Amor não machuca

3192 Words
Capítulo 6 Amor não machuca Fiquei bastante tempo com ele ao lado de seus amigos. Ele me apresentou como Antusa, uma das ninfas das flores na Mitologia Grega. Ele conhecia muitas coisas que eu nem imaginava. Reconheci, no grupo, Ladyhawk que estava perto dele até momentos atrás. Ela estava odiando ver o braço dele na minha cintura. Volta e meia ele apertava minha b***a e minha cintura, demonstrando ter se apossado de mim. Porém fazia isso sem sequer olhar para mim. Aquilo era excitante demais. Aguçava meus sentidos e me fazia querer tê-lo inteiro logo em uma cama. Contudo, os assuntos giravam em torno de práticas b**m que eu desconhecia totalmente então prestava muita atenção, mas não tanta quanto nele quando falava. Só parava de prestar atenção quando fofocavam da vida uns dos outros, às gargalhadas. Senti vontade de ir ao banheiro. — Onde fica o banheiro? — Perguntei a ele. — Não vai pedir? Abri a bolsa e mostrei o maço de cigarros a ele. — Depois me dá um do seu. Pode ir. Sorri e me afastei para ir ao banheiro. Entrei, sentei no vaso sanitário e fiz xixi enquanto acendia um cigarro. Naquele momento, ouvi barulhos de salto entrando no banheiro. O clube não era lotado, haviam poucas pessoas naquele sábado. Não era igual uma balada típica onde havia fila para o banheiro feminino. Tudo era muito limpinho e inclusive cheiroso até. Ouvi que a mulher parou de andar. — Ninfa, não é? — Disse ela alto. Ergui minha cabeça com o susto. Cerrei a testa. Ela falava de mim? Não havia outra mulher no banheiro e, sobretudo, nenhuma outra ninfa. — Acho bom me responder porque sei que está aqui. Terminei de me assear e me levantei. Meti a mão na porta com o cigarro na boca, ajeitando meu vestido apertado e depois saí. Era ladyhawk. Nome estranho para uma submissa: Lady Falcão, o que me fez lembrar do filme antigo “O feitiço de Aquila”. — Está falando comigo? — Perguntei, sonsa. Ela estava encostada na longa pia de mármore com quatro cubas, de braços cruzados e me olhava com ar altivo e arrogante. Certamente, ela foi me confrontar sobre Mateus. — Tem mais alguém aqui? Ela era bonita. Tinha os cabelos longos, negros, bem lisos até o meio das costas e vestia-se como uma perfeita fetichista, toda de preto. A maquiagem era preta, condizente com todo o resto. O que não era nada bonito era a maneira como me olhava, com raiva. — Estou aqui, pode falar. — Sabe, ninfa do Maximus, eu cheguei aqui há 3 anos. O Mestre já estava aqui, mas ele nunca teve mais do que sessões avulsas. Eu espero que continue assim entre vocês dois. Espera, ela estava mesmo me ameaçando? — Calma, eu vou tentar entender. Você está me dizendo o que fazer porque sente ciúme dele? — Todas sentimos. E não vai ser você que vai roubar Maximus de mim. Eu sugiro que desapareça. Eu dei uma pequena e rápida risada, me curvando ligeiramente para frente. Em seguida, me aprumei e a encarei. Não era mestre no confronto, era uma mulher muito pacata inclusive, porém, ela tocou em um ponto chave da minha vida. E esse ponto chave se chamava Mateus Becker. — Meu bem, ninguém me ameaça, ninguém bota o dedo na minha cara, lady, até porque de lady você não tem nada. — Maximus não vai assumir você, ele vai dar uma volta até se cansar da sua falsa submissão, ele só quer te converter, brincar com você. — Mesmo? — Aquelas palavras me atingiram, mas fingi o contrário — Como pode saber que minha submissão é falsa? Você não sabe nada a meu respeito, garota. — Sei que nunca foi submissa. Então podia deixar as verdadeiras submissas disputarem ele. Porque elas serão as putinhas que ele quer na cama e não uma madame como você. Respirei fundo, tomando coragem para dizer o que precisava ser dito, porém sentindo o rosto esquentar de raiva. —Certo. Acho melhor você não me dirigir mais a palavra, p*****a do Maximus. Se valorize e me esquece. Saí do banheiro e levei um susto ao encontrá-lo ali do lado de fora, de braços cruzados escorado à parede. A expressão de seu rosto era séria e até colérica. Quando ladyhawk saiu, ele a chamou. — Aline! Ela levou um susto e se voltou para ele. A expressão de seu rosto mudou totalmente. Os olhos se arredondaram, como os de um cão quando faz xixi no seu tapete e é flagrado e as mãos foram para a frente do corpo, em sinal de submissão. Era como se a voz dele apertasse o botão da submissa dentro dela e isso eu considerava fascinante. — Sim, senhor? - Lançou-me uma olhadela rápida de cólera. —Eu ouvi tudo. Achou mesmo que eu não ia te ver vindo atrás dela no banheiro? — Achei, senhor. — Pois achou errado. Estou cansado de você armando