Capítulo 2: Apresentações

2098 Words
• James Ainda estava melancólico e pensativo quando o táxi estacionou em frente à agência. Peguei algumas balas de hortelã e fui mascando até entrar no prédio. Durante o trajeto de táxi, fiz uma parada e comprei óculos escuros, pois sabia que as olheiras iriam me denunciar. Não é como se meu subconsciente não estivesse gritando que tudo em mim estava denunciando minha péssima noite, contudo, uma faísca de esperança se mantinha acesa com a ideia de que conseguiria ser discreto, pelo menos até o horário do almoço. Mas, não estava incluso nos meus planos me esbarrar com aquela belíssima loira, bem na porta do elevador. Eu ainda estava um pouco sonolento e levemente tonto por conta da agitação da manhã de ressaca. Por sorte, minha dor de cabeça estava suportável. Mantive uma postura mais discreta e insegura, mas ela me olhava de soslaio. Eu podia sentir o olhar julgador e repreensor dela sobre mim. Não que eu ligasse muito. Não seria a primeira vez, claro, mas, algo nela me incomodava. Não sabia exatamente dizer o que era. O problema é que quando estou com ressaca e com sono, eu fico 30% mais lento e isso ocasionou em um segundo encontro, que, ao que parece, irritou um pouco mais a bela dama. Eu tinha que confessar, ela tinha um olhar feroz e um tom muito agradável e ao mesmo tempo, ameaçador. Permaneci durante breves segundos olhando-a, como se quisesse não apenas saber mais sobre ela, mas também fazê-la desaparecer. E nem seria com violência. Assim que adentrei o 7° andar, Stuart, meu estagiário, me entregou um copo cheio de café puro e sussurrou. — A chefe está te esperando. — Oh, merda. — Vai no banheiro, lava esse rosto, coloca uma balinha na boca e arrasa. Com seu jeito divertido e animado, Stuart quase me expulsou da sua frente. Entrei no banheiro bebendo o café e balancei a cabeça, abrindo e fechando os olhos, na tentativa de despertar. Pus o copo em cima da pia, junto com os óculos e joguei água no rosto. Por alguns segundos, encarei meu reflexo deprimente, ainda amargurado, sentindo as palavras daquela mulher se abater sobre mim com certo peso. Havia menos de três meses que tinha sofrido a pior das traições e, talvez, apenas talvez, não tenha superado. Provável que eu tenha voltado cedo demais a ativa, decerto que eu ainda devesse passar alguns dias em casa remoendo a bola de neve em que meus sentimentos se transformaram, talvez eu devesse continuar a fazer terapia e talvez, eu nem devesse voltar a ser um agente secreto. Durante aquelas poucas semanas que se sucederam a minha última missão, eu havia me consultado com uma psicóloga muito bonita e, com certeza, eu não deveria ter dormido com ela, o que, consequentemente, adiantou minha alta e liberação pra voltar a ativa. E então cá estou eu, com dúvidas razoáveis, noites m*l dormidas, pesadelos com o dia em que minha vida virou de cabeça para baixo, com um péssima cara de sono e com bafo de bebida álcoolica misturada aos efeitos temporários da bala de hortelã. Tudo isso, prestes a encontrar minha adorável chefe, que, por melhor que seja como pessoa, tem uma linha dura quando o assunto é trabalho. Repentinamente, dois homens entraram no banheiro rindo, me fazendo sair do devaneio de pensamentos deprimentes e lavar novamente meu rosto. Ao caminhar até a sala, me senti ligeiramente estranho, recebendo olhares. Não sei porque ainda estava pensando que seria diferente, com o excesso de perfume em meu corpo pra mascarar a falta de banho e os óculos escuros pra esconder as olheiras cada vez mais profundas. Bati duas vezes na porta e após um "Entre" rápido e seco, abri a porta e rapidamente estava na sala de Christina Bryant, uma das mulheres mais temida do continente. — Olá, minha adorável Christina. — Sente-se, James. O tom novamente seco acionou um alerta de que as coisas hoje não seriam boas. — Quero apresentar nossa nova Agente, Lindsay Hendrix. Só então tinha reparado que em pé, ao meu lado, tinha uma mulher trajada com calça social preta, uma camisa branca e uma jaqueta jeans por