E L E N A
Meu nariz ardia com a mistura de álcool e suco gástrico que saía deles. Minha garganta queimava e eu sentia minha cabeça girar, vendo a privada duplicar em minha frente. Eu estava vomitando há, pelo menos, dois minutos inteiros e já não havia mais nada pra sair, além do suco pancreático que era terrivelmente fedido. Eu estava prestes a desmaiar, quando braços me envolveram e ergueram a minha cabeça, evitando que mais vômito fosse colocado pra fora.
— Ei. — Nat me olha preocupada, acariciando meu rosto — Você está pálida demais.
— Hum... — não consegui responder
— Onde está o Elliot? — franze o cenho
— Com... a... — sinto a cabeça rodar e fecho os olhos
— Wanda? Ok! — ela diz e ouço o barulho do vaso sendo fechado — Vamos cuidar de você.
Meu corpo todo parece formigar e, apesar de ser incômoda, eu aprecio essa sensação. Isso significa que meus poderes não estão mais neutralizados.
Ainda não abri os olhos, mas tenho uma leve noção de tudo o que ocorre à minha volta. Há um pano gelado e molhado em minha testa e em meu pescoço. Sinto cheiro de soro.
— Ela já devia ter acordado.
Forço a mente e reconheço essa voz. Happy está aqui e parece nervoso.
— Calma, Happy. Já basta Tony de nervoso.
A voz um pouco nervosa de Pepper me faz querer abraçá-la imediatamente, mas não sinto meu corpo todo. É como se eu ainda estivesse sendo ligada aos poucos.
— Eu não quero saber, T'Challa! Eu quero você aqui!
A voz alta do meu pai chega aos meus ouvidos. Ele parece falar ao telefone. Me concentro em sua áurea elétrica e o sinto andar de um lado para o outro, como faz quando fica nervoso.
— Não quero saber! Eu vou matá-lo assim que vê-lo.
Involuntariamente, abro os olhos e foco no teto distante. Eu não estou no Complexo. Onde estamos?
Olho à minha volta e noto que estou deitada num sofá. Pepper está sentada ao lado da minha cabeça e, assim que me vê acordada, sorri e põe minha cabeça em seu colo. Respiro fundo e pisco os olhos. Consigo perceber onde estou quando olho para o lado e vejo a imensa parede de vidro com vista para a ilha de Manhattan. Estamos na Torre!
— Eu vou desligar. Ela acordou.
Olho para o outro lado da sala e vejo meu pai desligando o celular e caminhando em minha direção. Happy está aos meus pés, me olhando como se eu fosse o único ser nessa sala.
— Ei, consegue me ouvir? — Tony pergunta se abaixando e segurando minha mão — Você está bem?
— Só estou cansada. — ouço minha voz sair como um sopro
— Pode nos contar o que houve? — Pepper pergunta mexendo no pano em minha testa
— Eu ia responder sua mensagem quando me apagaram. Quando acordei, eu estava amarrada numa cadeira e então começou o interrogatório. Ross acha que a minha volta é um esquema com Steve.
— Amor, por favor, me fala que não existe esquema. — Tony aperta minha mão — Elena não queira ser mais esperta que o governo.
— Eu não sei onde o Steve está. — digo puxando minha mão para longe dele, com raiva por duvidar de mim — Tudo que eu tinha pra falar eu já falei para o presidente.
— Tony, não é hora pra isso. — Pepper adverte
— Como eu vim parar aqui? — pergunto erguendo o corpo e sentindo os panos molhados caírem
— O Homem Aranha trouxe você. — Happy responde
— Onde ele está? — me sento no sofá e meu pai se levanta
— Eu o mandei para casa. — Tony responde
— Eu quero falar com ele. Happy, me leve até esse rapaz.
— Você precisa descansar. — Pepper diz
— Eu estou ótima. Além do mais, há um pequeno m*l entendido entre esse menino e eu. — fico de pé — Ainda há roupas minhas aqui?
— Está tudo encaixotado lá em cima. Por favor, não faça bagunça. — Tony pede
— Por que está tudo encaixotado? — pergunto olhando em volta e notando caixas por todos os lados
— Eu vou vender a Torre.
— Como é que é? — arregalo os olhos — Assim do nada? Ficou doido?
— Eu sempre fui doido. — ele dá de ombros
— Quem teria dinheiro pra comprar isso aqui? Eu vou encontrar esse menino e depois teremos uma conversa séria, Anthony. — digo subindo a escada
— Então tá. — ele murmura — Tá parecendo o meu pai.
***
Quando estou parada em frente à porta, sinto um frio na barriga. Eu estava prestes a conhecer a verdadeira identidade do moleque que dei uma surra. Moleque esse que salvou minha vida sem ressentimentos.
Respiro fundo e dou uma leve batida na porta. Espero que ele esteja em casa.
— Em que posso ajudar?
A moça que abre a porta sorri gentil. Ela parece madura, porém não aparenta tanta idade. Ela é linda.
— Ah, oi. Eu sou... — ela me interrompe
— Elena Stark. Alguma coisa com o estágio de Peter?
Estágio? Foi essa a desculpa que meu pai usou para sempre aparecer por aqui e falar com esse menino?
— Na verdade, não. Eu só queria conversar com ele. Ele está?
— Uh, claro. Eu sou a tia dele, May Parker. Pode entrar. — ela diz abrindo espaço
— É um prazer, senhora Parker. — sorrio entrando
— Me chame de May. — ela corrige fechando a porta
— Quem tá aí, May? — a voz do menino surge no apartamento
— Stark! — ela grita de volta — Pode se sentar, eu vou preparar uns pãezinhos de amêndoas para vocês. — ela diz indo para a cozinha
— Senhor Stark, sobre sua fi...
A voz do menino se cala quando ele me vê sentando no sofá. Acho que ele achou que era meu pai. Cruzo as pernas e abro um sorriso para ele.
— Olá, Homem Aranha. — digo com cautela, tendo certeza de que sua tia não irá ouvir
— Shhhh! — ele se apavora e se aproxima — Não achei que fosse você.
— Achei que ficou um clima desnecessário entre nós. Então pensei em me desculpar pela surra no aeroporto.
— Ah, entendi. — ele diz um pouco desajeitado — O que minha tia foi fazer?
— Não sei. Ela disse algo sobre pão de amêndoas.
— Uh, isso é h******l. Precisamos ir conversar em outro lugar. — ele diz pegando na minha mão e me fazendo levantar
— Agora ela já foi pegar. É falta de educação. — digo um pouco confusa
— Acredite em mim, você não vai querer comer isso.
— Aqui estão. — May surge animada com uma bandeja cheia dos pãezinhos
— Nós vamos dar uma volta, May. — o menino diz segurando minha mão e me levando com ele
— Coma pelo menos um. — ela insiste e eu pego um
— Obrigada, senhora Parker. — sorrio
— É May! — ela corrige enquanto dou uma mordida e sou puxada pelo garoto
Por que eu inventei de comer isso? Isso é terrível!
Quando já estamos no corredor do prédio, eu cuspo tudo na lixeira e jogo o resto do pãozinho fora.
— Eu te disse. — ele ri — Vem, conheço um lugar pra gente comer.
Assim que dispenso Hap, caminhamos até uma lanchonete bem bacana que Peter disse ter o melhor sanduíche do Queens.
— Então você veio se desculpar? — ele diz enquanto tomo meu milk shake
— É, você não teve culpa de nada. É que eu estava cega de ódio pelo meu pai.
— O senhor Stark é um bom homem.
— É, não vamos entrar em detalhes. Podemos ser amigos?
— A-amigos? Do tipo que só se vêem em eventos importantes?
— Não. Do tipo que ligam um para o outro se precisarem de alguma coisa. Do tipo que compartilha memes, essas coisas.
— Você compartilha memes? — ele me olha surpreso
— Cara, eu tenho vinte e quatro anos. — estreito os olhos — Apesar das responsabilidades e da cara de carrancuda, eu estou na flor da idade. — comento rindo — Amigos?
— Ok. Amigos. — ele sorri
***
— Tony, você não pode vender essa Torre! — grito
— Só porque ela foi palco da sua primeira noite de amor com o Rogers?
— O que? — arregalo os olhos. Não acredito que ele ainda lembra disso
— Ah, foi m*l. Odeio lembrar disso. — ele balança a cabeça como se fosse espantar o pensamento
— É sério, Tony! Não venda a Torre.
— Já vendi. Estamos embalando tudo.
— Quem tem dinheiro pra tudo isso?
— Comprador anônimo. — ele diz embalando umas coisas de seu laboratório
— Qual é, até parece que você não sabe quem é. Se não quer me dizer quem é, fala logo.
— Eu. Não. Quero. Te. Dizer. Quem. É. — ele diz pausadamente
— Às vezes, tenho vontade de bater em você.
— Não é a única. — ele debocha
— Tem falado com Peter? — pergunto
— Liguei pra ele ainda agora e algo me diz que está fazendo m***a. — ele diz
— Você precisa pegar leve com ele. Ele te venera.
— Bom, pelo menos alguém gosta de mim, não é mesmo? — ele me olha
— Pai, tem alguma chance da tia dele aparecer aqui e dizer que você engravidou a irmã dela há quinze anos atrás? — pergunto curiosa por tanto cuidado com ele
— Não! Claro que não! — ele diz — Impossível.
Ele fica em silêncio por um tempo e eu fico olhando-o.
— Tá legal, Elena, você acha que eu sou irresponsável assim? — ele me encara realmente ofendido — Espera, você me chamou de "pai"?
— Claro que não. Você está velho e s***o. — reviro os olhos
— Senhor Stark, a balsa com o FBI e o suspeito está afundando. — Sexta-Feira avisa
— d***a! — ele diz — Se você vestir seu antigo uniforme em um minuto, poderá ir comigo.
Saio correndo para o compartimento onde meu primeiro uniforme está e sorrio. O visto apressadamente e coloco minha capa brega e poderosa. É tão bom estar de volta.
— Coloca isso. — ele me dá um pequeno objeto
— Onde? — pergunto e ele bufa revirando os olhos
— Isso vai te ajudar com o ar. — ele diz pegando o objeto da minha mão e colocando atrás da minha orelha
Magnetizando a armadura do meu pai, fico de pé nos ombros metálicos e meu pai sai a todo vapor pelo céu de Nova York. Aperto o botão atrás da minha orelha e um capacete frontal surge em meu rosto, evitando que o vento bata contra mim. Preciso admitir, meu pai é inteligente pra caramba.
Quando vemos a barca partida ao meio, minha ficha cai. Tem gente morrendo aqui.
— Vou ter que arrumar reforço.
A voz de meu pai surge em meu comunicador e logo aparecerem os antigos instrumentos da Legião de Ferro, que nos ajudarão a reconstruir isso tudo e evitar mortes.
— Aquilo é um homem abutre? — pergunto incrédula olhando para a coisa voadora — Peter tinha razão!
— Desde quando vocês conversam sobre isso? — meu pai pergunta
— Longa história.
— Consegue magnetizar?
— Um em cada lado, você empurra e eu seguro.
Magnetizo um dos instrumentos de reforço e vou até o outro lado da barca. Espalmo minhas mãos na faixa metálica e jogo toda a minha carga elétrica nela, evitando que ela se parta mais.
— Empurra logo isso! — rosno
— Tá pesado, filha? — ele debocha — Oi, Homem Aranha. Ensaio da banda, né?
Assim que conseguimos juntar as duas partes, eu permaneço magnetizando tudo, enquanto meu pai voa soldando tudo.
— Pode soltar, Elena. — meu pai avisa
— Graças a Deus. — respiro aliviada soltando tudo
— Leve Peter para algum lugar onde possamos conversar em breve.
Vou até Peter e o coloco em cima do dico de metal em que me encontro. Ele parece cabisbaixo quando se segura em mim e eu nos magnetizo até o alto de um prédio em Nova York. Ele tira a máscara e se senta na beira do prédio.
— Você está bem? — pergunto
— Melhor do que devia. — resmunga
— Ei, não fica assim. — digo tirando o capacete e descendo do disco — Você só queria ajudar.
— Pelo menos a Mark 42 apareceu pra salvar tudo. — ele resmunga
Quando penso em me aproximar, meu pai surge planando no terraço.
— Anteriormente em Peter Pisa Na Bola. — a voz do meu pai soa através da armadira — Parabéns, garoto. Você quase destruiu tudo.
— Eu tentei te avisar, mas você nunca me atende. — Peter se levanta e vem até nós — Você nunca se importa. Você nem mesmo está aqui.
Nessa mesma hora, a armadura se abre e meu pai caminha até ele, deixando o garoto de queixo caído.
— Eu não me importo? Quem você acha que chamou o FBI? Eu tô tentando evitar que você se mate.
— Eu só queria ser como você!
— E eu queria que você fosse melhor! — meu pai rebate
Sinto meu coração apertar. Sei que meu pai é difícil, mas de alguma forma, todos queremos ser como ele. Acho que é justamente por ele ser tão errado e estar lutando tanto para ser certo. De um jeito ou de outro, meu pai é um exemplo. Um exemplo do que ser e do que não ser também.
— Me dá o uniforme.
— Pai. — tento intervir
— Não se envolva nisso. — ele me corta — Me entrega o uniforme.
— Não, por favor, senhor Stark. — Peter se desespera — Eu não sou nada sem o uniforme.
— Se não é nada sem ele, então você não o merece. Acabou pra você, Homem Aranha.
Me partiu o coração ver o moleque tão triste, tirando o uniforme e ficando só de samba-canção em nossa frente. Demos um jeito de arrumar roupas para ele e então meu pai deu dinheiro para ele pegar o metrô.
Eu tirei minha capa e entrei no carro junto com Tony e Happy. Happy vai dirigir até o norte e eu pretendo ficar calada até chegarmos no Complexo.
— Detesto quando você fica muito tempo calada. — ouço meu pai resmungar
— Esse uniforme está me apertando.
— A última vez que vestiu isso você era solteira e não era mãe. — resmunga —É normal precisar de ajustes. O presidente vai se reunir com T'Challa e Ross. Eu fui chamado.
— Legal. — limito-me a dizer
— Minha vontade é de matá-lo.
— Se você tiver coragem.
— Elena, eu sei que você está aborrecida pela forma como tratei o pirralho... — eu o interrompo
— Peter. — corrijo — O nome dele é Peter.
Encerrando a conversa, coloco meus fones no ouvido, ouvindo Summer Love, do JT, no último volume.