não tenhas medo de nada. Eu não me vou mexer daqui, prometo. Ficarei ao teu lado para sempre. Mesmo completamente adormecida, profundamente entregue ao descanso, a cauda dela abanou suavemente uma vez, como se tivesse ouvido cada palavra e aceitado a promessa. Selene e Arion olharam um para o outro, sorrindo com os olhos brilhantes de amor e esperança. Talvez ainda não fosse o momento certo para revelar o segredo que todos guardavam. Por agora, o mais importante, o único essencial, era que Zaira se sentisse verdadeiramente segura, amada e em paz. Quando acordasse com mais forças e serenidade, então sim, saberiam dizer‑lhe a verdade maravilhosa que mudaria tudo para sempre. continua....
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