Capítulo 1: Desastre Alcoólico
• James
Um último clique e meus olhos se abriram com rapidez. Sentei na cama com o peito arfando. Meu coração batia acelerado e a cama estava úmida de suor. Não conseguia entender porque os segundos pareciam tão lentos e no final, tudo era rápido demais. Além do mais, eu não era capaz de me mexer. Quase sentia minha pele queimar novamente. Um pesadelo i****a era a explicação razoável que eu dava para mim mesmo, todas às vezes que acordava naquele estado. A merda era que minha consciência sabia da verdade.
Devagar, tentei levantar da cama, mas a dor de cabeça que martelava, lembrou-me que passaria o dia com uma p**a ressaca e, automaticamente deitei novamente, a fim de dormir um pouco mais. Porém, quando me virei na cama, uma mulher de cabelos dourados praticamente roncava ao meu lado. Foi então que notei as molas estranhas da cama, o tom muito claro nas paredes e os móveis diferentes. Eu não estava no meu quarto. Sequer, na minha casa.
Merda James, o que você está fazendo?
Por algum motivo, eu me fazia essa pergunta todos os dias. Devia ser por isso que passava o resto do dia atrás de alguma coisa que não sabia o que era. A questão é que no final da noite, eu continuava em dúvida e acabava nesse mesmo cenário, com uma mulher diferente sempre que podia.
Com algum esforço, me levantei e vesti minhas roupas. Só então, me dei conta do horário e de que estava fodidamente atrasado.
— Porra...
Sussurrei um pouco alto demais, já que minha anfitriã acabou por acordar.
— Oi J. Está indo aonde?
— Oi... Hã... Eu meio que tô atrasado pro trabalho.
— Quer uma carona?
Ela sentou na cama, sem a menor preocupação em estar totalmente nua. Eu olhei rapidamente para seu corpo, engoli em seco e guardei meu p*u dentro das minhas calças. Ele estava me dando muitos problemas ultimamente.
— Não, tá tranquilo. Eu me viro.
— Então tá.
Ela deitou novamente e se virou.
Eu parei no meio do processo da calça e arquei uma sobrancelha.
— É só isso? Não vai insistir?
— Pra quê?
— Sei lá, carência?
Ela deu uma risada suave.
— Como se você fosse o primeiro com quem eu tivesse transado e ido embora no dia seguinte e nunca mais me ligado.
Pensei no quão vazio e deprimente isso era. Mas não tinha tempo pra pensar. Estava atrasado demais.
Terminei de me vestir e ia sair correndo dali, mas achei muito humilhante sair sem nem mesmo saber o nome dela.
— Então, qual seu nome? Eu acho que podíamos...
— James, não é?
Ela se levantou, coisa que me deixou um pouco mais e******o, porém mantive o controle, até onde podia.
— Olha, você não vai lembrar do meu nome daqui há dez minutos, e sabe o porquê disso?
— Por quê?
Vestindo uma camisola cinza com símbolo de unicórnio e amarrando os cachos dourados, ela incitou:
— Somos pessoas vazias, James. Buscando refúgio em noites de sexo com desconhecidos. Estamos à procura de respostas que ninguém sabe. Você passou uma hora da noite passada comigo falando de como tinha sido horrível ser abandonado pela sua ex e como o seu trabalho te faz pensar o tempo todo na vida e na morte e ao mesmo tempo, você não consegue realmente aproveitar a vida como se a valorizasse. Então, não fará a menor diferença pra você saber ou não o meu nome. E nem o meu número, já que não vai me ligar.
Eu realmente não estava a fim de pensar, mas todo aquele monólogo sobre a vida e o quão estamos vazios por dentro me fez, por um segundo, querer mudar e ser uma pessoa diferente. Mas passou.
— Bom, eu realmente estou atrasado, então...
— A saída fica à esquerda. Boa sorte com a sua vida.
— Obrigado, acho.
• Lindsay
Crianças sonhadoras querem salvar o mundo. Não todas, mas algumas só querem melhorar um pouco o lar onde vivem. Eu sempre fui esse tipo de criança. Mas ninguém me disse que eu teria de vender minha alma para isto.
Era uma manhã de inverno. Estava frio e eu iria começar um novo trabalho. Depois de quase seis meses em teste, finalmente tinha sido admitida para trabalhar em uma das melhores agências de inteligência e espionagem. Eles eram uma organização que trabalhava em conjunto ao governo, mas se qualquer missão falhasse e tentassem ligar a AIIS ao governo americano, eles negariam veementemente sobre o assunto. Típico.
