O jantar que não estava nos meus planos

952 Words
O restaurante estava cheio, como quase todas as noites. Luzes quentes, taças tilintando, o cheiro familiar de massas frescas e carnes bem seladas. Era o tipo de ambiente que eu conhecia como a palma da minha mão — não só porque meus pais eram os donos, mas porque aquele lugar fazia parte da minha história tanto quanto a igreja. Mesmo assim, nada ali parecia comum naquele momento. Ela estava sentada à minha frente. Elegante sem esforço, postura firme, mas com algo no olhar que denunciava cansaço. A mulher cruzava e descruzava os dedos sobre a mesa, como se estivesse tentando parecer tranquila enquanto algo por dentro a incomodava. O vestido era sóbrio, caro, perfeitamente ajustado ao corpo, mas não chamativo. Era o tipo de mulher que não precisava provar nada para ninguém. — Obrigada por insistir — ela disse, com um meio sorriso. — Eu realmente estava pronta pra ir embora. — Fico feliz que tenha ficado — respondi, sincero. — Às vezes… uma noite r**m só precisa de um pequeno desvio. Ela me observou por alguns segundos antes de rir baixinho. — Você fala como alguém que já desviou bastante do roteiro. Se ela soubesse. Ela respirou fundo, como se finalmente estivesse se permitindo relaxar. — Então… — ela começou — acho que eu deveria me apresentar direito. Meu nome é Ângela. — Gabriel. — Prazer, Gabriel. O jeito como ela falou meu nome foi diferente. Não sedutor, não exagerado. Apenas… atento. — Você trabalha sempre aqui? — perguntou. — Sim. Com meus pais. — Ah… então isso explica — ela sorriu, olhando ao redor. — Tudo aqui tem cara de quem foi pensado com carinho. Assenti. — Eles são detalhistas. E muito dedicados. — Dá pra sentir — ela fez uma pausa, depois inclinou um pouco o corpo para frente. — Bom… já que você está fazendo companhia a uma desconhecida que levou um bolo… acho justo explicar. Esperei, em silêncio. — Eu sou separada — disse, direta. — Recente. Um casamento curto demais pra terminar bem e longo demais pra não deixar marcas. Havia firmeza na voz, mas também algo quebrado, escondido entre as palavras. — E… — ela continuou — depois de um tempo sozinha, amigos insistem, você cria coragem, baixa esses aplicativos… — deu de ombros — e aqui estou eu. — Tentando dar uma nova chance — completei. Ela me olhou surpresa. — Exatamente isso. O prato chegou, interrompendo por um instante a conversa. Começamos a comer, e aos poucos ela foi se soltando mais. — Marquei com um cara hoje — disse, girando o garfo distraída. — Conversamos por semanas. Educado, engraçado… parecia normal, o que hoje em dia já é um grande diferencial. Sorri de leve. — Combinamos aqui. Lugar público, seguro. Ele disse que chegaria cedo. — E não chegou — observei. — Não. — Ela suspirou. — Mandou uma mensagem dizendo que estava a caminho… e depois silêncio. Havia decepção ali. Não só pelo encontro frustrado, mas pela repetição de algo que, claramente, ela já conhecia bem. — Eu fiquei sentada aqui pensando se isso dizia mais sobre ele… ou sobre mim. — Diz sobre ele — respondi sem hesitar. — Sempre diz. Ela me encarou, como se não esperasse aquela convicção. — Você fala isso com muita certeza. — Algumas coisas a gente aprende observando pessoas — respondi, escolhendo bem as palavras. Ela sorriu de novo, dessa vez mais sincero. Foi então que senti. Antes mesmo de ver. Uma presença estranha, um deslocamento no ar. Alguém se aproximando da mesa sem o cuidado de quem pede licença. — Ângela? Levantei os olhos. O homem era mais velho do que eu. Bem mais. Roupa comum demais para aquele ambiente, postura invasiva, sorriso que não combinava com os olhos. Ângela franziu a testa imediatamente. — Sim…? — Me desculpa o atraso — ele disse, puxando uma cadeira como se tivesse todo o direito de estar ali. — Trânsito, você sabe como é. Ela me olhou, confusa, depois voltou o olhar para ele. — Desculpa… quem é você? — Ué — ele riu, nervoso — sou eu. Do aplicativo. O silêncio que se seguiu foi pesado. — Não — Ângela respondeu devagar. — Você não é. Ele piscou, como se estivesse avaliando a melhor resposta. — Sou sim… só que as fotos são um pouco antigas. De quando eu era mais novo. Ela se inclinou um pouco para trás, claramente desconfortável. — As fotos eram de outra pessoa — disse. — Bem diferente. Antes que ele pudesse responder, eu me levantei. Meu corpo reagiu antes da minha razão. Coloquei a mão firme sobre o ombro dele, sentindo a tensão imediata. — Acho que houve um engano — falei, com a voz calma demais para a situação. — O senhor pode se retirar. Ele me encarou, avaliando. Depois olhou para Ângela. — Eu só queria conversar — disse, tentando suavizar. — A sós. Meu instinto gritou. — Não é uma boa ideia — respondi. Ângela hesitou. Vi o conflito nos olhos dela. Educação demais para a própria segurança. Aquele impulso tão comum de não querer causar cena. — Só um minuto — ela disse, levantando devagar. — Eu falo com ele e já volto. — Ângela… — comecei. — Tudo bem — ela interrompeu, tentando sorrir. — Já volto. Ela passou por mim, seguindo o homem em direção à saída. Fiquei parado. O restaurante continuava vivo atrás de mim. Risadas, conversas, música baixa. Mas algo dentro de mim estava completamente fora de lugar. Meu coração batia errado. E, enquanto eu observava a porta se fechar atrás deles, uma única certeza tomou conta de mim, pesada como uma oração urgente: Eu não devia ficar ali parado.
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