Capítulo 4: Primeira missão

1988 Words
• James Tenho que confessar, quando ela caminhou até mim e parou, senti um formigamento estranho, uma ansiedade parecia correr o meu cérebro. E então, ela disse que eu estava certo e isso me deixou animado, mas ao mesmo tempo, lamentava que ela tenha tido de lidar com isso. É uma droga ligar com pessoas irresponsáveis e inconsequentes. Digo isso com propriedade, sendo uma pessoa com um pouco dessas duas coisas. Mas antes que pudéssemos trocar experiências profundamente dolorosas, o dever nos chamou. Ou melhor, Christina. Finalmente estaria de volta, em uma grande missão. Estava empolgado. Matar Henrico traria certa paz. Ele era perigoso, completamente instável e ensandecido. Só não tão perigoso quanto... — Melhor se sentar. Ouvi a voz de Christina ordenar, logo depois de ficarmos a sós. Eu estava bem empolgado, até perceber que não tinha escapado da minha bronca. — Me diga James, está a fim de sair da agência? — O quê? Não! — Então por que diabos veio trabalhar de ressaca? Fedendo a álcool e com essa roupa que parece ter tirado do cesto de roupas sujas? Sentado, me encostei na cadeira. Não podia simplesmente dizer que as semanas na terapia não tinha me ajudado em praticamente nada. Christina era uma mulher compreensiva, mas ela me mataria por me envolver com minha psicóloga e principalmente, por mentir. — Eu só perdi o horário... — Outra vez. Ela enfatizou, me lembrando que tinha feito o mesmo a menos de uma semana. Obviamente que ela tinha me dado um alerta sobre não repetir esse comportamento. Mas tínhamos saído do sinal amarelo e pulado pro vermelho. — Só perdi o horário outra vez. — Não posso e não vou pôr a vida dos meus agentes em risco por sua causa. — Então por que está me mandando nessa missão? — Por que acha que a Lindsay vai com você? Ela é boa. Rigorosa o suficiente para colocá-lo na linha. Bufei, enquanto revirava os olhos. Até parece que alguém seria capaz de me pôr na linha. Virei minha cabeça pro lado e escutei Christina dar um suspiro. Parecia cansada. Ao retornar meus olhos pra ela, vi que na verdade era preocupação. — James, me escute. Sabe que prezo por você. Nenhum de vocês é um número pra mim. Essa agência se tornou parte de mim, parte da minha vida. Gosto de todos vocês e, mesmo mantendo a linha dura na maior parte do tempo, sabe o quanto desejo que todos aqui se deem bem. Entende que é difícil pra mim estar nessa posição? Toda semana acontece alguma coisa. Alguém morre, alguém se demite com estresse pós-traumático ou alguém fica impossibilitado de continuar como agente. Abaixei o olhar, começando a entender que não era apenas uma bronca, um sermão que me faria me sentir uma pessoa r**m, inútil e traria sensações mais negativas. Apesar de seus poucos anos, de termos uma diferença de idade muito pouca, Christina tinha um extinto quase maternal e devia ser doloroso pra ela, quase todos os dias ver seus agentes sendo substituídos como máquina nova. — Os diretores tratam vocês como números. Todos nós somos apenas alguns dados e numerações matemáticas que lhe oferecem bons serviços em troca de outros números. Jamais tratei ou trataria vocês assim. Mas me pergunto todos os dias se não deveria ser tão robótica quanto eles, porque sempre que tento ajudá-los e dou uma nova chance, acabam mortos ou fodidos demais para qualquer trabalho. Estava envergonhado demais para conseguir encará-la, mas tinha certeza que havia lágrimas em seus olhos. Ela pausou durante alguns segundos. Aquele trabalho era bom demais pra ela. Christina não era a mulher mais sensível do mundo, mas ainda sim, conseguia humanizar os corações mais duros durante uma discussão. Ela sabia usar bem as palavras. Era coerente e emotiva, mas sem perder a racionalidade. Eu adorava aquilo nela. — Não posso perder o meu melhor