Precisavam de nós, mas não ligavam para nós. Éramos meros peões em seus jogos sórdidos e maléficos. Deste modo, a sujeira toda era limpa quando precisavam e eles ficavam com os créditos. Se desse algum problema, eles não tinham qualquer responsabilidade ou conhecimento sobre o assunto. Mas era isso. Este era meu melhor modo de tentar salvar o mundo. Ou pelo menos era isso de que tentava me convencer todos os dias ao acordar.
Depois de pronta, segui rumo ao prédio da AIIS. Para a maioria, era onde policiais internos se reuniam. A galera da informática, da burocracia e da invenção e fabricação de equipamentos. Para nós, era onde sabíamos em qual fogo nossas mãos iriam se queimar.
Mas por mais que pareça r**m, a princípio, durante os últimos anos, esse foi mais do que meu objetivo de vida. Era um sonho que flutuava em minha mente e me fazia ficar acordada durante a madrugada a fora para estudar ou treinar. Eu acordada às 5h da manhã todo dia para caminhar na praia e seguir pro treinamento, que envolvia em sua maioria o combate corpo a corpo. Depois do almoço, passava a tarde enfurnada em alguma biblioteca da cidade e depois treinava minha mira e minhas habilidades de se infiltrar sem ser notada. Mais tarde, meu jantar era lasanha de micro-ondas e mais uma dúzia de livros enormes.
Eu gostava de estudar, claro, mas, às vezes, m*l tinha tempo para respirar. As páginas cheias de palavras pequenas me sugavam todo o fôlego que sobrava no final de cada dia.
Felizmente, cada noite perdida tinha valido a pena.
Estacionei o carro na garagem e me dirigi ao elevador. Minhas mãos suavam frio. O que era engraçado, já que não tinha qualquer sinal de calor ao redor. Para meu azar, o elevador da garagem estava em manutenção, o que me obrigou a entrar em uma portinha ao lado e sair no saguão. Antes de entrar havia passado por uma checagem de documentação na entrada da garagem e ali se encontrava uma pequena fila, aparentemente, de curiosos, entregadores e alguns funcionários do prédio que não tinham a ver com o serviço oferecido ali.
— Ei, saí da minha frente!
Fiquei tanto tempo parada observando o térreo, que não me dei conta de que estava parada em frente a porta que dava acesso à garagem. Dei dois passos para o lado e deixei o apressado passar.
Não levei muito tempo ali, estava parecendo uma criança conhecendo o parque de diversões que estava esperando há meses para ir.
Finalmente dei os primeiros passos em direção ao elevador que me levaria ao meu tão sonhado destino. Mas na hora de entrar, me esbarrei com um corpo fedido a bebida e de olhos marrons claro, cheio de olheiras.
— Ah, me desculpe. Eu estava distraído.
Ele disse, com rouquidão na voz. Seu hálito fedia a Uísque barato e bala de hortelã. Quando viu que estava olhando muito para seus olhos, ele pôs os óculos escuros que estava pendurado em sua camisa e deu um sorriso discreto, mas cínico.
Para o meu próprio bem, decidi apenas entrar sem dizer uma única palavra.
Apertei o botão do 7° andar. Ele também entrou, olhou para o painel e não se mexeu. Ficou lá, com a cabeça baixa e fungando a cada dois segundos. Normalmente não ficaria reparando nos trejeitos daquele homem, que em minha suposição, poderia ser um agente. Mas suas condições, no mínimo, questionáveis, me levava a crer que ele passara a noite na farra e não se importava em vir trabalhar ainda com o cheiro da bebida e do corpo suado.
Um agente secreto que não era discreto.
O som das portas se abrindo alertaram meus pensamentos inquietos e, para meu desgosto, nos esbarramos outra vez na saída do elevador.
— Ah, de novo... Olha, eu...
— De verdade, acho que seria, no mínimo, mais profissional pelo menos lavar o rosto pra despertar um pouco, hum?
Ele parou, quieto, me encarando como se quisesse descobrir minha identidade e ao mesmo tempo me fazer desaparecer. Acabei por sair do elevador antes que acontecesse novamente. Sinceramente, aquele não tinha sido um bom jeito de começar o dia, mas, felizmente, ainda eram 9h da manhã.