O sonho pareceu tão real, odiava quando eu sonhava com a Flor, odiava tê-la de novo em meus sonhos e não vê-la ao acordar. Odiava me sentir tão culpada. Odiava essa saudade que parece rasgar o meu peito cada vez que lembro dela.
Flor foi a criança mais doce, inteligente, meiga e carinhosa que eu conheci, era o amor da minha vida, acho que nunca vou aceitar que a perdi.
Lembro como se fosse ontem. Era 20 de abril de 2018, faltava dois dias para o meu aniversário, Alex e eu estávamos organizando uma festinha, algo simples com os nossos amigos, e enquanto conversávamos sobre os preparativos da festa, eu senti uma contração. E outra. E outra. E mais algumas outras. Alex correu comigo para o hospital. Maria Flor nasceu na madrugada do dia 21, um dia antes do meu aniversário, foi o meu maior presente. Definitivamente esse foi o melhor dia da minha vida. No fim, não tive a minha comemoração de aniversário, mas meus amigos me visitaram no dia do meu aniversário para conhecerem a minha pequena, e levaram bolo e cantaram parabéns, foi super legal.
Alex estava tão feliz, ele demonstrava ser um paizão, o que fez eu me apaixonar mais por ele.
Lembrei da sensação de pegar a Flor no colo pela primeira vez, e sem me conter, acabei chorando, só queria voltar no tempo e poder salvá-la.
Fui até o banheiro para lavar o meu rosto, não queria que papai visse que eu havia chorado.
Olhei as horas e já passava das 20h. Fiz um jantar para mim e meu pai, e como sempre, ele elogiou a minha comida.
- Pai, eu vou viajar à trabalho, vou ficar sexta e sábado fora, e o senhor vai ficar com a dona Gesi, tudo bem?
- Sem problema, meu amor. - Acariciou o meu rosto. - Sabe, essa noite eu sonhei com a sua mãe…
- Sonhou?
- Sim, um sonho lindo… - Falou com um largo sorriso.
- Terminou? - Perguntei ao me referir ao jantar, e tentando mudar de assunto.
- Já.
Recolhi seu prato e o levei até a cozinha. Coloquei sobre a pia e me pus a chorar ao lembrar da minha mãe.
Ao escutar o meu pai chamar por mim, limpei as lágrimas, lavei o rosto e fui até o quarto do meu pai.
- Preciso ir ao banheiro. - Ele disse ao me ver.
- Tudo bem, eu te ajudo.
(...)
No dia seguinte, assim que cheguei ao serviço, avisei para Will que estava tudo certo para eu viajar com eles.
- Vamos mesmo viajar, papai? - Mel perguntou.
- Vamos sim, baixinha.
- Oba! - A pequena disse ao pular no colo do homem.
- E o olho? - Will perguntou ao colocar a filha no chão.
- Quê? - Me assustei com sua pergunta.
- Melhorou da irritação?
- Ah, sim… Um pouco. - Ajustei os óculos.
- Que bom! - Sorriu.
Nisso o homem deixou a chave do carro cair, e me abaixei para pegar, porém, meu óculos acabou caindo para meu desespero.
- Mas o que é isso? - O homem perguntou. - Então essa era a irritação?
- Xi, esse olho está bem irritado porque está muito f**o. - Disse Mel.
- Filha, vai brincar um pouco no teu quarto, por favor.
- Ah, odeio ser criança e não poder participar das conversas dos adultos. - Resmungou ao ir para o quarto.
- Steph, me fala a verdade, por favor. Quem te bateu?
- Quê? Não, ninguém.
- Não mente, por favor, acha que eu não conheço um olho roxo de agressão?
- Agressão? Ah, não. Quer dizer, não foi bem assim. Bom, a verdade é que eu estava em um bar com um casal de amigos, e o meu amigo acabou se envolvendo em uma briga, e daí eu fui tentar separá-los e fui acertada, o que resultou nesse olho roxo. - Menti.
- Ok… Steph… - Se aproximou de mim e me olhou fixamente. - Se algo aconteceu ou estiver acontecendo, pode me contar, eu só quero ajudar.
- Obrigada, mas estou bem. - Forcei um sorriso.
- Ok… - Deu um sorriso de canto de boca.
O homem foi até o quarto da filha para se despedir dela, depois se despediu de mim e então foi trabalhar.
Respirei fundo e fui até o quarto de Mel, que estava brincando com umas panelinhas.
- Posso brincar com você?
- Claro! Vamos brincar de restaurante, você vai ser a garçonete e eu vou ser a cliente.
