O Fim da Resistência

1850 Words
E L E N A Eu estive acordada para ver os raios solares preguiçosos se sobressaindo em meio à escuridão de nuvens grossas. Acompanhada de uma garrafa de bourbon, eu admirei a beleza da natureza por alguns minutos — até que os flashes de luz deixaram minha mente embriagada confusa. Antes que todos acordassem, caminhei até a entrada da ala subterrânea e fui saudada pelos guardas que estavam de plantão para a minha segurança. Uma vez lá, caminhei pelos corredores pouco iluminados e vazios, ouvindo o atrito dos meus saltos no chão. Paro em frente à porta do meu quarto e apóio a mão na maçaneta, respirando fundo antes de abrí-la e entrar no cômodo. Na larga cama, vejo o volume embaixo dos lençóis, indicando que há alguém ali. Não consigo evitar um sorriso, enquanto silenciosamente livro-me de minhas roupas e caminho até o banheiro para uma ducha fria que não me permita ficar com o cheiro de bebida. — Tem alguém aí? Pergunto ao ouvir um barulho baixo, mas não obtenho resposta. Respiro fundo e sinto o cheiro de suor misturado com um perfume único. Abro um sorriso e então sinto mãos grandes envolverem minha cintura e um corpo se encostar na traseira do meu corpo. — Você veio. — sussurro — Eu disse que daria um jeito. Eu fui a única que ficou em Wakanda. Após uma conversa franca, a Resistência chegou ao fim. Ou melhor dizendo, eu fui chutada da Resistência. Acho que isso só aconteceu porque uma criança entrou na história. Steve não quer nos colocar em perigo, já que é o principal foco do governo americano. T'Challa, embora seja ameaçado dia após dia pelo Conselho dos Anciãos, disse que me manteria segura aqui e que ninguém ousaria chegar perto de mim ou do meu filho. Eu não tive escolha, escolheram por mim, mas eu concordo que é bom não precisar fugir o tempo todo com uma criança nos braços. — Por que está se vestindo? Pergunto ao Steve enquanto estou sentada na cama, de roupão. Ele está tão diferente do Steve que conheci. Tem uma feição dura e mais carrancuda, os cabelos um pouco maiores e uma barba começa a tomar conta de seu rosto. Parece um capitão sombrio. — Preciso ir embora. — ele diz calçando os sapatos — Mas Elliot nem viu você. Respiro fundo e o vejo ir até onde o volume da cama se encontra. Com cuidado, ele desce um pouco do cobertor e o rosto de Elliot, nosso filho, aparece relaxado. Elliot é um menino incrível, com um coração enorme. Tem cabelos castanhos como os meus e os de meu pai, olhos azuis como os de Steve e um sorriso tão lindo quanto o de minha mãe. — Ele está tão grande. — Steve comenta olhando nossa pequena obra-prima. Abro um sorriso ao vê-lo se curvar e beijar a testa do pequeno — Nós sentimos sua falta. — E eu a de vocês. — Volta pra cá, Steve. — apelo — Não posso deixá-los em risco. — ele diz cobrindo novamente o Elliot — Nos daremos um jeito. A gente sempre dá. — peço sentindo os olhos arderem em lágrimas — Elena, por favor. — ele me olha e se aproxima — T'Challa já está arriscando muito, abrigando vocês dois e eu não posso dar mais essa responsabilidade a ele. Você sabe que não dá. — A gente nem tentou. — Preciso ir. — ele diz beijando a minha testa — Não! — protesto — Não, Steven! — Eu te amo. Em meio às minhas lágrimas, vejo o homem que eu amo sair pela porta e me deixar sozinha... De novo. Me levanto, caminho pelo quarto e tiro outra garrafa de bourbon de dentro do closet. Me sento no chão, com as costas encostadas na parede e abro a garrafa, virando-a na boca. Bom dia, Elena. T O N Y A academia do Complexo dos Vingadores estava completamente vazia. Somente a esteira funcionava e eu corria nela. Nos alto falantes, AC/DC tocava, na televisão muda, a âncora de um jornal da CNN apresentava as notícias matinais. Outra guerra estava prestes a estourar no Oriente Médio. Talvez até hoje mesmo. — Sexta-feira, faça uma análise sobre o real motivo dessa guerra e envie ao Ross. Se isso estourar, talvez os Vingadores sejam convocados. — digo enquanto corro — Sim, chefe. Ouço a voz computadorizada do programa e continuo minha corrida. Pelo painel de LCD da esteira, observo a playlist "Elena" começar a tocar e a primeira música já me causa um grande impacto. É Mirrors, música do cantor favorito dela. Isso faz minha mente divagar para o passado, onde meu maior problema com ela era a descoberta. — Você me escondeu uma filha, Leila. Tem noção da gravidade disso? — pergunto à mulher debilitada em minha frente — Eu sei que isso é c***l, mas tente ver o meu lado disso tudo. Nós éramos jovens, você era um louco inconsequente. Eu não seria a pessoa que te obrigaria a mudar. Eu não colocaria todo esse peso em você. — Você disse que me amava! — digo bravo — Exatamente. Amar é colocar as necessidades do outro à frente das suas. Eu precisava de você ao meu lado, mas eu preferi omitir a Elena