• James
Eu adorava essa parte da missão. Me vestir, pegar armas e outras bugigangas era simplesmente incrível. Me sentia um adolescente descobrindo a m*********o. Mas naquela noite, tinha sido um pouco além.
Ao terminar meu visual, fui conferir se Lindsay estava pronta. Como ela já estava do lado de fora do banheiro, supus que estivesse vestida. Mas, ao entrar, não podia imaginar o quão bem vestida poderia estar. Fiquei pelo menos dois minutos ali, parado, admirando a beleza dela, o jeito como se concentrava em arrumar o cabelo, em como conferia se estava tudo perfeitamente arrumado e invisível por baixo da roupa e a forma como ela se olhava no espelho. Com razão, devia estar orgulhosa de si mesma. Por ter chegado até aquele momento, por estar realizando aquele sonho e, pude entender melhor todo seu receio ao trabalhar com um agente irresponsável e, por vezes, inconsequente como eu. Ela não queria perder essa chance que tinha batalhado tanto para conseguir, por causa de um i****a qualquer.
Ela estava certa em ficar atenta comigo. Eu não era confiável.
Tanto, que comentei em voz alta o que perambulava em minha cabeça. Ela ficou visivelmente sem graça, mas foi inevitável.
Senti uma tensão no ar. De forma estranha e súbita. Meu peito parecia que estava ansioso por alguma coisa. Mas isso tudo passou, quando precisei ir ao banheiro por ainda estar sentindo os efeitos da ressaca.
Odiaria a mim mesmo pelo resto da noite se sujasse o terno e a Lindsay tivesse que ver essa cena, novamente. Mas felizmente não fora tão r**m quanto pela manhã.
Peguei uma medicação que Stuart havia me dado para o caso de enjoo e tomei antes que tornasse a passar m*l.
Respirei muito fundo e me encarei no espelho. Aquele ultimato não tinha sido mais um alerta. Era o aviso final e eu não podia colocar tudo a perder. Há algumas horas eu não sabia se deveria estar aqui. Se esse realmente era meu dever. Mas nesse instante, me encarando em frente ao espelho, trajando um dos melhores smokings do departamento e com tanto equipamento escondido que nem mesmo eu lembrava, não podia simplesmente jogar tudo que conquistei fora.
Não por causa dele. Ou por causa de Amy. Ninguém faria de mim alguém que não era; um covarde, um completo irresponsável e um homem para viver na porta de bares ou no fundo de restaurantes atrás de comida.
Eu era melhor que isso, era James Lorenzo, um dos melhores agentes desse lugar e eu provaria isso.
Saí do banheiro, enfim, pronto para ser o agente que fui treinado. Mas não tinha blindado meu coração contra as p************s de Lindsay. Tinha que confessar, ela sabia bem onde apertar. Mas desta vez, preferi o silêncio e segui meu caminho. Palavras são apenas palavras, quando as ações são incoerentes. Estava mais do que na hora de mostrar àquela bela dama que eu não tinha toda credibilidade com Christina Bryant à toa.
Depois de repassar o plano, saímos do carro e avançamos. De mãos dadas, Lindsay e eu subimos as escadas do luxuoso hotel.
Entramos no estabelecimento e nos dirigimos até o salão de festas. Logo na porta, um segurança nos parou.
— Seus nomes, por favor?
— Daniel Jordan Houde e Clarice Houde.
— Hum... Não estão aqui. Poderiam...
— Oh, tem certeza? Poderia verificar novamente? Deve a ver algum erro.
Insistiu Lindsay, apertando minha mão suavemente. Seus dedos queriam escorregar dos meus. Evidentemente ela estava nervosa. Precisei segurar um sorriso e manter-me sério em meu personagem.
Com a mão no bolso esquerda, liguei o comunicador instalado em meu anel de prata. Stuart tinha a missão de colocar nossos nomes na lista, depois de hackear o sistema.
O homem passou o dedo mais algumas vezes. Foram segundos intermináveis. Lindsay olhou para mim, com um sorriso altamente nervoso e um olhar que transparecia segurança.
— Ah, achei. Desculpem senhor e senhora Houde, por favor, entrem e fiquem à vontade.
— Agradeço.
Ao passar por ele, minha vontade era de estrangular meu estagiário.
— Desculpa James, eu tinha esquecido.
Ele comentou, em meu ponto eletrônico. Era pequeno e da cor da minha pele, feito exclusivamente para meu uso.
— Tudo bem, todos nós temos alguns problemas as vezes. Vamos manter o foco e terminar essa missão.
Lindsay avançou, mas segurei sua mão.
— Precisa de um drink.
— Ah James, eu não preciso beber porque não sou irresponsável como você. É minha primeira missão e...
— Exatamente. Suas mãos estão suando. Você está nervosa. Mas se acha que pode abordá-lo assim, vá em frente.
Ela parou durante alguns segundos para me olhar, parecia indecisa entre me agradecer ou se desculpar. Por fim, apenas recolheu uma taça que um garçom passou servindo e bebeu-a todinha, sem pausa.
— Sem mais bebidas.
Ergui minhas mãos, deixando a decisão para ela.
Caminhamos mais um pouco adentro, observando os convidados e na procura de Henrico. Poderia levar mais tempo do que imaginávamos para encontrar nosso alvo. Tinha centenas de pessoas naquele salão. Era surpreendentemente grande, mas tínhamos de ter um pouco de paciência.
— Stuart, consegue acessar as câmeras de segurança e encontrar o Henrico?
— Sim, mas serei apenas um observador. Se eu mexer em qualquer coisa, podem suspeitar de que invadi o sistema.
— Perfeito.
A ideia de Lindsay era boa, economizaria tempo e nos tornaria menos suspeitos, pois não teríamos que andar o salão inteiro atrás de um homem.
— Ele está entre o bar 3 e o palco. Vou mandar a localização pra vocês.
Ele enviou um sinal de rastreamento pro meu relógio, que nos mostrou estarmos a menos de 200 metros de nosso alvo.
— Perfeito. Nos aproximamos já em discussão. O clímax precisa ser próximo, não demais, o suficiente para que ele veja e sinta vontade de ajudar a mulher abandonada.
Pronunciei, enquanto observava o outro lado do salão, falando baixo o suficiente para que ninguém além de Lindsay me ouvisse.
— E se não der certo?
Sua voz soou insegura. Olhei pra ela, tentando transparecer alguma certeza.
— Vai dá. Homens como Henrico farejam mulheres indefesas. Eles a conquistam, fingem proteção por uma noite e lhe dão tudo de si, durante algumas horas. Depois você não passará de um troféu na estante dele.
— Como sabe disso?
— Analiso o perfil de homens assim muito antes de me tornar um agente.
— Certo, mas se eu não for bonita o suficiente para atraí-lo? Quer dizer, tem pelo menos outras 500 mulheres aqui.
Dei um passo a frente, ficando perto o bastante para sentir seu hálito em meu rosto. Longe demais para sentir o calor de seu corpo. Mas perto o bastante para desejar ensandecido seu toque.
— Mas somente uma Lindsay Hendrix. Somente uma bela dama do elevador. Acredite em mim, não tem como olhar pra você e não desejá-la.
Durante alguns segundos, meus olhos se alternaram entre seus lábios e os suas íris. Fora difícil resistir. Mais difícil do que parar de beber. E não tinha dúvidas de que ela compartilhava dos mesmos sentimentos, pelo modo como me encarava e se aproximava lentamente.
— O alvo está se mexendo! Parece que vai ao bar. A hora é agora pessoal.
A voz de Stuart acabou completamente com nosso clima. Nos afastamos rapidamente e observamos a movimentação de nosso alvo, retomando o foco na missão. Ele estava de fato, indo para o bar. Ria com pelo menos duas mulheres ao lado e mais um outro homem, tão bem vestido quanto nós.
— Escuta, não importa o que aconteça, você está maravilhosa. É a mulher mais bonita dessa festa.
Ela deu um sorriso e abaixou a cabeça. Aquilo tinha provocado outro salto em meu coração, como se acabasse de pular de um trampolim de 10 metros. Só esperava não cair em uma piscina sem água.
Lindsay e eu fomos devagar, conversando, alterando um pouco a voz. Nada para chamar a atenção de todos, mas o suficiente para chamar a atenção dele na hora certa.
Estávamos a menos de três metros de Henrico, um homem branco, com uma pele bem bronzeada, alguns fios brancos, mas eram majoritariamente pretos. Não era velho, estava na casa dos 42 anos, mas tinha feito alguns procedimentos estéticos que não havia lhe caído muito bem.