cima, a imagem era perfeita demais, o conjunto da obra, os olhos grandes e verdes, o cabelo louro preso em um formoso e impecável r**o de cavalo, e uma cintura... Então essa era a dama do elevador. — Este é nosso melhor agente, James Lorenzo. — O melhor? Ela indagou, olhando para Christina e me encarando, novamente. Não pude evitar um sorriso de ironia. — Confesso que não estou nos meus melhores dias, mas ainda sim, um dos melhores, eu acho. Ela deu uma risadinha de escárnio e levantou uma sobrancelha, desafiadora. Eu estava gostando dela. Estava mesmo. Mas de repente, ela começava a ficar irritante. — Vocês estão perdidos, nesse caso. — A senhorita não me conhece. — Sei o suficiente. — Vocês se conhecem? — Não. Dissemos ao mesmo tempo, desesperados para desfazer qualquer laço que possa parecer já ter acontecido. Christina ignorou completamente o clima tenso e se sentou, mandando que fizéssemos o mesmo. Lindsay sentou na cadeira à esquerda e eu sentei ao lado, em outra pequena poltrona de couro. — James, você ficará responsável por mostrar tudo a Lindsay, e, muito em breve, terão um trabalho a fazer, juntos. — Não tem ninguém mais sóbrio? — Escuta aqui garota... — Não comecem, por favor. Seja lá qual for o problema existente, resolvam fora do trabalho e de seus respectivos horários. Aqui somos uma equipe. Fazemos parte de um único trabalho e, se não tiver colaboração, pode se retirar sem direito a retorno. O olhar feroz de Christina sobre nós indicava que não estava para brincadeiras. Havia dias em que seu humor estava nas nuvens e ela permitia até que trouxessemos café pra ela. Havia dias que ela já chegava com seu café e que ninguém se atrevesse a cruzar seu caminho. O problema é que nunca sabíamos em qual dia ela estava. — Alguma pergunta? Lindsay abriu a boca pra falar, mas as sobrancelhas encolhidas rigidamente e a linha dura de Christina expressada em toda sua face a fez se calar. Acredito que ela tenha entendido que não tínhamos tempo e muito menos estávamos ali para uma palestra onde ela poderia aprender tudo que sabia. O que pegava mesmo os novatos era ainda acreditar nas palavras da Bryant. — Antes do almoço quero os dois aqui para os detalhes de sua missão. — Sim senhora. Levantei, pronto pra sair. Mas ainda ouvi a Lindsay sussurrar. — Isso é sério? Ele chegou visivelmente instável e... — Agente... Eu me virei até a jovem loura. Christina e ela me encararam. Não disse absolutamente nada, apenas abri a porta e saí. • Lindsay Minhas orientações tinham sido para ir até a sala da minha chefe assim que chegasse. Assim o fiz, sem me preocupar mais com o projeto de álcoolica que devia estar se tornando. Bati na porta e aguardei. Uma voz pouco receptiva mandou que entrasse. Logo na cadeira principal, encontrei uma mulher alta, pele escura e de brilhantes olhos marrons. Ela estava de cabeça baixa, assinando alguns papéis. — No que posso ajudar? — Ahn, sou Lindsay, senhora. Lindsay Hendrix. — Ah, Agente Hendrix! Pontual. Ela enfim ergueu os olhos para mim, com um sorriso muito breve e cordial, quase imperceptível. — Acordo bem cedo para minhas atividades matinais. Durante os últimos meses, foram longas horas de treinamento antes mesmo do mundo se dar conta de que tinha amanhecido. Não estava tentando me gabar ou impressioná-la, afinal, a ficha de Christina Bryant era impecável. Formada na Escola de Direito da Universidade Columbia, uma das melhores do país, com apenas 19 anos. Depois serviu o exército durante três anos, participando de missões perigosas e altamente sigilosas e que ninguém sabe nada além disso. Ao voltar para casa, estudou mais alguns anos Administração enquanto trabalhava como chefe de segurança para alguns políticos de alto nível. Aos 26 anos se candidatou para entrar na AIIS, onde com menos de dois anos já estava trabalhando como vice diretora de operações e planejamento. Não é todo mundo que chega a Diretoria da AIIS com menos de 30 anos; com tudo isso sendo apenas fruto de seu esforço, seu trabalho duro e dedicação aos estudos e ao seu país, além do foco