O Confronto

1576 Words
Ano de 2107, 22 anos do príncipe. Três semanas para a coroação do príncipe. Hunter terminou de escovar os dentes se olhando no espelho, apoiou as mãos na pia, respirando fundo algumas vezes, como se quisesse pôr sua cabeça em ordem, até ouvir as batidas na porta. — Quem é? — perguntou alto. — Sou eu. — Kayne respondeu um tanto desanimado, mas Hunter sorriu e foi até a porta, abrindo-a. Kayne entrou no quarto, olhando para seu corpo, seu uniforme, e depois para o amigo. — Não era bem esse tipo de guarda que eu queria ser. — revirou os olhos. — Desculpe. Meu pai mandou Charles cuidar da fronteira, isso foi inesperado. Como você está treinando para ser um soldado, achei que essa seria uma chance legal. — sorriu sem jeito. — Não estou num momento que posso deixar qualquer pessoa perto de mim. — Hunter franziu os lábios, segurando o refluxo. — A coroação, eu sei. Vou ficar do seu lado, mas depois trate de me dar um lugar na guarda de verdade. Hunter balançou a cabeça para o lado em negação e depois afirmativa, deixando o amigo confuso. O príncipe correu de volta para o banheiro de seu quarto, indo direto até a pia e vomitando apenas um líquido viscoso. Não havia nada em seu estômago, m*l havia bebido água, mas estava extremamente enjoado naquela manhã. Diversos alfas entrando e saindo do palácio para reunião com seu pai, o exército próximo demais, feromônios, cheiro… seu estômago parecia do avesso. — Que merda, Hunter. — Kayne soltou naturalmente com a voz mais julgadora possível. — Tá, eu sei. Não preciso de nenhum teste em grãos, é mais do que óbvio que estou grávido. — É, com certeza. — disse um pouco apavorado. — E agora? — Hoje está um pouco mais difícil por causa das movimentações no palácio, mas eu tô segurando de boa. — Segurando de boa? Faz quanto tempo? — Alguns dias e nem adianta me falar nada. Uma hora ou outra isso ia acontecer. Agora é cuidar para meu pai descobrir apenas após o casamento. Vou ser coroado em três semanas, vou casar com Charles sem nenhuma interferência do meu pai e vou ter o meu bebê. É o fluxo natural do mundo. — Amigo, não é tão simples. Você precisa de uma parteira de confiança, você precisa… você precisa de muitas coisas se o seu bebê nascer como Charles. Você será um rei, como vai esconder esse filho? p***a, Hunter! — O futuro a gente deixa pro futuro. No presente preciso cuidar apenas do que chega aos ouvidos do atual rei. Conto com você pra isso. Kayne concordou sem opção. — E esse lance da guerra é real? Achei que ainda fossem só boatos. Como quando éramos adolescentes. Hunter suspirou e andou pelo quarto, sentando em sua cama. — De verdade? Eu não sei, meu pai não me fala nada, eu deveria estar fazendo parte de cada reunião do conselho, serei rei em breve, mas estou no escuro aqui. — Hunter bufou. — O que eu sinto? Que é verdade agora e que sempre foi verdade. Os exilados sempre existiram, Kayne, e acho justo que um povo tão desmerecido tente tomar poder de alguma forma. Acho que isso sempre aconteceu, que os boatos que ouvíamos de senhores que tinham certeza que aconteciam guerra nas fronteiras sempre foi verdade, mas agora é diferente. Você viu como estão os celeiros da cidade? — Fiquei sabendo por alguns produtores e rumores. Dizem que a carne está escassa e a pele também. Que o que temos está dentro dos muros e isso é muito pouco para uma cidade. — respondeu. — Exatamente. Os exploradores traziam muitas coisas para nós, entre eles tinham os que viajavam pelo mundo e traziam itens antigos, claro, mas também tínhamos caçadores que não iam muito além da floresta, tinham pescadores também. Éramos ricos em muitas coisas. Mas agora estamos nos mantendo com estoques e nossa própria produção e isso é um caos. O que vamos fazer quando o inverno chegar? — bufou frustrado. — Era como se a terra além de Ashara tivesse morrido, sucumbido. Não há mais peixes, não há mais animais… só há escuridão. Kayne parou para pensar, tentando entender todas aquelas questões. Nunca havia pensado sobre isso, nunca havia pensado em como o rei mantinha a cidade em invernos rigorosos. Mas parecia fazer sentido, os agricultores mantinham os cultivos de grãos durante os meses quentes e então na neve as sacas já estavam armazenadas. Mas se estavam usando o armazenamento naquele momento, não teriam para o futuro. — E o que você pretende fazer? — Eu não sei, mas vamos sair de casa essa tarde. Eu não posso ficar aqui com esses alfas neste