de você. Você não estava pronto para ser pai, Tony. Ela tem razão. Eu não estava pronto antes e não estou pronto agora. — Estou morrendo, Tony. Não sabe o quanto me dói tê-lo aqui, mas Elena não está pronta para ficar sozinha. — Mais uma vez está pondo as necessidades de outra pessoa acima das suas. — É isso que se faz quando se ama alguém de verdade. — suspira — O que eu faço, Leila? — a olho — Há uma menina lá fora esperando algo de mim. — Ela não espera nada, acredite. — sorri  fraco — Ela sempre soube? — Desde os dez anos. — Ela também colocou as minhas necessidades acima das necessidades dela. — murmuro — Ela é uma menina de ouro. — Ela está morando com Amélia? — Não. Apesar de tudo, ela insiste em ficar em nosso pequeno apartamento no Brooklyn. Ou apertamento, como ela e Ashley costumam chamar. — vejo a sombra de um sorriso em seu rosto Minha filha. Cria do meu DNA, com meus genes e meu sangue. Ela não pode ficar sozinha. — Vou levá-la comigo. Eu não fazia ideia do que esperar daquele impulso, mas sabia que tudo estava prestes a mudar. — Você vai morar comigo. Apesar de ver a cara de surpresa da menina, sigo andando pelo corredor do hospital. Ela demora um pouco, mas logo ouço seus passos apressados atrás de mim. — Como assim? Sem um acordo? Sem uma conversa? — sua voz soa atrapalhada e nervosa — Já houve uma conversa. — paro e a olho — Entre sua mãe e eu. Um barulho nos pesos me assusta e eu quase caio da esteira. Minha mente volta ao presente e eu abaixo o volume da música, que já está em seus acordes finais. Após desligar o equipamento, olho na direção do barulho e vejo Eric, meu filho caçula, perto de uns pesos derrubados no chão. Ele me olha e abre um sorriso sapeca. — Sua mãe já não te disse pra não correr na academia? Isso pode ser perigoso. Digo saindo da esteira e esfregando uma toalha em meu rosto e pescoço, para secar o suor causado pelo exercício. — Mamãe não está aqui. Ele diz sorrindo e corre para mim. Eu me abaixo e o recebo em meus braços com um abraço forte e caloroso. — Bom dia, papai. — ele diz — Bom dia, meu amor. — digo beijando sua testa — Você vai trabalhar muito hoje? — Mais ou menos. Por que? — É que vai ter um jogo de beisebol, lá na escola. — ele diz — Você quer que eu vá te ver na sua escola? — Não, eu não quero jogar. Queria que você aparecesse de armadura e dissesse que tem que me levar pra salvar o mundo com você. — Se eu tivesse que salvar o mundo, por que eu levaria você? — olho para ele e jogo a toalha suada no puff — Porque eu sou seu herdeiro e quando eu crescer, serei o Homem de Ferro. — Eu nem morri e você já quer tomar meu lugar? — ergo minha sobrancelha — Você tá ficando velho, pai. — Obrigado. — reviro os olhos — Você sabe que eu posso usar a armadura mesmo que fique de cadeira de rodas, não sabe? — Ah, pai, por favor! Eu não quero jogar hoje. — Fale com sua mãe. — Eu já falei. Ela não me deixou faltar. — Já conversamos sobre isso. Se a mamãe disse "não", eu não posso dizer "sim". — Se você disser que vai precisar de mim, ela pode deixar. — Garoto, se eu enfrentar a sua mãe eu vou me dar m*l. — me curvo pra frente e me apóio nos joelhos ficando cara a cara com meu caçula — Ainda bem que você sabe. — ouço a voz de Pepper e ouço seus saltos tocarem no chão enquanto ela se aproxima de nós — Pai, você é um bundão. — Que isso, garoto?! Me respeita. — Ei, eu já disse pra você que é f**o chamar as pessoas de bundão. Vai se arrumar pra escola. — Pepper põe a ordem — Tchau, pai. — ele sai correndo — Não corre aqui dentro, Eric! — Pepper briga, mas é em vão Observo meu pequeno correr pra fora dali, até o perder de vista. Passo meu olhar para a mulher ao meu lado que parece impecável, de cabelos soltos e um vestido preto social único. — Que foi? — Pepper me olha e franze o cenho — Por que tá me olhando assim? — Só contemplando vossa beleza, minha rainha. — digo pegando em sua cintura e trazendo-a até mim — Você só diz isso porque se acha o rei. — revira os olhos rindo — Me solta, Tony, você está suado. — ela luta contra meu abraço — Você me ama? — Não se faz esse tipo de pergunta a alguém, Tony. — Eu amo você. — digo e ela olha em meus olhos — Eu amo você também, amor. — suspira — Agora me diga o motivo de tanta carência. — Sonhei com Elena. — Eu percebi. Você teve um sono agitado. — É, ela estava... Estava linda, estava... — balanço a cabeça pra espantar a possibilidade de um choro e continuo — Estava forte e não estava brava, o que era um bom sinal. — Você acha mesmo que um reencontro entre vocês seria marcado por uma briga? — Eu a mandei pra cadeia, Pepper. Eu persegui o namorado dela, eu... Eu bati nela. — Pára! — segura meu rosto — Já disse pra você não se culpar. — Quero minha filha de volta, Pepper. — digo — Custe o que custar.
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