Um Nascimento E Um Funeral
2021
Eu estava na sala de espera do hospital super aflito, já fazia horas que minha namorada havia entrado em trabalho de parto e eu estava muito nervoso, ninguém havia me dado notícias desde então.
E após algumas horas, o doutor apareceu, fui correndo até ele.
- E aí doutor?
- A sua filha nasceu, é uma linda menina.
A sua cara não estava muito boa, o que me preocupou.
- E como está a Giulia?
- A sua namorada… Ela… Teve algumas complicações no parto, fizemos tudo o que estava ao nosso alcance, mas infelizmente ela não resistiu.
- Quê? - Comecei a chorar. - NÃO! É MENTIRA! DIZ QUE É MENTIRA, DOUTOR!
Ele negou com a cabeça e senti como se mil facas atravessassem o meu peito. Não podia ser, isso não podia estar acontecendo. Eu conhecia a Giulia desde que éramos crianças, crescemos juntos, éramos o melhor amigo um do outro, e nunca tivemos interesse um pelo outro, ela namorou outros antes de mim, e eu também tive outras namoradas antes dela, porém, um dia a gente se olhou e pudemos nos entender pelo olhar, acho que foi naquele dia que descobrimos que nos amávamos, e então começamos a namorar, e nunca mais nos largamos desde então. Começamos a namorar muito cedo, aos 18 anos, mas sempre sonhamos em construir uma família, nos casar, ter filhos… Giulia sempre sonhou em ser mãe, já eu pensava em ter filhos, mas em um futuro meio distante, pois me achava novo para isso, porém, quando estávamos com 21 anos, ela acabou esquecendo da pílula do dia seguinte, e engravidou, o que foi um tremendo susto pra gente, mas ela ficou radiante, já eu custei um pouco para acreditar, não queria ter filhos naquele momento, porém, após ver a alegria e o entusiasmo dela com essa gravidez, eu comecei a me empolgar com o fato de ser pai. E agora… Agora como eu criaria essa criança sozinho? Eu não sabia trocar uma fralda, nem dar banho, e como eu daria de mamar se nem leite tenho? Eu não poderia cuidar dessa criança sem a Giulia, sem o amor da minha vida. Por que, Deus? Por quê?
- Doutor, deve ter algum engano, o senhor deve ter visto a ficha errada, a minha Giulia não pode ter morrido.
- Giulia Gonzalez. - Era a minha Giulia. - Sinto muito! Mas venha conhecer a sua filha, ela é linda.
Ele me conduziu até o berçário e meio atordoado, eu o segui, ainda não havia conseguido digerir aquelas informações, a minha Giulia só tinha 21 anos, era nova demais pra morrer, tantos planos e sonhos que tínhamos, as coisas não deveriam ser assim.
- É ela! - Apontou para uma coisinha pequena, que se mexia sem parar.
Era uma miniatura de gente, tão pequeninha, acho que eu nem saberia pegar no colo. E se a derrubasse? E se eu a machucasse? Eu nunca havia pegado um bebê no colo, nem sei se eu levava jeito com criança, e se eu não fosse bom nisso? E se eu não fosse um bom pai? Eu nem tinha rede de apoio, minha mãe havia se casado há alguns anos com o meu padrasto e foi morar com ele em Portugal, e meu pai me abandonou quando eu tinha 2 anos para viver com a amante e o filho que teve com ela, nunca mais o vi.
- Já pensou em um nome? - O doutor me perguntou.
Pensei um pouco e logo respondi:
- A Giulia sempre dizia que se fosse menina queria que se chamasse Melanie. - Sorri ao lembrar da nossa conversa sobre os possíveis nomes para menino e menina.
- É um belo nome. - Ele disse.
No dia seguinte, a Mel já pôde ir pra casa, foi um misto de alívio e medo. Eu tinha um bebê pra cuidar e um enterro para preparar.
Assim que cheguei em casa, liguei para Daphne, minha melhor amiga. Ela conhecia a Giulia e ficou muito m*l quando soube da morte dela. Pedi para a minha amiga ficar com a neném para eu poder resolver as coisas do enterro, ah, quando eu pensei em enterrar a minha namorada? Giulia não tinha família, os pais morreram há alguns anos, e a sua única irmã morava longe e eu não tinha o contato dela, então, eu que tive que preparar tudo, ainda bem que minha amiga conseguiu me dar uma força com a bebê.
Deixei a Mel algumas horas com a Daph e fui resolver tudo o que precisava.
- Como foi tudo? - Perguntei ao voltar pra casa.
- Você tem um verdadeiro anjo, ela nem chorou, se comportou muito bem. Ah, e já troquei a fraldinha dela.
- Obrigado Daph, muito obrigado.
- Magina, você sabe que pode contar comigo.
- Daph… - Me sentei ao lado dela. - Eu não sei o que fazer, acho que não vou dar conta, tenho medo de fazer tudo errado. - Respirei fundo. - Eu estava pensando… Acho que vou colocá-la em um abrigo, pelo menos lá vão saber cuidar dela como merece.
- Hey, pode tirar essa ideia da cachola. Will, você não está sozinho, eu estou com você, e pode contar comigo para criar a Melzinha.
- Mas, e se eu falhar? E se eu fizer algo errado? Se eu a machucar, eu me culparia pro resto da minha vida, não suportaria viver com essa culpa. Daph, eu tenho medo de não ser um bom pai, eu nunca tive nem uma referência paterna.
- Willian, me escuta, eu te conheço há anos e sei o homem maravilhoso que você é, e eu tenho certeza absoluta que você vai ser o melhor pai que essa criança pode ter. E eu vou te ajudar no que você precisar, viu?
- Obrigado Daphne, você é a melhor. - A abracei.