estado. Eu vou pensar em algo ao longo do dia. Kayne concordou e depois de Hunter escovar os dentes pela terceira vez naquela manhã e vestir a roupa adequada, saíram do quarto rumo à saída do palácio. — Hunter! — ouviu a voz do pai e parou de imediato virando-se em direção ao rei. — Vamos ter uma reunião com o conselho e você deve fazer parte. Você será o rei em breve. — Hoje? — Sim, agora. Vamos. — Mas é que… — Sem desculpas, estamos sem tempo. Sem escolha, o garoto seguiu o pai até a sala de reuniões. O amigo ficou de pé ao lado da porta, próximo ao príncipe e também aos demais guardas, que olhavam de cima a baixo com olhares de julgamento. Além de alguns guardas, apenas o conselho estava naquela sala. O rei, ministro de defesa Shelter, o ferreiro Baker, o ministro de confins e os ministros da agricultura Liam e Olívia Adams. — Não podemos deixar que isso vire um caos. Todos os alfas a partir de dezesseis anos que já tem domínio de seu dom estão sob meu comando. Foram recrutados antecipadamente e estão fazendo a guarda das fronteiras, mas os exilados parecem mais fortes agora. O rei suspirou. — Como estão nossos abastecimentos? — Se continuarmos a usar os recursos dessa forma, não teremos nada no inverno. — respondeu a senhora Adams. — Não estamos conseguindo ir muito além, então não conseguimos mandar homens até o oceano para pesca, com o barulho não temos uma caça adequada e não temos como ir muito longe sem ser atacados. — Nolan Jinkings, chefe de confins, explicou o porquê de não ter exploradores em campo. — Como estão as armas? — perguntou o rei. — Temos o bastante. Temos flechas e lanças também. — respondeu o ferreiro. — Os soldados já estão preparados para lutar com o armamento necessário. — disse o ministro Shelter. O rei suspirou e olhou sério para o filho. — Tentamos por muito tempo não confrontar, tentamos manter a paz nesses últimos vinte anos, mas não temos outra escolha além de seguir com o ataque. Os soldados estão autorizados a eliminar qualquer exilado que vier contra os muros. Sem mais alertas, sem mais contenções. Agora vamos eliminar todos. Os ministros assentiram com pesar, como se entendessem que não havia mais soluções, a cidade precisava de uma resolução urgente e aquela parecia a única saída. Hunter estava atordoado com as revelações, com o tempo da guerra, com a decisão do rei, com o que teria que lidar em um futuro próximo. Tudo estava fazendo sua cabeça girar, a ânsia de vômito vindo forte novamente. O Baynes segurou a borda da mesa com certa força, prendendo o refluxo na garganta e não deixando transparecer o m*l estar. — Vinte anos? A guerra sempre esteve lá e nunca nos disseram? — Mantivemos contido. Não podemos dizer isso a população ou ninguém viveria tranquilo aqui. — explicou o rei. — Se tudo fosse simplesmente paz, não precisaríamos de guardas, de segurança, guerreiros. Manter nossa cidade livre do m*l que os exilados podem fazer ao nosso povo nunca foi fácil, mas fizemos o melhor por anos. — O m*l que eles podem fazer? — a voz de Hunter quase não saiu naquele momento. O questionamento era descrente, aquilo não parecia fazer sentido algum. Isso porque de fato não fazia. — Entendo que assumir a coroa em um momento de crise como esse pode ser difícil, Hunter. Mas precisa entender que há muitas coisas que terá que enfrentar daqui pra frente e essa verdade é uma delas. Precisamos proteger o reino para que o povo viva em paz e nem sempre as escolhas de como fazer isso serão fáceis. — disse o ministro Shelter. — O que importa é que, assim como ficamos ao lado do seu pai e nossos pais estiveram ao lado do pai dele, nós e nossos filhos estarão ao seu. — completou Nolan. Hunter concordou, como se apenas tentasse acabar com aquela reunião logo. Estava tonto com aquelas informações, seus pensamentos nublados. Por anos acreditou que não havia nada além dos muros. Haviam histórias sobre o povo exilado, haviam histórias e teorias sobre a guerra. Mas nunca antes pareceu tangível, pareciam apenas histórias, tal qual livros de uma biblioteca. Mas então naquele sala, aquele conselho, havia tirado pessoas de suas famílias por serem betas? Seu pai estava escolhendo matar pessoas para que não retornassem à cidade? Esse era o dever do rei? Seu coração estava apertado e um nó estava na sua garganta. Não saberia dizer se era mais um enjoo da gravidez ou nojo de saber do que realmente fazia parte.
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD