A Viagem

1075 Words
Eu estava na sala de espera aguardando apreensiva por uma notícia dos médicos. Dona Gesi já havia ido embora, apesar de não concordar muito, consegui convencê-la a ir para casa descansar e comer algo, mas prometi que eu ligaria para ela assim que tivesse alguma notícia. De repente avistei um par de pernas parar em minha frente, olhei para cima com os olhos lacrimejados e me surpreendi ao vê-lo. - Will? - Alguma notícia? - Sentou ao meu lado. - Ainda não. Achei que você estava trabalhando. - Falei. - Eu tive uma reunião e como eu tinha umas horas a ver, pedi para me liberarem mais cedo. - Obrigada! - Não precisa agradecer. E o que ele tem? - Câncer. - Nossa! Que m***a! Perdão o palavreado. - Tudo bem, é uma m***a mesmo. Faz dois anos que descobrimos, de lá para cá foram internações, tratamentos, muitos remédios, quimioterapia… Os médicos não deram tanto tempo de vida, mas eu estou fazendo o que posso para ele viver o máximo que der. - Steph, peça muito a Deus, sei que Ele vai te ajudar. - Eu não acredito em Deus. - Respondi. - Ah… Tudo bem, então eu peço por você. Faz 3 anos que eu parei de acreditar em Deus, desde que eu perdi a minha Florzinha, pois no dia que ela foi para o hospital em estado grave, eu me agarrei em toda fé que eu tinha, fui à igreja mais próxima e supliquei a Deus para que deixasse minha filhinha viver, se quisesse Ele poderia levar a mim, mas que não me tirasse ela, porém, dois dias depois eu recebi a pior notícia da minha vida. Naquele dia toda a minha fé morreu junto da minha filha, e nunca mais consegui acreditar em Deus. - Tem algo que eu possa fazer por vocês? - Perguntou Will. - Não, mas eu agradeço. É por isso que trabalho, sabe? Para poder comprar os remédios do meu pai. - E quanto você gasta por mês com os remédios? - Na base de 700, 800,00. - Respondi. - Isso é mais da metade do teu salário. - Falou espantado. - Vamos fazer assim, de hoje em diante eu pagarei os remédios do teu pai, te pagarei o salário + o valor dos remédios. - Falou para minha surpresa. - Quê? Não! Eu não posso aceitar, não precisa. Mesmo. - Eu faço questão. - Me olhou fixamente. - E não se fala mais nisso. - Will, você é um homem tão bom! - Não, não sou. - Falou timidamente. Nisso o médico que estava atendendo o caso do meu pai, veio até mim. - Como ele está? - Perguntei ao levantar, e Will fez o mesmo. - Já contemos o sangramento e demos um remédio para conter os episódios de vômito. Por hora, trocaremos os remédios e se ele não melhorar, provavelmente teremos que fazer mais sessões de quimioterapia. - Ai, não! - Falei ao abraçar Will em um ímpeto. Assim que percebi a minha ação, me afastei bruscamente do homem. - Desculpa. - Falei. - Tudo bem, sem problema. - Falou meio envergonhado. Meu pai não podia fazer mais sessões de quimioterapia, da última vez foi tão doloroso de ver meu pai passar por aquilo, e a todo momento ele dizia que estava tudo bem e tentava me tranquilizar, mas eu sabia que por dentro ele também estava sofrendo muito. Pelo menos agora o meu pai não ficou internado. Com tudo isso, eu achei que seria melhor eu não ir nessa viagem com Will e Mel, porém meu pai parecia melhor, e os médicos me garantiram que ele não corria perigo, sendo assim, resolvi ir nessa viagem, mas fiz dona Gesi prometer que me ligaria se papai não se sentisse bem, e ela me prometeu que assim seria. (...) Era uma sexta - feira. Will e Mel me buscaram em casa e então fomos para o litoral. Mel estava super empolgada com a viagem, havia feito um mega roteiro de tudo o que ela queria fazer. Enquanto estávamos na estrada, meu celular tocou umas cinco vezes. Era Philippe. Certamente ele devia estar arrependido de ter me batido e provavelmente havia comprado um buquê de flores ou uma caixa de bombons como pedido de desculpa, mas eu não queria e nem pretendia falar com ele, pelo menos, não até voltar de viagem, até porque se ele soubesse dessa viagem, ele iria enlouquecer e certamente eu apanharia mais quando eu voltasse, e eu não estava muito a fim que isso acontecesse, ainda mais agora que estava me recuperando de uma de suas agressões. - Não vai atender? - Will perguntou ao notar meu celular vibrar em cima da minha perna. - Pode ser algo importante. - Não, não é. É um número de outro estado, deve ser engano. - Ah, sim… Assim que chegamos no hotel, Will fez check in e a moça da recepção nos entregou dois cartões, que serviam para abrir a porta dos quartos. Will ficaria em um quarto com a filha e eu obviamente ficaria em outro. Subimos para os nossos quartos para largarmos as nossas coisas e em seguida, Will já saiu para o seu primeiro dia de capacitação. - E ai, o que vamos fazer? - Perguntei para Mel assim que o homem saiu. - Praia! Praia! Praia! - Falou ao pular na cama. - Mas já? - Praia! Praia! Praia! - Ok, então vem aqui, vamos colocar o seu biquíni. - A criança deu um pulo na cama, caindo sentada na mesma. - Cadê? A menina apontou para sua mala, eu a abri e logo vi um pequeno biquini da Minnie. Ajudei a menina a se arrumar, enquanto ela tagarelava sem parar, estava tão empolgada. Fui com Mel para a praia e assim que chegamos, larguei nossas coisas na areia e a menina já saiu em disparada para o mar, tive que correr atrás dela. - Mamãe… Mamãe… - Escutei uma voz muito parecida com a da Flor. Olhei na direção que vinha a voz, e não era ela, era uma menina de mais ou menos uns 5 anos. Ah, como eu sinto falta da minha Florzinha, tudo me faz lembrar dela. Respirei fundo tentando não chorar e voltei a olhar para Mel, que se jogava na água aos risos. Fiquei algum tempo brincando com a criança, acho que ela estava gostando de mim do mesmo jeito que eu gostava dela.
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD