Capítulo 6
Sadie
Rebecca me deu as informações que eu precisaria de manhã para ajudar a abrir o restaurante. Eu tinha que estar lá às 5h para ajudar os cozinheiros a ligarem os fornos e fazer uma rápida inspeção antes do café da manhã começar às 6h. Aparentemente, a segurança noturna da cidade vinha e estava “com fome como lobos”, disse Rebecca, rindo histericamente. Eu não entendi essa piada.
A cidade inteira parecia estranha. Agora, admito, nunca deixei minha antiga cidade de Mayville nem uma vez, mas certamente outras cidades seriam parecidas.
Peguei minhas chaves e pulei no Jipe, e percebi que todos os meus itens frios certamente estragaram. Meu pobre sorvete de Rocky Road. Que você descanse em paz.
Eu só estive na cabana alguns minutos antes hoje e realmente não pude olhar ao redor. Rapidamente, peguei os produtos de limpeza e comecei a trabalhar. Estava muito animada para esperar e não sabia quando voltaria amanhã.
Bonito não poderia descrever, era certamente sereno. Depois de toda a poeira e uma boa limpeza profunda, finalmente terminei por volta da meia-noite. Minha empolgação encobriu bem o meu cansaço.
Eu tinha esquecido o quão grandes eram as janelas na parte de trás da cabana. Elas iam do chão até o teto e até tinham algumas claraboias. Era perfeito para assistir à vida noturna e ver a lua no céu.
Este local estava em grande parte mobiliado. Apesar de a cabana ser de madeira por fora, por dentro havia muitas paredes brancas com um piso de madeira rústica natural. Era perfeito só para mim.
A cabana estava situada em meio a algumas árvores, com a parte de trás da casa mais perto da floresta densa. Estava tão escuro que nem mesmo os raios da lua conseguiam penetrar.
Eu estava orgulhosa do meu trabalho, mas logo percebi que teria que acordar em algumas horas escassas para ajudar no restaurante. Me enfiei no meu edredom branco extremamente gasto da casa da tia Maria e inalei o cheiro dele. Estava tão cansada que nem mesmo tomei banho e troquei de roupa.
Me deitei para fechar os olhos. Os uivos suaves dos lobos, os sons de verão dos grilos e das corujas encheram meus ouvidos enquanto eu adormecia.
(...)
Já fazia uma semana desde que comecei a ajudar no restaurante; nunca trabalhei tão duro na minha vida. Foi uma ótima maneira de conhecer muitas pessoas novas na cidade, no entanto.
O prefeito Adrien veio várias vezes checar os cozinheiros e garçons. Fiquei surpresa com o quanto ele estava disposto a ajudar Rebecca. Enquanto ela estava fazendo seu estágio aqui, o prefeito deveria encontrar ajuda adicional. Eu não estava realmente entendendo todo o processo, mas quem era eu para questionar?
As pessoas aqui eram muito legais depois que você as conhecia. Muitas delas desconfiavam de mim e eram muito reservadas. Depois que perceberam que eu estava lá para ajudar e não causar problemas, se abriram consideravelmente.
No começo, eles eram sucintos, apenas me davam os pedidos e acenavam para eu ir embora. Conforme o tempo passava, eu aumentava minha abordagem para ver se conseguia fazer alguns desses clientes racharem e sorrirem para mim.
Comecei devagar, conversando com as crianças deles, e elas relutaram, mas ficaram mais dispostas a conversar comigo. Eu dava a elas um pouco de chantilly extra nas panquecas ou trazia um chocolate quente com a permissão dos pais, é claro.
Em dias em que os cozinheiros estavam realmente sobrecarregados com os pedidos, a comida não saía tão rapidamente quanto deveria. As crianças estavam ficando inquietas, então aproveitei a oportunidade para pegar um pouco de massa de pizza velha e dar para algumas delas brincarem. Elas a usavam como massinha de modelar e faziam animaizinhos incríveis para mim.
Mas um menino chamado Max roubou meu coração. A família dele tinha uma equipe de irmãos mais velhos, enquanto Max tinha apenas 5 anos e era, obviamente, menor do que a maioria das crianças da sua idade.
Ele estava chorando silenciosamente sozinho enquanto a família conversava entre si. Ajoelhei-me no final da mesa e perguntei a Max o que estava errado.
— Eu sou muito pequeno para fazer qualquer coisa. — ele me disse.
— Bem — olhei para o chão. — Você sabia que eu sou pequena também? Sou menor do que todos os adultos aqui. — Max olhou para mim, surpreso. — Mas sabe de uma coisa? — sussurrei. — Apesar de eu ser pequena, eu sou muito rápida. As pessoas não sabem disso. Como você acha que eu trago a comida tão rapidamente? Você também é rápido, Max?
Ele pensou um pouco e disse: — Eu sou bem esperto, ouço e cheiro muito bem! — Seus olhos brilharam.
— Ah, é? Você é como o lobo que se esgueira sobre a Chapeuzinho Vermelho? — Ri dele. Seus olhos ficaram tão grandes que quase dava para ver as engrenagens girando em sua cabeça.
— Sim, eu sou! Eu consigo roubar biscoitos muito bem! Eu faço isso o tempo todo! Mamãe nem sequer sabe! — Ele disse um pouco alto demais e sua mãe começou a ouvir a conversa e acabou gargalhando.
— Max, se você conseguir me surpreender um dia e me assustar, eu vou te fazer muitos biscoitos! — Tirei vários biscoitos de uma pequena bolsa que eu carregava para crianças que estavam com fome demais para esperar. Ele sorriu maliciosamente e gritou: — ACEITO!
Eu me diverti muito atendendo como garçonete essa semana, mas precisava de uma merecida folga. As novas garçonetes chegaram hoje, e eu tinha que ajudá-las a se familiarizar com o layout da sala e quaisquer novas políticas que a Rebecca implementou.
Rebecca estava de muito melhor humor, apesar de trabalhar tão duro essa semana. Iríamos descansar, assim como a Lela, nos próximos dois dias.
— Ei, Sadie! — Rebecca se aproximou. — A Lela e eu achamos que deveríamos comemorar. Quer vir conosco neste fim de semana para o Club Moon?
— Club Moon? Tipo uma boate? — perguntei.
— Sim! Tem muita dança, bebida, toneladas de caras bonitos. Será a maneira perfeita de comemorar a pior semana de trabalho das nossas vidas. — Fiquei quieta por um momento e olhei para os meus sapatos como se fossem a coisa mais interessante para olhar. — Ei, o que há de errado?
Rebecca conseguia me ler como um livro aberto. Ela sabia quando eu estava ansiosa ou estressada e realmente prestava atenção às minhas emoções. Nunca tive uma amiga que realmente me notasse assim.
— Oh, bem... — comecei. — Eu nunca fui a uma boate ou fiz qualquer tipo de dança com um carinha.
— Não se preocupe, você pode dançar e beber com as garotas também, se preferir. Não vou julgar. — Ela começou a acenar com a mão no ar.
Meus olhos se arregalaram. — Não, não, quero dizer, eu nunca realmente saí, muito menos uma boate com dança. Eu não saberia o que vestir ou por onde começar. — Eu estava corando loucamente.
Os olhos de Rebecca brilharam com malícia, e um sorriso travesso se formou. — Esqueci o quanto você é inocente. Só trabalho e nada de diversão. Então, está decidido, a Lela e eu iremos à sua casa no sábado e te arrumaremos. Vou me divertir muito... quero dizer... você vai se divertir muito!
— Rebecca, talvez eu não devesse. — Eu hesitei.
— Estou só brincando com você. Sério, todos nós vamos nos divertir. Quantos anos você tem, aliás? Nunca cheguei a perguntar. Pode ser um problema para você entrar.
— 19, mas meu aniversário é sábado, então entrar não deverá ser um problema.
Rebecca ficou de boca aberta. — Garota, você parece ter 16 anos. Eu pensei que você estava apenas exagerando quando falou há quanto tempo está trabalhando como garçonete. De qualquer forma, vá para casa, as meninas novas estão cuidando de tudo. Pegue algo para jantar e descanse.
Com isso, peguei uma caixa para viagem e enchi com os meus favoritos. Como a Rebecca não conseguiu me colocar na folha de pagamento, eles me pagavam apenas com comida, o que eu não me importava nem um pouco.
(...)
Rebecca e Lela arrastavam os pés até a casa do grupo. O cheiro de bacon gorduroso, queijo e café impregnava seus corpos. Suas almas estavam desgastadas e quebradas da semana passada.
A única coisa que as faziam se mover era o novo raio de sol que iluminava a semana delas. Sadie foi um presente dos céus.
— Acho que teria morrido esta semana se a Sadie não tivesse aparecido. — resmungou Rebecca. — É triste que ninguém mais nesta cidade tenha sequer oferecido ajuda.
— Trabalhar no restaurante não é o melhor emprego, Rebecca. É muito trabalho duro e é dentro de casa. Você sabe como todos os outros gostam de estar por aí. Estou apenas feliz que o Alfa Adrien finalmente percebeu o que aquelas vadias doentes estavam fazendo.
As garçonetes que trabalhavam no restaurante eram astutas. Elas esperavam conseguir o cargo de gerência de estágio para ajudá-las a aumentar seus estudos e conseguir uma posição melhor na matilha. No entanto, Rebecca, de uma matilha vizinha, foi selecionada. Por causa do alto status dela em sua outra matilha, os lobos acharam que foi dado a ela, então tornar a vida dela difícil era prioridade.
Rebecca finalmente percebeu o que todas as lobas astutas estavam fazendo e denunciou à matilha onde estava temporariamente hospedada, a Matilha Pineville Creek. O Alfa ficou furioso. Aquelas lobas estavam fingindo estar doentes para tornar a vida dela um inferno.
Ela tentou lidar com a situação da melhor maneira possível, mas assim que percebeu que estava trabalhando três dias de 18 horas seguidas, ela estava prestes a enlouquecer. Querida Lela ficou ao lado dela o tempo todo. Ela foi uma ótima ajuda durante o episódio todo.
Estar com falta de funcionários no restaurante nunca era bom. A matilha inteira vinha para o café da manhã, almoço e jantar. A casa principal da matilha era onde os lobos de níveis superiores viviam e comiam, enquanto a maioria dos lobos destaque ficava na cidade com suas próprias famílias, em suas próprias casas.
Lela se despediu de Rebecca enquanto subia as escadas da casa dos fundos. Ela era uma das lobas temporariamente visitantes, então podia ficar aqui junto com o irmão e alguns outros para protegê-la. Sendo a filha mais nova de um Alfa de uma matilha vizinha, tinha suas vantagens.
Rebecca abriu a porta e viu o futuro Gamma de sua matilha natal sentado no sofá, jogando um videogame. Ele virou-se assim que ela fechou a porta.
— Como está indo minha amiguinha ambiciosa, um pouco teimosa e insanamente bonita? — Nathan zombou.
— Só porque você foi ordenado a me vigiar enquanto estou aqui, não significa que pode tentar me lisonjear para me levar para a cama. — Eu retruquei.
Nathan colocou a mão sobre o coração. — Eu jamais faria isso. Além disso, acho que seu irmão acabaria cortando meus testículos e me faria engolir tudo, se eu sequer olhasse para o seu lado. — Ele estremeceu.
— Ele provavelmente faria mais do que isso. — Retruquei.
Não era segredo que o irmão de Rebecca era feroz. Feroz nem o descrevia. Ele era absolutamente assustador quando estava com raiva ou de mau-humor. Suas oscilações de humor vinham o dominando ultimamente, e ele estava constantemente em busca de sangue. Seu pai o enviava com frequência em missões de assassinato apenas para satisfazer seu lobo.
Os lobos guerreiros eram fortes, mas o lobo de Seth era previsto para ser o mais forte. Videntes disseram que se ele não encontrasse sua companheira, o futuro seria devastador para a sua matilha e o futuro dos lobisomens. Companheiras ajudavam a equilibrar os lobos uns dos outros, e ele, definitivamente, precisava da dele.
Rebecca tirou os sapatos e sentou ao lado de Nathan, no sofá, e soltou um longo suspiro. Nathan se recostou e continuou a jogar.
— Na verdade, seu irmão está vindo visitar e me ajudar a tomar conta de você.
— Ok, primeiro — levantei o dedo. — Você não está tomando conta de mim, você deveria me proteger. Segundo, mamãe e papai estão tentando ajudá-lo a encontrar sua companheira ao enviá-lo para cá, e terceiro, cale a boca. — Levantei respectivamente dois e três dedos. — Então, quando ele chegará?
— Este fim de semana...