tremendo para não perder a linha em nenhum momento de sua carreira. Apesar de que, certamente, ela teve seus momentos de incertezas e irritações. Ninguém chega no auge sem surtar um pouco. — Gosto disso em você, Lindsay. Li bem sua ficha e todos os seus instrutores e chefes para quem liguei fizeram elogios à sua disciplina. — Fico feliz em saber disso, senhora. Me dediquei muitos nos últimos anos. E tive uma grande inspiração para chegar até aqui. — É mesmo? Quem é? — Christina Bryant. Um sorriso verdadeiro enfim brotou em seus lábios. Ela sorriu tão verdadeiramente que quase deu uma risada escandalosa. Seus dentes eram muito bem alinhados e o sorriso hipnotizante. Além de inteligente, tinha uma beleza incomparável. — Nossa, eu realmente não estava esperando por essa. Também sorri, inevitavelmente. Abaixei um pouco a cabeça. Estava em frente a pessoa que tinha se tornado um exemplo de como chegar no topo de seus ideais. Mas havia outra também. — Ah, tem outra pessoa, mas não sei o nome dele. — E qual a história? — Eu ouvi falar de um agente que passou quase um ano infiltrado na casa de um traficante. Mas não qualquer traficante... Ele ajudou a prender Vincent Crowley Decker, um dos maiores traficantes de pessoas do continente. O cara é letal. Com uma rede monstruosa de pessoas ligadas no mundo todo. Parece que ainda tem gente sendo presa até hoje, em vários países. Sem contar que ele trabalhava com outros tipos de coisas também. Era ligado a Máfias igualmente perigosas. Ao que parece, está preso em Ilha, onde instalaram uma prisão de segurança máxima. — Vincent é praticamente um psicopata, da pior espécie. Nada está acima dele e de seus caprichos. Ele trabalhava com tráfico humano, de drogas, de órgãos e de armas. Tinha sua própria organização criminosa que se estende por todo o continente americano e um pouco mais. Ainda falta cerca de 214 pessoas serem presas por associação a ele, coisa que o FBI, a SWAT, a Polícia Federal e outras agências estão trabalhando para finalizar. A única coisa que ele prezava era pela família, mas não de um jeito amoroso. E por ela mesmo, ele caiu. — Conhece bem a história. Mas não deveria me surpreender, afinal você comanda uma grande agência e... — E sou responsável por essa operação. Conheço o agente que esteve infiltrado. Mas não posso revelar quem é. Na verdade, não deveria nem mesmo dizer que estava por dentro de tudo. Mas se essa informação vazar, eu saberei exatamente quem foi. — O que faria de mim, uma pessoa morta. Levantei o olhar para ela e dei um sorriso nervoso. Sabia um pouco com quem estava lidando, mas certamente que havia muito mais sobre Christina que eu jamais iria descobrir. E era melhor assim. — Você é uma garota inteligente. Ela encostou o corpo na poltrona e me encarou, com certo orgulho. Provavelmente tinha muito apreço por ter feito parte de uma das maiores missões, que rendeu muito prestígio e credibilidade aos envolvidos, seja lá quem fosse eles. — Então quer dizer que essa pessoa é daqui? — Não sei, e acho melhor não perguntar. A absolutamente ninguém. — Não se preocupe, eu... Fomos interrompidos por uma batida. Christina pediu para entrar, trazendo à tona uma feição mais fechada e séria. E logo a minha se igualou, ao ver entrar o projeto de ressaca, com a voz mansa e carinhosa, isso claro, até me ver ali. Não estava nem um pouco satisfeita em ser conduzida por ele que m*l tinha condições de conduzir suas próprias pernas. E pior, de saber que minha primeira missão seria ao lado dele. Só esperava que a visão de Christina sobre ele fosse tão boa quanto seus instintos, sua postura e determinação, ou eu estaria morta. Saí da sala da Christina e fui atrás do tal James. Um agente disse que tinha visto ele entrar no banheiro. Aguardei do lado de fora, mas ouvi um barulho estridente de alguém se engasgando e não pensei duas vezes antes de entrar. Em uma das cabines, a porta estava aberta e tinha um homem de joelhos sobre o vaso sanitário. É, eu definitivamente estava morta.
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