agente. Não posso deixar que você destrua sua vida tentando consertar os acontecimentos do passado. Precisa se livrar de vez do que aconteceu em Madrid. E se continuar bebendo assim, se aparecer aqui novamente desse jeito... Ela balançou a cabeça. O tom de lamentação em sua voz era suficiente para saber o que ela queria dizer. — Eu sei. — Sabe que não quero fazer isso. — Eu sei. — Sabe que eu odiaria ter de fazer isso. Respirei fundo e soltei o ar lentamente. Não gostava dessa sensação. Saber que estava errado e que não tinha o controle da situação era insano e ao mesmo tempo difícil de entender. Eu devia parar, eu tinha que parar, mas ao mesmo tempo, não sabia se conseguiria. De verdade. Não tinha ideia. — Eu sei, Christina. Eu sei. E vou realizar as mudanças necessárias pra que isso não aconteça. Sabe o quanto sou apaixonado por isso. — Então não perca isso. Porque sabe que não hesito, James. Não é a primeira vez e, se acontecer novamente, não vou poder te ajudar. — Tudo bem, eu entendi. Não vai acontecer de novo. — Ótimo, eu fico mais aliviada em saber disso. Agora vai. Tem menos de 48h pra concluir essa missão. — Sim senhora. Dei um meio sorriso, ao mesmo tempo que me levantava e Christina passava a mão em seu rosto. Ela tentava transparecer seriedade o tempo todo, mas aquilo era porque precisava mostrar que não estava naquele cargo antes dos 30 anos à toa. Aquela mulher era dureza sem perder a postura e a delicadeza. — James? Ao segurar a maçaneta, a ouvi me chamar. — Sim? — Volte vivo. E inteiro. E acima de tudo, proteja a Lindsay. Inclusive dela mesma. Não entendi muito bem o porquê precisava proteger a Bela dama de si mesma, mas se a Christina estava pedindo, é porque tinha um bom motivo. Então, apenas concordei com a cabeça e saí da sala. Alguns agentes tinham retornado para suas mesas. Lindsay me esperava ao lado da porta, um pouco afastada. — Então? Tudo certo? — Sim. Está pronta? — Sempre estive. Caminhei até a área de vestimenta e equipamentos. Precisamos de algumas coisas para o disfarce e de boas armas. Matar Henrico Lavallo seria uma tarefa desafiadora e empolgante. Ele era bem protegido, mas adorava festas por onde passava. Mais tarde naquela noite, teria uma em especial, em um grande hotel de luxo da cidade. Lá teria alguns nomes influentes da política, da mídia e do mundo empresarial. Seria uma noite perfeita, para uma morte perfeita. • Lindsay Estivera ansiosa durante os minutos que se sucederam. Quando ouvi o barulho da porta se abrindo, meu coração deu uma batida apressada. James não expressava nenhuma reação. Nada anormal que eu pudesse detectar. Não que eu o conhecesse bem o suficiente para ver alguma coisa. Sua resposta me pareceu vaga, porém foi suficiente, por hora. Tínhamos trabalho a fazer. Stuart, um rapaz magro e de sorriso gentil e olhos ágeis, nos entregou algumas peças de roupas confortáveis para lutas e que ajudaria a esconder alguns equipamentos. Como vestimenta para o evento, escolhi um vestido preto que decaiu bem em meu corpo. Ia até abaixo dos joelhos e tinha um corte na perna, revelando um pouco de minhas coxas. O decote era discreto, mas o vestido era justo e mostrava um pouco do tamanho de meus s***s, o que deveria ser atraente suficiente para o galanteador Henrico prestar atenção em mim. Na cintura, tinha uma boa folga do vestido, o suficiente para deixar uma ou duas facas bem escondidas, em último caso. Além de que tinha uma a******a quase imperceptível, para que eu pudesse acessar as facas. Com apenas uma alça e cheio de brilho, ao me olhar no espelho, não podia negar que ele tinha caído bem até demais em mim. — Ele nunca mais ficará tão bonito em alguém como em você. Me virei rapidamente, me assustando com a presença de James. Estava tão absorta em meu visual, que não escutei seus passos. — Oh, obrigada. Você... Não está nada m*l, também. Engoli em seco, sentindo seus olhos sobre mim como uma águia olhando sua presa. — Obrigado. Ele sussurrou, e senti algo quente começar a ferver. James usava um smoking preto, com um alinhamento sobrenatural. Devia ser sob medida, pois cabia perfeitamente em seu corpo. Os braços eram mais fortes ou a camisa estava tão justa que podia ver os músculos desenhados? Ele deu um passo a frente, seus olhos encontrando os meus. Seus lábios eram pequenos, e ele os abriu algumas vezes, como se quisesse dizer alguma coisa mas não conseguisse. Meu pescoço estava elevado, e minha boca começava a secar com aquela aproximação. — Estão prontos? Stuart surgiu repentinamente. James desviou o olhar e assentiu. O garoto nem percebeu o que estava acontecendo. Aliás, nem eu sabia o que estava acontecendo. Eu estava em frente ao espelho me admirando e de repente ele surgiu, como um leão à espreita. Os olhos famintos e a boca parecia sedenta. Respirei fundo, pois estava com os mesmos sintomas. Voltei para o espelho. O coração batendo rápido e o estômago se revirando. — Você consegue, Lindsay. Você consegue. Respirei fundo novamente, bem devagar, puxando o ar pelo nariz e soltando também pela boca, como minha avó me ensinara há muito tempo. Mantive os olhos fechados por alguns segundos, enquanto respirava e expirava. Em menos de cinco minutos estava pronta para o combate. Voltei a área de equipamento e o James não estava lá. — Cadê ele? — No banheiro. Saí de lá e aguardei durante um tempo do lado de fora, observando o relógio a cada dois minutos. Cada minuto que perdíamos ali, era uma chance de sair morto daquele lugar. A porta se abriu rapidamente. — Podemos ir agora, Cinderela? — Desculpe, ainda sinto um pouco os efeitos da ressaca. — Ah, merda. Por que a Christina me colocou logo com você? É certo que estarei morta antes mesmo que perceba onde está! Ele me encarou por dois segundos e saiu. Caminhei atrás dele. Infelizmente não podia largá-lo ou exigir a troca de parceiro. Estava em cima da hora e ninguém deveria saber mais do caso do que o James. Ele pegou o restante do equipamento, colocou algumas coisas em uma mala e saiu. Agradeci ao Stuart pela ajuda e o segui até um carro preto, parado na porta do prédio esperando por nós. — Vamos repassar o plano? — Você vai entrar no salão acompanhada, eu irei beber um pouco, fazer um escândalo pequeno, mas suficiente para chamar a atenção dele. Você me bate, eu saio pelas portas dos fundos e aguardo seu sinal. Entro novamente pelo duto de ar, que de acordo com esse plano, fica na parte de trás do prédio. Você o seduz, o leva para longe e assim que estiverem seguros, o rende e permite minha entrada. Interrogamos ele e depois o matamos. — Uau, você prestou mesmo atenção. Ele tinha sido preciso no plano montado mais cedo e estava realmente prestando atenção, e não apenas olhando para o vazio como se esperasse um sinal do destino para agir de verdade ou estivesse apenas existindo naquele momento. — Achou que a bebida iria atrapalhar meu raciocínio? Eu fico com um pouco de sono e atrapalhado, não lento e desatento. Seu tom tinha sido um pouco rancoroso. Mas podia entender. Havia o provocado o dia todo. — Não, desculpa. Acho que peguei um pouco no seu pé hoje por causa disso. Quer dizer, não é nada saudável e responsável, mas a vida é sua. — Não se preocupe, não farei nada que a coloque em perigo. A Christina não me permitiria vir se não soubesse que posso dar conta. — É, suponho que sim. Em poucos minutos chegamos ao Hotel enorme e que ocuparia, nesta noite, mais de mil convidados apenas no salão de festas, alugado exclusivamente pelo traficante Henrico Lavallo. Com a imunidade, não fazia nem mesmo questão de esconder sua identidade.
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