- Ok. - Falei com um leve sorriso.
Mel e eu ficamos brincando por algum tempo, e cada vez, estava mais fácil de cuidar dela.
Era por volta de 10h quando meu celular tocou. Era dona Gesi, o que me preocupou um pouco, pois ela sabia que eu estava trabalhando. Será que tinha acontecido algo com o meu pai?
- Alô. - Falei.
- Steph, desculpa te incomodar, mas teu pai está passando m*l, não sei o que faço.
- Mas como assim? O que ele tem? - Perguntei, já preocupada.
- Ele já vomitou duas vezes e está com sangramento no nariz.
- Já chamou uma ambulância?
- Já sim!
- Ok, estou indo praí.
Desliguei a ligação e notei Mel me olhando assustada. d***a, tinha esquecido da criança!
- Aonde você vai?
- Preciso ver o meu pai, ele não está bem.
- E eu? Vou ficar sozinha?
- Não, meu bem. Você vem comigo, depois me entendo com teu pai.
Peguei a criança pela mão e corri até a minha casa, que por sorte, ficava perto.
Assim que cheguei em minha casa, bati à porta, e logo a dona Gesi abriu.
- Como ele está? - Perguntei ao entrar em casa.
- O nariz não para de sangrar e ele vomitou mais vezes depois que eu te liguei. - Se pôs a olhar para Mel. - E essa princesa?
- É a Mel, a menina que eu cuido. - Falei.
Sem perder mais tempo, corri até o quarto do meu pai, e fui seguida pelas duas.
- Pai, como o senhor está? - Perguntei ao me aproximar de sua cama.
- Vivo, é isso que importa. - Sorriu.
- Fazendo graça a essa hora, seu Ricardo?
Logo ele dirigiu o olhar para Mel.
- Oi. - Falou para a criança.
A menina me olhou como se pedisse permissão de algo, eu assenti com a cabeça e ela se aproximou do meu pai.
- Você está doente? - A criança perguntou.
- Estou. Muito doente. Acho que não tenho muito tempo nessa vida.
- Pai! - O repreendi.
- Não diga isso! - Mel falou para meu pai. - Assim como a Steph, eu também não tenho mamãe. - Falou tristemente. - Mas eu tenho papai. - Abriu um enorme sorriso. - E eu o amo muito, assim como a Stef também te ama. Se você morrer, ela vai sofrer muito, e daí quem vai contar histórias pra ela dormir? Quem vai a proteger nos dias de tempestade? Papais são muito importante, sabia? Seja forte, por ela. - Se pôs a me olhar.
- Você é um anjo, sabia? - Falei para a menina, que sorriu docemente.
- Obrigado! - Disse papai ao acariciar o rosto da criança, que deu um sorriso sem graça.
Logo a ambulância chegou, e levaram meu pai. Mel e eu fomos com ele na ambulância e dona Gesi foi de táxi até o hospital.
Ao chegarmos no local, os médicos levaram o meu pai para uma análise e eu fiquei na sala de espera com Mel, e enquanto aguardava, aproveitei para ligar para o Will para contar o ocorrido e também pedi para ele buscar a criança no hospital, já que eu não poderia sair de lá, e por sorte, ele foi super compreensivo.
Por volta de 12h30 o homem chegou ao local, e logo apresentei ele para dona Gesi.
- Papai, eu conheci o pai da Steph. - Disse Mel super empolgada.
- É, meu amor? - Deu um beijo na testa da filha.
- Desculpa, Will. Eu não sabia o que fazer, e…
- Está tudo bem, Steph, eu entendo. E o teu pai?
- Está fazendo uma bateria de exames, só espero que ele não fique internado.
- Calma, vai dar tudo certo. Ele vai ficar bem.
- Tomara! Ah, desculpa, mas com tudo isso, a Mel acabou não tomando banho e nem almoçando.
- Tudo bem, não tem problema, a gente faz um lanche rápido na rua. Bom, eu preciso ir agora, tenho que levar essa moça pra escola e ainda passar em uma lancheria para comermos algo.
- Pode ser pastel de “carabrasa”, papai? - Mel perguntou super empolgada.
- É calabresa, meu amor, mas pode sim.
- Oba!
- Steph, melhoras pro teu pai.
- Obrigada!
O homem virou de costas e Mel subiu nas costas dele. A pequena acenou para mim com um leve sorriso e então eles saíram.
- Nossa, ele é um gato! - Disse dona Gesi.
- É sim! - Dei um leve sorriso.