Eu não me movi quando ela começou a gritar.
Foi estranho perceber isso depois, mas no instante em que Ângela abriu os olhos e me viu parado à porta do banheiro, já vestido de padre, o susto dela veio como uma onda violenta — e eu permaneci firme, imóvel, como se qualquer movimento brusco pudesse confirmar todos os medos que estavam estampados no rosto dela.
— Socorro! — a voz saiu rouca, rasgada, carregada de pânico. — O que você fez comigo?! Onde eu tô?! Quem é você?!
Ela se encolheu na cama, puxando o lençol contra o próprio corpo como se aquilo fosse um escudo, os olhos verdes arregalados, úmidos, correndo pelo quarto, procurando uma saída, uma arma, qualquer coisa que lhe desse controle da situação.
Meu coração apertou de um jeito quase físico.
— Ângela… calma… — dei um passo à frente, devagar, levantando as mãos num gesto instintivo de rendição. — Por favor, você está segura. Eu não te fiz m*l nenhum.
— Não chega perto! — ela gritou de novo, a respiração curta, descompassada. — Eu não lembro de nada! Eu lembro de estar no restaurante… com você… e depois…
A voz dela falhou.
O silêncio que se seguiu foi pesado, denso, cheio de coisas não ditas. Eu via o medo nos ombros tensionados, nos dedos trêmulos agarrando o tecido da colcha, no jeito como ela mantinha o corpo preparado para correr, mesmo sem saber para onde.
— Você precisa me ouvir — eu disse, mantendo a distância. — Eu sou padre. Meu nome é Gabriel. Você está na minha casa, com meus pais. Ontem à noite você passou m*l no estacionamento do restaurante. Um homem tentou te levar embora à força. Eu impedi.
Ela balançou a cabeça negativamente, como se aquilo fosse absurdo demais para ser verdade.
— Isso não faz sentido… — murmurou. — Isso não pode ser verdade…
Foi nesse momento que a porta do quarto se abriu de vez.
Minha mãe entrou primeiro, apressada, o rosto ainda marcado pelo cansaço da madrugada m*l dormida, mas com aquele olhar firme e acolhedor que sempre teve. Meu pai veio logo atrás, mais contido, observando a cena com atenção silenciosa.
— Minha filha… — minha mãe disse suavemente, aproximando-se da cama com passos lentos, calculados. — Calma. Por favor. Você está segura aqui.
Ângela se virou para ela num movimento rápido, desconfiado, mas havia algo diferente na reação. Talvez fosse o tom de voz. Talvez fosse o jeito como minha mãe se aproximava sem invadir espaço, sem pressa, como quem entende o medo alheio.
— Quem é a senhora? — Ângela perguntou, a voz ainda trêmula.
— Eu sou a mãe do Gabriel — respondeu, sentando-se na beira da cama, mantendo uma distância respeitosa. — Você estava desacordada quando ele te trouxe pra casa. A gente ficou a noite inteira cuidando de você. Rezando por você.
Meu pai assentiu em silêncio, confirmando com o olhar.
Ângela piscou algumas vezes, como se tentasse organizar os pensamentos, puxar memórias que simplesmente não vinham.
— Eu… — ela levou a mão à própria testa. — Eu lembro do jantar. Lembro de conversar com ele. Lembro de levantar da mesa com aquele homem… e depois…
Nada.
O vazio que veio depois daquela frase pareceu ecoar no quarto.
— O resto não veio ainda — minha mãe disse com doçura. — E talvez nem precise vir agora. O importante é que você está viva. E segura.
Aos poucos, o corpo de Ângela foi relaxando. Os ombros baixaram um pouco. A respiração desacelerou. O lençol ainda estava apertado contra o peito, mas já não parecia um escudo — mais um abraço improvisado.
Ela olhou para mim de novo.
Agora sem gritar.
Sem acusar.
Com confusão.
