Perdi a conta de quantas vezes, naquela noite, eu olhei para a porta do restaurante esperando vê-la voltar sozinha. Ou acompanhada. Ou não voltar nunca. Tudo parecia suspenso, como se o tempo tivesse decidido me provocar, me testar, medir até onde ia a minha fé quando confrontada com o instinto mais básico que existe: proteger.
Quando Ângela se levantou da mesa, acompanhando aquele homem estranho, algo em mim se contraiu de um jeito quase físico. Não foi medo racional. Foi aquele aperto silencioso no peito, parecido com o que eu sentia quando era criança e via alguém chorar no orfanato sem que ninguém percebesse. Um chamado interno, difícil de explicar, impossível de ignorar.
Mas eu fiquei.
Fiquei porque ela tinha concordado.
Fiquei porque eu não queria parecer invasivo, já que eu não a conhecia.
Fiquei porque, por um segundo, pensei no padre que sou, no filho que meus pais criaram, no homem que aprendeu a confiar que Deus age mesmo quando a gente não interfere.
Voltei para trás do balcão improvisado, tentei ajudar um garçom com uma bandeja, respondi a um cliente, sorri para outro. Tudo no automático. Meu corpo ali, minha mente fora, seguindo Ângela até o estacionamento escuro dos fundos, onde a iluminação falha sempre foi um detalhe que eu prometia corrigir e nunca corrigia.
Foi então que senti.
Não ouvi nada.
Não vi nada.
Eu senti.
Como se alguém tivesse encostado dois dedos no meio das minhas costas e sussurrado, sem voz: vai.
Talvez fosse Deus.
Soltei a bandeja sobre o balcão, ignorando o olhar confuso de um dos funcionários, e caminhei rápido em direção à porta lateral do restaurante. Meu coração batia forte, não acelerado como em pânico, mas firme, pesado, decidido. Cada passo parecia me afastar de tudo que eu conhecia e me aproximar de algo que eu não fazia ideia do que era — só sabia que precisava estar ali.
Assim que atravessei a porta, o ar da noite me atingiu com força. O estacionamento estava parcialmente vazio, iluminado por postes antigos que piscavam de leve. E então eu vi.
A cena entrou pelos meus olhos como uma lâmina.
Ângela estava caída, mole, sem reação, o corpo pendendo para frente enquanto aquele homem a segurava pelos braços, tentando arrastá-la em direção a uma van escura, estacionada de forma atravessada, pronta para fugir. A porta lateral da van estava aberta. O interior, escuro demais.
Por um segundo — um único segundo — meu corpo congelou.
E então tudo explodiu dentro de mim.
Não pensei em Deus.
Não pensei na batina.
Não pensei nos meus pais, na cidade, na reputação, em nada.
Eu corri.
Corri como nunca tinha corrido antes, sentindo o chão vibrar sob meus pés, o sangue pulsar nos ouvidos, os músculos responderem com uma força que eu nem sabia que tinha. Gritei, mas minha própria voz parecia distante, irrelevante diante da urgência daquele momento.
— Larga ela! — minha voz saiu rouca, rasgada.
O homem se virou, assustado, os olhos arregalados, claramente pego de surpresa. Ele tentou puxá-la mais rápido, como se pudesse terminar o que estava fazendo antes que eu chegasse até ele. Foi o erro.
Quando alcancei os dois, não houve diálogo. Não houve hesitação.
Minha mão foi direto ao ombro dele, puxando com força, arrancando-o de perto dela. Ele tentou reagir, tentou falar, tentou justificar — palavras desconexas, inúteis — mas eu já não estava ouvindo.
O primeiro soco veio quase instintivo, atingindo o rosto dele com um impacto seco que ecoou na noite. O segundo o fez tropeçar para trás, cambalear, bater contra a lateral da van. Ele caiu, xingando, tentando se levantar, mas bastou um passo meu na direção dele para que o medo tomasse conta.
Ele correu.
Entrou na van às pressas, fechou a porta com violência, ligou o motor com um barulho agressivo e saiu em disparada, cantando pneu, desaparecendo rua abaixo como um rato acuado.
O silêncio que ficou depois foi ensurdecedor.
Meu peito subia e descia rápido. Minhas mãos tremiam. Só então percebi o quão forte eu estava apertando os punhos.
E Ângela…
Angela estava caída no chão.
Corri até ela, ajoelhando imediatamente, esquecendo a sujeira do asfalto, o frio que subia pelos joelhos, tudo. Segurei seu rosto com cuidado, chamando seu nome, tentando mantê-la acordada.
— Ângela… Ângela, olha pra mim… por favor…
Nada.
Seu corpo estava completamente mole, entregue. A respiração, porém, estava ali — fraca, mas presente. Encostei o ouvido perto do peito dela, sentindo aquele ritmo irregular que me deu um alívio imediato e doloroso ao mesmo tempo.
Passei um braço por baixo de suas costas e outro por trás de seus joelhos, erguendo-a com cuidado. Ela era leve, mais do que eu imaginava, e isso só tornou tudo mais angustiante. O corpo dela se encaixou contra o meu, a cabeça tombando contra meu ombro, os cabelos ruivos caindo sobre meu braço.
Fiquei ali, parado, com ela nos braços, no meio daquele estacionamento vazio, iluminado por uma luz instável, com o coração ainda em guerra dentro do peito.
Não sabia o que fazer a seguir.
Não sabia quem chamar.
Não sabia quanto tempo ela estava assim.
Não sabia o que aquele homem tinha feito.
Só sabia de uma coisa.
Ela estava viva.
E agora, estava segura.
Nos meus braços.
E, pela primeira vez em muito tempo, tive a nítida sensação de que minha vida acabava de cruzar uma linha invisível — daquelas que, depois que você atravessa, não existe mais volta.