• James
Estava levemente irritado por causa das palavras da loira bonitona. Mas não a tirava de sua razão. Meu estado era deplorável, sem um pingo de profissionalismo e bom senso.
Ao mesmo tempo em que minha consciência gritava sobre as últimas decisões que havia tomado sem sua permissão, uma ânsia de vômito misturada a dor de cabeça tremenda vinha surgindo. Andei em passos rápidos até o banheiro, onde tentei segurar um pouco, mas não adiantou. Acabei pondo pra fora alguma coisa que eu não sabia o que era, afinal, não tinha lembranças de ter comido alguma coisa. Mas lá estava eu, com a cabeça no vaso, sentindo como se meu estômago estivesse sendo revirado, triturado no liquidificador e jogado no moedor, para depois passar arranhando pela minha garganta.
— Precisa que eu segure seu cabelo?
A voz agradável ecoou pela minha cabeça, enquanto ainda tentava respirar, só que com um tom de ironia bem presente.
Depois de levantar, sentindo minhas pernas enfraquecerem, respiro fundo algumas vezes e olho pra ela, que está encostada na parede, me encarando com uma expressão de nojo e pena.
— Me dá um tempo, tá bom?
Fui até a pia lavar meu rosto.
Deus, eu estava fodido. E certamente não iria melhorar ao longo do dia. Não sem pelo menos tomar um pouco de café com torradas.
— Faremos assim: vou dizer pra Christina que me mostrou tudo aqui, e que não está em condições de permanecer no trabalho pelas suas condições... Enfim, uma desculpa de gripe deve resolver. Assim eu não preciso te aturar de ressaca o resto do dia.
Ergui minha cabeça, que parecia um pouco mais pesada do que antes e sorri, me olhando no espelho.
— Mentiria pra sua chefe no primeiro dia por mim? Que comovente.
Virei meu rosto devagar para encontrar o dela se remoendo, tentando descobrir se mentir para Christina era melhor do que suportar minha companhia.
— Tenho certeza que não vai querer minhas provocações o dia inteiro, então, inventa você uma desculpa.
— Eu estou muito bem pra isso.
— Você precisa comer, tomar um banho e dormir por longas horas, para, no mínimo, estar em boas condições amanhã.
— Nisso você tem razão. Mas já que preciso te mostrar tudo, assim o farei.
Não estava disposto a facilitar para ela, de forma alguma. Ela queria se livrar de mim. Pois então, eu daria menos paz ainda.
— Ah, sério? Vai ser tão implicante assim?
— Acredite, você está apenas prolongando tudo isso com esse papo de quem quer me ajudar.
— Talvez eu queira.
Olhei pra ela e segurei a vontade de cair na gargalhada, o que causaria mais dor de cabeça.
— Já que se ver livre de mim é tão importante, eu vou te deixar em paz. Não é como se eu não fosse deixado o tempo todo.
Enxuguei meu rosto no papel toalha mesmo. Eu podia sentir o olhar de pena dela aumentando. Eu não gostava, mas também não sentia revolta por isso. Acredito na ideia de que quando uma pessoa sente pena da outra, é uma das formas mais comuns e ao mesmo tempo embaraçosas de demonstrar empatia.
Eu estava saindo do banheiro, quando a ouvi questionar:
— Por que Christina Bryant, com um currículo impecável e uma criteriosa linha de admissão, te considera um dos melhores agentes?
Parei na porta, me fazendo a mesma pergunta. Christina realmente era brilhante. Tinha chegado a um nível supremo em muito pouco tempo, usando apenas seus esforços, dedicação e sua inteligência. Por qual motivo ela me considerava tão bom e confiava severamente em minha pessoa? Bom, talvez eu soubesse o motivo. Na verdade, essa podia ser a única razão por ela ainda não ter me dado uma bronca daquelas.
— Deve ser porque passei pelo inferno e o destruí.
Não demorou muito após minha saída para ouvir os passos de Lindsay atrás de mim. Quieta, ela observou discretamente o local.
As mesas dispostas, muito parecido com alguns distritos policiais, o diferencial era que a maioria reunidos ali não iam para as missões. Naquele momento, pelo menos metade dos agentes estavam em missão, fosse de tocaia em alguma rua silenciosa, fosse socando a cara de alguém pra descobrir onde seria a próxima carga pesada de drogas, fosse para rir das piadas de algum criminoso i****a enquanto bebe, fuma e come com ele, no intuito de descobrir seus esquemas e todos os envolvidos.
Seja lá qual fosse a questão, quem mais permanecia naquela sala todos os dias eram os estagiários, assistentes e técnicos. O pessoal do laboratório também não saía de lá, assim como os treinadores.
Quem subia de cargo aqui, como no caso de alguns estagiários e assistentes, podia passar pelo próprio treinamento da NI7, o que não difere muito de outros treinamentos. A maior diferença é que aqui dentro, aprendemos desde o início que lealdade e trabalho em equipe se torna, em muitos casos, os melhores meios de sobrevivência.
A maioria das missões são feitas em duplas. Em especial aquelas que envolvem vigilância e/ou proteção. Christina mantém uma política rigorosa de que duas cabeças juntas trabalham melhor do que uma. Contudo, em hipótese alguma, poderia a ver envolvimento emocional. Inclusive, nem mesmo era permitido convidar colegas ou amigos para tentarem uma vaga aqui. O máximo de sentimentos que podíamos ter, era a confiança plena no outro, o que, na minha opinião, era muito maior do que algumas noites de sexo.
Quer dizer, o lema era literalmente confiar sua vida no outro. Por que não criar um vínculo mínimo de amizade para que possa se estabelecer a verdadeira confiança? A maioria dizia que confiava apenas para poder permanecer, mas na prática, muitos agentes já foram feridos ou mortos por essa falta de sinceridade.
Tentei resumir isso a Lindsay, que claro, não gostou nenhum pouco da ideia.
Eu não podia julgá-la. O suposto parceiro dela tinha aparecido no trabalho de ressaca.
— Vamos mesmo trabalhar juntos?
— Provavelmente deve ser apenas uma missão. Pra você pegar o jeito da coisa.
— Mesmo assim, uma missão é suficiente para me levar pro caixão. Eu ainda quero desfrutar muito disso. Deu muito trabalho entrar aqui pra acabar morta por causa de um...
Parei de caminhar. Estava literalmente fazendo um tour pela agência, tentando contar um pouco sobre como tudo funcionava e novamente seria interrompido por outro insulto. Não que eu não o merecesse ou não gostasse de ser a vítima de vez em quando, mas estava ficando irritante...
— De um o quê? Bêbado? Olha, eu não sou assim todos os dias.
— Ah, acho que posso ficar aliviada então. Mas assim, só pra constar, você pretende vim do mesmo jeito amanhã? Só pra eu deixar uma carta de despedida pra caso algo dê errado.
Eu queria rir, mas ao mesmo tempo, sentia que o real problema não era comigo.
Tudo bem, eu tinha chegado no trabalho de ressaca e tínhamos nos esbarrado duas vezes no elevador, era constrangedor e engraçado, mas não era um problema tão grande a ponto de ser mencionado a cada dez segundos de conversa.
Parei de frente pra ela e cruzei meus braços. Mantive meus olhos abertos, o máximo que consegui, e a encarei, com uma expressão bem séria.
— Quem era ou é o bêbado da sua família?
— O quê?
Ela enrubesceu na hora.
— Está mais do que claro que não sou eu que te incomodo, mas sim a bebida. Você parece ter aversão às pessoas que têm esse comportamento.
— Que tipo de comportamento?
— Irresponsável, instável e auto destrutivo. Que bebe e esquece do dia seguinte. Que não se controla o suficiente pra aparecer, ainda de ressaca, no trabalho.
A sobrancelha erguida dela abaixou, demonstrando um sinal de que não apenas estava certo, mas ela ressentia-se por descontar sua frustração em mim.
— Não sei do que você está falando. E acho melhor encerrar esse assunto por aqui.
Ela saiu da minha frente, dando passos largos e apressados. Estava reprimindo algum sentimento que ainda tinha em conflito.
Não é como se eu não fizesse o mesmo todos os dias. Mas ao menos, eu descontava na bebida, não nas pessoas a minha volta.
• Lindsay
James era um incômodo. Como uma espinha em véspera de casamento. Chato pra caramba. O problema era que uma espinha ainda podia ser resolvido. Um pouco de maquiagem e efeito nas fotos e estava tudo bem. Na vida real, não podia cobri-lo ou deletá-lo. Mas bem que queria essa segunda opção. Ou cobri-lo. Mas só se fosse de socos e chutes.
Por mais que tentasse ajudar, de nada iria adiantar. Seria beneficente para ambos os lados, porém, há coisas que fazem com que a gente persista mesmo sabendo que o outro não aceitará. Na verdade, acho até que ele estava se divertindo em me ver irritada com a situação. No entanto, não disse uma palavra em todo seu discurso, após sairmos do banheiro. Contudo, a ideia de que precisaria confiar, por um único segundo, em seu comportamento é extinto, me fazia ficar irritada.
Talvez eu estivesse exagerando, mas nossa profissão requer muito cuidado. Podemos ser descobertos e assassinados a qualquer momento. Não é à toa que a maioria se afastava severamente de sua família. Ou os mantinha bem longe, sob proteção de agentes aposentados ou que trabalhavam em outros estados ou países. Mary, minha melhor amiga, foi a quem atribuí esse favor. Ela tinha guarda costas é claro, eles obedeciam suas ordens como cães bem treinados. Mas confiava apenas nela, para lidar com qualquer situação de perigo que os envolvesse. E se algo acontecesse a mim, morreria sabendo que eles estariam protegidos pelo resto de suas vidas. Mas aquela situação era diferente. James era um desconhecido. Um colega de trabalho que tinha chegado em péssimo estado, a ponto de se esbarrar comigo duas vezes no elevador e precisar de óculos escuros, perfume em excesso e balas de hortelã para se manter, aparentemente, em estado considerável, apesar de que, acredito eu, ninguém tenha engolido muito toda essa encenação.
Porém, o que mais me incomodou durante todo aquele dia, fora suas insinuações sobre meu verdadeiro motivo de estar tão irritada. E o pior, é que ele estava certo.
Eu tinha meus motivos para odiar pessoas com aquele comportamento. Para odiar pessoas bêbadas. Ou que bebiam tanto que esqueciam do outro dia.
Era direito dele, claro, ser irresponsável a qualquer nível. O problema é que, em determinado momento, as ações dele poderiam afetar outras pessoas.
Há quase dez anos, uma pessoa muito especial foi tirada de mim, pelas consequências das escolhas do outro. Alguns anos depois, meu irmão, Jack Hendrix, quase se perdeu para a bebida e levou consigo boa parte da união familiar que tínhamos. Bom, união não seria bem o termo que eu usaria, mas a paz teria sido arruinada, se eu não tivesse mexido meus pauzinhos para tirá-lo da cadeia e fazê-lo tomar algum rumo na vida. E quando se tornou pai, aos 24 anos, resolveu que se aquietaria de vez. Atualmente ele tem 26 e se mantém estável, bebendo socialmente e tendo responsabilidade afetiva. Mas, infelizmente, para alguns, não adiantava mais; minha avó já tinha sido tirada de mim.
Quando me retirei da frente de James, me segurei para não chorar. Fazia muito tempo e, ainda assim, as lembranças me atormentavam. Saí da agência e entrei em meu carro, onde permiti que algumas lágrimas rolassem.
Amélia Hendrix fora uma mãe para mim. Laura Hendrix, sua filha, tivera depressão pós-parto e não foi fácil pra ela lidar com a filha indesejada. Eu era um estorvo para minha mãe, que não escondia isso na maior parte do tempo. No entanto, Amélia foi tudo que eu precisava. Me deu carinho, me ensinou a importância do respeito, do amor e da honestidade. Pra mim, ela foi o que Laura jamais poderia ser para qualquer um de seus filhos, mesmo que houvesse, claramente, mais amor para Jack.
Depois de um tempo, parou de doer, parou de importar se minha mãe me amava ou não. Eu apenas ignorava isso. Ignorava a dor. Ignorava a falta de carinho que deveria receber. Ignorava a inveja que sentia na escola ao ver seus amigos sendo trazidos por suas mães carinhosas. Ignorava tudo. Porque ainda tinha Amélia comigo. Mas quando ela se foi, me senti só novamente. Minhas memórias estavam mais embaralhadas. Meu peito se apertava toda vez que lembrava. A dor era lancinante. E durante meses, me devastou como um furacão. Em especial, porque pouco depois, também perdi o amor da minha vida, Chadwich.
Ele era um cara amoroso, sincero e muito divertido. O tipo de homem que em cinco minutos, conquistava a amizade, lealdade e confiança de todos em uma roda. Mas uma doença o levou embora de mim. E outra parte da minha alma, se foi, junto com ele.
Em um curto espaço de tempo, essas perdas me fizeram querer sumir da terra. Não n**o, pensei até em suicídio, na época. Mas nenhum dos dois iria querer isso.
Fora que, só causaria mais sofrimento a quem se importava verdadeiramente comigo. Muitas vezes achamos que não, mas sempre terá alguém que sentirá sua falta. Que lembrará de momentos doces ou constrangedores. Alguém que jamais esquecerá do seu sorriso ou do seu jeito engraçado de falar uma palavra.
Aprendi naquela época, que por pior que esteja, sempre pode piorar. Então enquanto der pra suportar, a gente aprendendo a viver e não apenas a existir.
Passei alguns minutos no meu carro, me sentindo m*l, com o peito ainda arfando e o rosto queimado pela ansiedade e vergonha.
Ao retornar, tinha poucos funcionários. A maioria estava em horário de almoço. James estava sentado em uma das mesas, próximo a sala de Christina. Caminhei até ele.
— Você estava certo.
Ele virou, lentamente, a cabeça até mim, com um p**a sorriso lindo, encantador e de quem queria gritar que tinha razão.
— Quer conversar sobre isso?
Parei de frente pra ele, com os braços cruzados.
— Na verdade...
— Ei, vocês dois, na minha sala agora.
Christina fora rápida, o suficiente para que eu não tivesse tempo de concluir minha ideia. Mas talvez fosse melhor assim. Não sei onde estava com a cabeça ao pensar que poderia compartilhar algo de minha vida pessoal com um estranho.
Nós dois fomos até à sala. A porta já se encontrava aberta.
— Tem uma missão pra vocês. Um caso de drogas.
— Isso não deveria ser pra polícia local ou a narcóticos?
Indaguei, curiosa pra saber o nível de missão que era passada aqui. Não que eu nunca tivesse trabalhado em um caso de drogas, mas as palavras dela murcharem minhas expectativas de fazer uma grande primeira missão.
— Estamos falando de Henrico Lavallo.
— O traficante internacional?
James deu um passo a frente, se mostrando interessado.
Christina nos entregou uma pasta para cada, com várias informações sobre o criminoso.
— Ele mesmo. Acontece que ele tem alguns contatos políticos e conseguiu uma espécie de imunidade aqui. Por isso, é uma missão para eliminar, e não prender.
— Ele estava fazendo alguns experimentos com diversas drogas, tentando criar algo mais potente que a heroína. Você não tem ideia do quanto de pessoas ele vem matando com essas experiências.
James completou, direcionando sua fala para mim. Ao passar o olho na ficha, dava pra ver que ele não era muito convencional. Sequestrava várias pessoas, usava as drogas nelas e ia monitorando. Independente do resultado, só terminavam assim; ou a pessoa era vendida para se tornar uma escrava s****l, ou era violentada até a morte ou torturada até não poder mais respirar. A crueldade com que ele lidava com aquelas pessoas era demais até mesmo para um traficante.
— Procurado em 5 países, está tirando férias aqui, na Califórnia. Gostaria que vocês, compradores interessados em seu novo experimento, fizessem uma visita a ele.
— Prazo de conclusão?
— Ele viaja em dois dias para a Colômbia. Não sabemos quando teremos outra oportunidade dessas.
— O que significa que só temos 48h para eliminá-lo.
— De preferência sem chamar a atenção de seus amigos queridos.
— Infiltração e morte natural?
Christina assentiu, sentando-se e nos encarando. Eu apenas observava. A interação entre ambos era fluída e dava para identificar uma comunicação muito semelhante em linhas de pensamento. Era divertido e quase inspirador vê-los tão entrosados. Mostrava que James tinha alguma coisa na cabeça e podia não ser apenas um alcoólatra inveterado.
— Mas não antes dele entregar os planos que tem. Precisamos saber onde está concentrado a sede do seu laboratório, para chegar aos locais menores que estão armazenando o material e colhendo as vítimas.
— Entendido.
— Alguma dúvida, Lindsay?
— Não senhora.
— Ótimo, então sumam daqui. Aliás, menos você James.
Ele já estava se virando, aparentemente empolgado. Percebi seus ombros ficarem tensos quando ouviu aquelas palavras.
Olhei pra ele, rapidamente, tentando transparecer algum conforto, apesar de achar que falhei miseravelmente e transmiti mais um “você está ferrado, sinto muito por isso” do que um “vai dar tudo certo, confia”. Bom, de qualquer forma, não havia nada que eu pudesse fazer. Ele não era uma criança e conhecia bem as consequências de seus atos.
Saí da sala e aguardei do lado de fora. Achei que escutaria gritos e um fervor na voz, mas fora pura calmaria.
O que era ainda pior.