Quando chegamos em nosso limite de atuação, texto repassado algumas vezes no final da viagem, Lindsay desferiu um tapa em meu rosto. Forte o suficiente para deixar marca. Eu me espantei, de verdade, pois ela não devia ter pego tão pesado. Mas não podia desperdiçar a chance discutindo aquele detalhe. Supostamente enfurecido, sai da festa espumando.
Antes de me virar pra saída, percebi o olhar atento de Henrico em Lindsay.
Aparentemente, ele tinha mordido a isca. Era hora de Lindsay fisgá-lo.
• Lindsay
Entrar foi a parte fácil. Circular no salão também. Até mesmo, arrastar Henrico para um local reservado, o difícil mesmo, foi não deixar meus desejos tomarem conta e permitir que James me beijasse como meu corpo pedia com necessidade.
Era simplesmente i****a. Burrice completa, desejá-lo tanto assim. Mas o que poderia fazer contra isso?
Não sei o que me deu na cabeça quando permiti que ele fizesse todos aqueles elogios e que me olhasse daquela forma, como se eu fosse a coisa mais preciosa que ele tinha visto. Não sei mesmo o que estava pensando ao permitir que ele se aproximasse tanto a ponto de sentir minha i********e pulsar pelo toque, pelo contato, pelo corpo dele.
Que merda estava acontecendo? Estava vivendo uma ficção adolescente? m*l o conhecia, não era possível desejá-lo tanto. Acho que fiquei com tanta raiva de mim mesma, por permitir sentir aquela baboseira toda, que exagerei um pouco no tapa.
A cinco segundos atrás eu estava sorrindo pelos elogios que James me fizera, mas depois, a sensação era que eu estava sendo irresponsável com meus sentimentos, além de injusta com todo o trabalho que tive nos últimos meses para, no primeiro dia, jogar isso tudo fora. Por causa de quê? Um homem que m*l conseguia controlar as próprias pernas de ressaca.
Não, essa não era a Lindsay que reconheço. A mulher que passou meses dormindo menos de 6h todos os dias para manter um ritmo e treino constante. A mulher que conhecia de cor a ficha de Christina Bryant e fez inúmeros contatos somente pra ter acesso ao nome de alguns dos agentes mais requisitados, o que me faz pensar, porque o nome de James não estava em nenhuma lista apresentada. Mas isso tudo não importava mais. Eu tinha que manter o foco na missão e, acima de tudo, não permitir que meus sentimentos se misturassem a qualquer agente. Isso estava fora de cogitação.
Como uma boa atriz, fiquei cabisbaixa, com o olhar difuso, perdida. Caminhei devagar até o bar e pedi um drink. Algo forte. Tentaria jogar meu charme para o anfitrião assim que estivesse, aparentemente, bêbada o suficiente para nem mesmo me dar conta do que estava fazendo.
Mas nem fora necessário tanto esforço. Após o terceiro copo, Henrico se aproximou, utilizando todo seu charme. Eu podia notar todas as performances. E toda a cena patética que ele faria para se mostrar superior e suficiente pra uma dama como eu.
— Tão i****a, não?
Ele parou a uma cadeira de distância, segurando seu copo com um whisky tão caro que pagaria o salário dos agentes do prédio por pelo menos um semestre inteiro.
— Oi? Quem?
— Seu amigo. Te deixar assim, em uma festa como essa. Ele deve ser um i****a completo.
Ele alternava o olhar entre sua bebida e meus olhos. Brincava com a ideia de estar interessado, mas nem tanto a ponto de me convidar tão descaradamente para sair dali. Pelo menos, foi o que pensei a princípio.
— Ah, sim, dos piores. Você nem imagina.
— Eu sinto muito por isso.
— Ah, que isso. Você não tem culpa se um i****a quem me trouxe. Na verdade, eu devia me desculpar com o dono da festa. Quase estraguei tudo.
— Tenho certeza que posso te ajudar com isso.
— É mesmo? Como?
— Venha comigo.
Ele se levantou, sendo seguido por pelo menos mais três guardas.
Entrelacei meu braço ao dele, acompanhando-o por um tour pelo salão. No fecho do meu sutiã, tinha um rastreador. Essa hora James já sabia que estávamos juntos e certamente se preparava para entrar. Com tanta gente, acho que seria viável uma entrada pela porta lateral ou a principal. O problema apenas era ser visto pelas câmeras de segurança, mas se executássemos o plano dentro do planejamento, não teria riscos de ser visto.
Pelo menos era isso que eu esperava da parte dele. Mas não contava com um adendo.