No sábado, levei Mel a um parque de diversões e depois fomos tomar sorvete, eu adorava quando chegava os finais de semana e podia sair com a minha filha.
- Papai, por que eu não tenho mamãe? - Perguntou.
- Meu amor, já conversamos sobre a tua mamãe.
- Sim, eu sei que ela virou estrelinha, mas você podia se casar de novo, né? Eu gosto da tia Daph.
- Oh, querida. - Peguei na mãozinha dela. - Eu sei, mas a Daph é só minha amiga, é como uma irmã pra mim.
- Mas e quando eu crescer? - Perguntou.
- O que tem?
- Se a Daph vai viajar, quem vai me comprar sutiã e absorvente? E se eu não souber colocar, quem vai me ensinar? Você?
- Hey, de onde você está tirando essas coisas? - Ela deu um sorriso travesso. - Eu espero que a Daph volte até lá, senão não sei o que vai ser de mim. - Ela riu.
Assim que chegamos em casa, Mel e eu fomos brincar de massinha de modelar. De repente, a campainha tocou, fui atender e era Daph.
- Fiz um bolo de chocolate, querem?
- Oba! - Comemorou Melanie.
Nós três comemos o bolo, que estava delicioso, e depois fomos ver um desenho na TV da sala. Daphne e eu nos sentamos no sofá e Mel deitou com a cabeça em meu colo e as pernas no colo da Daph. Na metade do filme, Mel pegou no sono.
- Não cansa da gente? - Perguntei. - Você já passa a semana toda aqui...
- Que nada, Will. Eu vou sentir saudade de vocês, por isso quero aproveitar o máximo de tempo com vocês.
- Também vamos sentir saudades. - Ela colocou a cabeça em meu ombro. - Bom, se quiser ir… Eu vou colocar essa baixinha na cama.
- Está bem, boa noite. - Me deu um beijo no rosto e saiu.
Coloquei Mel na cama e fui dormir.
(...)
E o tão temido domingo havia chegado, dia da partida da Daph. Ela iria fazer intercâmbio em Londres, ela tinha me contado há alguns meses, mas acho que só agora a ficha estava caindo. Daph e eu nos conhecíamos há anos, e agora pela primeira vez, ela estava indo embora, e eu ainda tinha que contratar uma babá para ficar na parte da manhã com a Mel, já que à tarde, ela vai pra escola. Melanie e eu fomos levar Daph no aeroporto.
- Tem certeza que você precisa ir? - Perguntei.
- Tenho, mas não pense que vão se livrar de mim, eu vou te mandar mensagem todos os dias, e vamos fazer chamada de vídeo.
- Vou sentir saudade, titia Daph. - Disse Mel tristemente.
- Também vou, meu amor. - Pegou a minha filha no colo, que a abraçou.
De repente, uma voz anunciou que os passageiros do voo 311 deveriam se dirigir para o portão de embarque. Era o voo da Daph.
- Está na minha hora. - Ela disse ao colocar a minha filha no chão. - Baixinha, cuida desse moço aí.
- Pode deixar. - Disse Mel.
Daph se despediu da gente e foi em direção ao portão de embarque. Ah, sentiria tanta saudade dela… Mel estava tão tristinha, ela gostava muito da Daph. A peguei no colo e fomos embora. Para tentar alegrá-la, a levei em uma loja de brinquedos, e lhe comprei um brinquedo novo, mas não adiantou muito, ela seguia tristonha.
- Papai, se a Daph foi embora, quem vai cuidar de mim de manhã?
- Vou contratar uma babá.
- Fala sério! - Ela disse desanimada.
- Amanhã estou de folga, e já farei umas entrevistas com algumas moças.
(...)
Entrevista 1
A 1° moça era tão estranha, tinha metade do cabelo raspado, estava toda de preto, inclusive o esmalte e o batom, tinha piercings na sobrancelha, na língua, no nariz e no canto da boca, usava um alargador em uma das orelhas e tinha diversas tatuagens no corpo e no rosto.
- E então… Hã… Já trabalhou com crianças antes?
- Claro, trabalhei nos Estados Unidos em um centro para menores infratores, sei muito bem como lidar com esses delinquentes zinhos.
Próxima…
Entrevista 2
Era uma senhora de uns 80 anos, bem baixinha, magrinha e com o cabelo todo branco.
- A senhora tem experiência com crianças?
- Claro, eu comecei a lecionar em 1964, lecionei até 2000, agora estou aposentada, e… O que eu dizia mesmo?
Próxima…
Entrevista 3
Era uma moça de uns 19 anos, que estava com um vestido vermelho super justo e decotado, extremamente vulgar, salto alto e uma maquiagem super forte.
- Hã… Veio de alguma festa? - Perguntei.
- Sim, passei a noite na balada, sai hoje de manhã e vim direto, mas perguntou pela roupa? - Acenei positivamente com a cabeça. - Ah, mas eu sempre me visto assim. - Se aproximou de mim de forma vulgar. - E ai, gatinho, não quer uma mãe pra sua filhinha?
Próxima…
E depois de diversas entrevistas eu não aguentava mais, será que não existia ninguém normal nessa cidade?
Entrevista 57
Eu abri a porta e era uma mulher linda, de cabelo castanho claro liso e olhos verdes, aparentemente era normal.
- Nome?
- Stephanie.
- Tem quantos anos? - Perguntei.
- 26.
- Experiência?
- Sou formada em Pedagogia e já trabalhei em escolas, com crianças de 0 a 6 anos.
- Por que saiu do último emprego?
- Porque fui morar em Buenos Aires, fiquei dois anos lá, e depois resolvi voltar.
- Então você fala espanhol?
- Falo espanhol, inglês, italiano, alemão, francês e estou aprendendo turco.
- Hum… Interessante. - Falei surpreso. - Mas me diga, por que voltou para o Brasil?
- Ah, por que meu pai ficou aqui, e senti muita saudade dele.
Ótimo, estamos indo bem até agora.
- Piercing?
- Nenhum.
- Tatuagens?
- Só uma. - Me mostrou um nome tatuado nas costas. - É o nome do meu pai.
- Estilo musical preferido?
- Sertanejo universitário.
- Curte festas?
- Não, só um showzinho sertanejo, mas raramente eu vou.
- Por quê?
- Falta de companhia…
- Entendo… E me diga, qual o teu pensamento em relação às crianças?
- Eu amo crianças. Crianças são os seres mais puros e fantásticos que existem, não são falsos como a maioria da população, falam o que pensam, o que sentem… E eu amo a inocência e pureza deles, quando estou com criança, até volto a ser uma.
“É ela.” - Pensei.