— Você… me salvou? — perguntou, quase num sussurro.
Engoli em seco.
— Eu fiz o que precisava ser feito — respondi. — Qualquer pessoa faria o mesmo.
Ela desviou o olhar, absorvendo aquilo em silêncio.
Depois de alguns minutos — minutos longos, cheios de pausas e respirações profundas — minha mãe sugeriu, com a naturalidade de quem tenta devolver a normalidade a uma situação quebrada:
— Vamos tomar um café? Você deve estar fraca. Ficar sem comer depois de um susto desses não ajuda em nada.
Ângela hesitou, olhou em volta mais uma vez, avaliando o ambiente. O quarto era grande, claro, simples apesar do tamanho da casa. Nada ali parecia ameaçador. Nada parecia improvisado demais para ser uma mentira.
— Eu… acho que sim — respondeu por fim.
Descemos juntos.
Eu caminhava um pouco atrás, ainda vestido com a batina, sentindo o peso daquele pano escuro de um jeito diferente naquela manhã. Não era só a roupa que me distinguia — era a posição em que eu estava, como se observasse tudo de fora, tentando entender onde exatamente aquela história tinha começado a se escrever.
Na cozinha, minha mãe se movimentava com naturalidade, como se aquela fosse apenas mais uma manhã comum. Café fresco no bule. Pão cortado. Frutas dispostas numa travessa grande.
— Fica à vontade — disse ela a Ângela, puxando uma cadeira. — Essa casa é sua enquanto você precisar.
Ângela sorriu, tímida, um sorriso pequeno, ainda inseguro.
— Obrigada… de verdade.
O café foi servido em silêncio nos primeiros minutos. Um silêncio confortável, cuidadoso. Desses que não pressionam.
Pouco a pouco, minha mãe puxou conversa.
Perguntou de onde Ângela era. Se tinha família na cidade. Se morava sozinha.
Ângela respondeu tudo, com certa reserva, mas sem hostilidade. Contou que tinha se separado havia pouco tempo. Que estava tentando reorganizar a vida. Que ainda se sentia meio perdida.
— Às vezes, Deus bagunça tudo pra colocar a gente no lugar certo — minha mãe comentou, mexendo o café com calma.
Ângela a olhou, pensativa.
— Eu acredito muito em Deus — disse. — Mesmo quando não entendo o que Ele faz.
Aquilo me atravessou como um fio invisível.
Eu continuei calado.
Observando.
O jeito como Ângela gesticulava ao falar. O modo como minha mãe parecia imediatamente afeiçoada a ela. Como se algo ali se encaixasse sem esforço.
Quando o café terminou, minha mãe se levantou e disse, como se fosse a coisa mais óbvia do mundo:
— A gente vai pra missa agora de manhã. O Gabriel vai celebrar. Você devia ir com a gente.
Ângela piscou, surpresa.
— À missa?
— Sim — minha mãe sorriu. — Depois de um livramento desses, o mínimo é agradecer. Deus abriu um caminho pra você ontem à noite. Você chegou até aqui por um motivo.
Ângela hesitou.
Olhou para mim, talvez só então lembrando que eu era, de fato, o padre da história.
— Eu… não sei se estou vestida pra isso — comentou.
Minha mãe já estava de pé, animada.
— Isso a gente resolve agora.
Ela subiu as escadas e voltou poucos minutos depois com roupas limpas, simples, elegantes. Um vestido claro. Um casaco leve.
— Vai tomar um banho — disse a ela, entregando as roupas. — Fique à vontade.
Ângela pegou as peças com cuidado, como quem segura algo precioso demais para questionar.
— Obrigada — repetiu.
Enquanto ela subia para o banheiro, eu fiquei parado na cozinha, sentindo algo estranho crescer no peito.
Uma inquietação silenciosa.
Uma certeza sem explicação.
De que nada daquilo tinha sido por acaso.
E de que aquela manhã… não era apenas mais uma.