T O N Y
Assim que Elena e eu atravessamos as portas da garagem subterrânea do Pentágono, Happy estava esperando encostado no capô da Mercedes. Quando ele viu minha filha ao meu lado, sua surpresa ficou evidente no pulo que o mesmo deu. Vi seu rosto ficar vermelho e petrificado.
— Credo! Quem morreu, Happy?
Elena pergunta e Happy apenas a abraça com força. Eu ponho as mãos no bolso e observo a cena com um leve sorriso brincando nos lábios. Happy é meu homem de confiança, além de ser um grande amigo. Me lembro da reação dele quando descobriu que eu tinha Elena.
— Descobriu o que sua ex queria, Tony? — ele pergunta
— Eu descobri que... Caramba, Happy! Eu sou pai.
— Tá brincando, né? — ele ri
— Não. — digo em pânico e vejo seu riso cessar
— Como? Vocês não se vêem há anos!
— Ela tem dezesseis anos.
— Happy, não tô conseguindo respirar. — Elena resmunga e ele a solta
— Desculpe, é só que... — ele suspira sorrindo e a segura pelos ombros — Olhe só você. Tão bonita, tão madura. Cortou os cabelos.
— É, a maternidade me mudou um pouco. — ela sorri tímida e encolhe os ombros
— Vo-você disse... Ma... Maternidade? — seus olhos se abrem em espanto
— Ela ainda nem me explicou isso, então segura tua onda Hap. — digo dando um tapinha em seu ombro — Nos leve à primeira cafeteria que você achar em Washington.
Atônito, Happy abre a porta traseira para que Elena e eu entrássemos no carro. Pela janela de vidro escuro, o vejo dar a volta no carro e entrar no mesmo, logo assumindo o volante e dando partida.
Me permito observar a mulher ao meu lado. Elena tem traços mais fortes e mais maduros que a fazem parecer ter um pouco mais de idade do que de fato tem. Está usando um vestido preto social, um par de Scarpin preto e, em seu pulso esquerdo, um bracelete de prata com o símbolo do Pantera n***a. Me pergunto se essa amizade entre ela e T'Challa seja realmente algo recente, como ela mencionou na frente de todos nós na reunião. Seus cabelos mais curtos e mais claros, mostram-me que sua cor natural é castanho assim como os meus cabelos, o que me faz sorrir. Eu adoro encontrar coisas semelhantes entre nós, já que, particularmente, acho que ela é a cópia exata de Leila. O tom bombom da pele, o maxilar bem marcado, a ruguinha que se forma entre suas sobrancelhas enquanto ela pensa. Tudo em Elena me lembra Leila. É esquisito, porque Leila me disse que tudo em Elena a fazia se lembrar de mim.
Enquanto eu a admiro, me pergunto pelo que ela passou. A leve marca em seu ombro reforça esse pensamento. Claramente é a marca do que um dia tenha sido um machucado. Imaginá-la correndo risco de vida me causa dor.
Sou pego por seu olhar curioso enquanto ainda a analiso. Ela se encolhe um pouco desconfortável e eu sorrio sem jeito. d***a, eu odeio esse iceberg entre nós. Parecemos dois estranhos.
Quando Happy pára, ele sai do carro e abre a porta atrás dele, para que Elena saia. Eu mesmo abro minha porta atrás do carona e me ponho a respirar o ar de Washington DC. Parece uma cidade bacana para se viver. Caminho ao lado de Elena para dentro da cafeteria e nós escolhemos uma mesa na varanda do local, perto da grade. Nós nos sentamos um de frente para o outro e a garçonete se aproxima, parecendo não acreditar que o Homem de Ferro e Voltagem estão aqui.
— E... Em que posso ajudar? — a moça firma a voz e Elena sorri enquanto olha o cardápio
— Eu vou querer um café puro, por favor. — peço — E para a jovem, imagino que um capuchino. — olho para Elena, que mantém o pequeno sorriso no rosto
— Acertou. — ela confirma
Quero que ela saiba que eu ainda sei tudo sobre ela. Sei de todas as suas preferências. Quero que ela saiba que me importo.
— Você se incomoda se eu pedir um croissant também? — ela questiona — Eu não como nada desde o fim do interrogatório da madrugada.
— Entendo. Você está bem? — a olho — Se quiser, podemos ir até um restaurante e adiantar o almoço.
— Não, tudo bem. — ela diz e olha para a garçonete — Um croissant de queijo e presunto, por favor.
— Sim, senhorita. — a moça se vai com os pedidos anotados
— Tem certeza que não quer adiantar o almoço?
— Estou bem, Tony. — põe o menu de lado — Fique tranquilo.
— Tony. — repito meu nome e sinto um gosto amargo — Quando foi que retornamos à estaca zero? — questiono e a vejo sorrir fraco
Demorou tanto para que ela me chamasse de pai. Depois de três anos sem vê-la, eu queria muito poder ouví-la me chamar de pai.
— Acho que foi quando a Natasha me ligou dizendo "Venha para cá o mais depressa possível. Ross está com uma lei para nós e seu pai irá apoiá-la". — ela faz graça
— Eu sou um i****a.
— Sim, você é. — ela concorda — Mas eu também sou.
A garçonete retorna com nossos pedidos, nos serve e logo se afasta novamente. Tomo um gole do meu café e vejo Elena dar uma generosa mordida em seu croissant e, logo depois, bebericar seu capuchino.
— Se eu pudesse voltar atrás... — deixo a frase morrer
— O plano de ninguém aqui é consertar o passado, moço, mas sim construir um novo futuro. — ela repete as palavras que disse quando nos conhecemos
— Você está sempre me surpreendendo. — a olho — Achei que fosse querer me m***r.
— Por que achou isso? — ela questiona desfrutando de seu pedido
— Talvez por eu ter sido um e******o, grosseirão e arcaico. — bufo — Eu bati em você, eu quase matei você com o reator. Eu sou um péssimo pai.
— Eu ainda estou chateada por ter ido parar naquela prisão com aquela coleira no pescoço, mas não é o ódio cego que eu carregava quando nos encontramos na Sibéria ou quando decidi liderar a Resistência. Eu mudei muito, Tony. Finalmente amadureci.
Fico em silêncio observando o verdadeiro amor da minha vida em minha frente. Elena me mudou tanto.
— Que tal me contar um pouco sobre essa tal de Resistência?
— Ok. — ela não se opõe — Eu passei dias complicados na prisão. Aquela coleira me deixava enjoada e num estado quase catatônico. Quando Steve me tirou de lá, nós fomos todos para um esconderijo secreto. Minha mente demorou um pouco para voltar a funcionar normalmente. Quando voltou, nós tínhamos um grande problema em mãos. Então, Steve e u lideramos a Resistência.
— O que é isso? — franzo o cenho — Os Vingadores Secretos?
— Quase isso. — sorri — Gostou do nome? Eu que dei. Eu que bolava os esquemas de fuga também.
— Quem estava com vocês?
— Isso eu não digo nem sob tortura. Você precisa acreditar em mim e acreditar que eu vou dizer o que é necessário que você saiba.
— Ok, então continua falando. Ainda não entendi como eu me torno avô nessa história.
— Steve e eu nos resolvemos. Quando eu descobri que estava grávida, eu entrei em pânico. Se não fosse por ele, eu não sei o que teria sido de mim. Eu me vi sozinha, sem família, sem minha mãe, brigada com meu pai, sem a Pepper, sem a Ashley, sem minha tia. Eu tava enlouquecendo.
— Por que vocês não casaram?
— Não dava pra emitir qualquer registro, certo? — diz como se fosse óbvio — E, mesmo se desse, nós não casaríamos. Tínhamos planos antes da cerimônia.
— Que tipo de planos?
— Algo que envolve refeições em família, você gritando tentando enforcar o Steve, eu no meio de vocês, você tentando me convencer a fugir da cerimônia.
Quando ela comenta, acabo rindo. Não que eu fique confortável com a ideia de vê-la casando — ainda mais com o Rogers —, mas me emociona a ideia de levá-la ao altar algum dia. Será que poderei fazer isso?
— Quantos anos ele tem? — pergunto
— Dois.
— Ele parece com você?
— Não sei dizer. — ela sorri e abaixa a cabeça — Seus olhos são azuis, meio verdes, sei lá. Exatamente como os de Steve. Mas ele não é loiro como o pai.
— Você passou sua gravidez inteira fugindo?
— Mais ou menos. — respira fundo — Depois Steve e eu achamos melhor nos separarmos e eu pedi abrigo ao T'Challa. Não dava pra ter uma criança com a vida que levávamos.
Em seu olhar, vejo que ela não está me contando 100% da verdade. Mas me contento com isso. A minha filha está aqui comigo. É só isso que importa.
E L E N A
Quando abri meus olhos, não reconheci o local em que eu estava. Havia uma cama de casal com estrutura de madeira em que eu estava deitada, uma escrivaninha de madeira onde o abajur que iluminava o quarto estava, um guarda-roupa de solteiro que também era de madeira e uma cadeira que fazia conjunto com a escrivaninha.
Soltando um leve grunhido, me sento na cama e vejo a porta se abrir e a luz geral ser acesa, cegando-me completamente. Coloco as mãos nos olhos e me jogo para trás, caindo de costas no colchão.
— Desculpe.
Ouço a voz de Steve e abro os olhos, me acostumando com a claridade. Ele está usando jeans, camisa cinza e uma jaqueta marrom. Sorrio quando ele se senta ao meu lado.
— Pelo menos o seu sorriso continua o mesmo. — ele comenta
— Eu estou h******l, não é?
— Pra mim, continua linda. — ele sorri e beija minha mão — Há quanto tempo não dormia?
— Acho que desde quando cheguei naquela prisão.
— Percebi. Você está dormindo há quase um dia.
— Estou morrendo de fome, mas preciso m***r a saudade. — digo e o abraço firme — Achei que não fosse ver você nunca mais.
— Você sabe que eu nunca vou deixar você. Eu te amo.
No dia seguinte à audiência com o presidente, eu estava no carro de T'Challa e à caminho do Complexo dos Vingadores. O silêncio estava instalado no veículo e eu só carregava comigo uma jaqueta. De volta para uma vida que já não era mais a minha.
— Eu prometo trazer o Elliot pra você assim que você achar que está segura aqui, ok? — T'Challa diz e eu o olho um pouco apreensiva — Vai ficar tudo bem, Elena.
— Espero que sim.
T'Challa me deixa na área principal de acesso ao Complexo e vai embora o mais rápido que pode para resolver pendências de Wakanda. E então, eu me vejo parada do castelo do meu pai, vendo o imenso A na parede. Não conseguia mover as pernas nem para entrar e nem para sair correndo.
— Elena?
A voz cheia de emoção me desperta do meu conflito interno de lembranças. Eu olho para a direção da voz e vejo Pepper completamente emocionada.
— Ai, meu Deus! Elena!
Com lágrimas escorrendo dos olhos, ela corre até mim e me abraça apertado. Não falo nada, apenas sorrio e retribuo o abraço. Nunca pensei que fosse tão bom estar em casa.
— Eu quase não acreditei quando seu pai me disse. Meu Deus, olha o seu cabelo! — ela diz rápido e mexe em meus cabelos mais curtos — Por onde você esteve? O que aconteceu?
— Calma, eu prometo contar tudo depois. Só se acalme, por favor. — beijo seu rosto
— Vamos. Seu pai está na sala de jogos com seu irmão.
Sigo pelo Complexo quase arrastada por Pepper, que segura firme em minha mão. Ao chegarmos na sala de jogos, vejo meu pai e Eric jogando damas. Não consigo segurar o sorriso e algumas lágrimas. Meu irmãozinho está enorme!
— Eric, olha quem chegou.
Pepper diz e os meninos me olham com olhares curiosos. Ao contrário do que eu pensava que seria, o pequeno se levanta animado e fica me encarando com receio de se aproximar. Meu pai segura em sua mão e o traz até mim, ficando parado em minha frente.
— Ah, meu Deus! — eu murmuro e me ajoelho na frente do pequeno
— Abraça sua irmã, filho. Ela voltou.