A madrugada tinha se dissolvido em um cinza silencioso quando eu finalmente aceitei que o dia havia chegado, mesmo sem ter dormido. Não era cansaço físico que pesava sobre mim — era outra coisa, mais funda, mais densa. Uma vigília que não terminou quando o sol ameaçou nascer por trás das cortinas pesadas do meu quarto. Ângela continuava ali. Deitada na minha cama, coberta com cuidado, o rosto sereno demais para alguém que tinha atravessado a beira de um abismo poucas horas antes. Eu tinha passado a noite inteira naquela poltrona ao lado, alternando entre orações murmuradas, leituras rápidas de salmos que eu sabia de cor e longos períodos de silêncio absoluto, apenas observando o subir e descer lento do peito dela. Cada respiração era um alívio renovado. Eu não ousava encostar nela além