confusões para mim com outras submissas. Tem ciúmes? Engula! Ele falou tão alto e tão próximo ao rosto dela que pude ver alguns fios dos seus cabelos voarem ligeiramente para trás com o vapor da boca do dom. Ela fechou os olhos. Baixei o olhar para não parecer que apreciava sua derrocada. — Senhor, ela não é submissa. —Mas você é e sabe muito bem que deve respeito a todos da casa e principalmente aos dominadores. Vem, ninfa. Ele saiu andando e eu a olhei discretamente. O olhar de ódio dela me fez arrepiar, aquela mulher parecia capaz de tudo para afastar qualquer uma dele. Segui Mateus. Ele saiu da casa e nem se despediu de seus amigos. Já do lado de fora, ele parou em frente ao carro que reconheci na garagem da empresa. Parei à sua frente, o olhando, esperando qualquer frase. — Olha, Margareth, desculpe por ela. É uma pessoa muito boa, mas adora uma encrenca quando o assunto sou eu. — Ele enfiou as mãos nos bolsos da calça, notavelmente enraivecido. Cruzei os braços sentindo o vento que soprava parecendo que ia chover. — Parece que ela te ama, para me ameaçar desse jeito. — Ela pode sentir o que quiser, só não pode dizer as coisas que disse. —Eu não acho que ela estava mentindo, acho mesmo que você quer me converter para seu ego. Ele me deu um sorriso sarcástico. Ficava ainda mais bonito com raiva. — Claro, com mais de dez anos de dominação, eu vou querer te fazer submissa para massagear meu ego. Certíssima. — Respondeu com ironia, cruzando os braços ao se encostar no carro. — Não sei, mas eu realmente acredito numa coisa que ela disse... — Ah lá vem! — Ele tirou o maço de cigarros do bolso e acendeu um, sem qualquer paciência. - Me conte os grandes delírios de Ladyhawk. — Que você vai se cansar de mim. Afinal essa é sua vida há dez anos. Ele olhou bem dentro de meus olhos enquanto puxava a fumaça do cigarro. — Margareth. Eu não estou engatinhando nisso aqui. Não me lembro de ter aberto uma negociação com você. Eu nem mencionei isso. — Me chame de Meg, por favor! E você disse sim, que me queria. — Disse, mas e aí? Isso não significa que isso é um romance! Até por que você é casada! — Quer dizer que se eu não fosse casada poderíamos ter uma relação dessas? Ele puxou o cigarro mais uma vez e balançou a cabeça. — Tudo é possível, só o que não é possível é você desconfiar de mim, mesmo depois do jantar na sua casa. Isso é intolerável. Eu preferi acreditar nela. Nem que por alguns minutos longos, eu preferi acreditar que ele era um cafajeste. Mas, com aquela voz mansa, gostosa, fumando, cheio de atitude bem na minha frente, eu me senti desmanchar. Facilmente parecia virar seu capacho e pior, gostando disso. — Eu estou confusa, vou embora. — Eu te levo - Disse, mas levou a mão à testa - Ah é, esqueci do i****a em casa e nas milhares de câmeras que ele tem na entrada. — Ele não está em casa, deve estar com alguma vagabunda. — Bem, então eu chamo um táxi. — Está bem, só vou avisar Barbara. Ele pegou o celular e começou a apertar as teclas para chamar um táxi, quando me olhou. — Quem é Barbara? — A amiga que me trouxe. — Não diga os nomes das pessoas para mim, ela é a sub bella. Ainda fiquei um tempo calada, esfregando os braços. Observava seus dedos apertando o teclado, o vento brincar com os fios de seus cabelos e o charme natural que ele exalava. — Está com frio? — Perguntou de forma preocupada. — É, o tempo está mudando. — Vem cá. Ele não me esperou dizer nada, sequer assentir ou negar, simplesmente me aninhou em seus braços para me proteger do frio. Aquela sensação era gostosa. Há muito tempo não tinha nada assim com um homem. Até que tive coragem de dizer o que estava engasgado na garganta pedindo para sair. — Eu quero... Senti a respiração dele nos meus ouvidos, o perfume gostoso tão próximo que ficaria impregnado na minha roupa e na minha pele. A pele quente do pescoço dele tocando minha testa. — O quê? — Isso que você tem com elas. — Dominação? — É. Ele se afastou para me olhar nos olhos. Aquela boca tão convidativa a centímetros da minha. — Se quer ser submissa vai fazer coisas que não está acostumada a fazer e vamos ter que conversar muito. — Eu quero. — Coloquei o queixo em seu peito para olhar para cima. — Então, como prova de que realmente quer, pode me dar sua calcinha agora. A voz era imperativa e a ordem muito inusitada para mim. Mas fiz. Afastei-me dele ainda olhando em seus olhos sem desviar. Sequer piscava. Mateus me olhava com seriedade e altivez, mas relaxado. Puxou a fumaça do cigarro mais uma vez e olhou os pés. Sequer se importava se eu estivesse com vergonha ou com receio. Enfiei as mãos por baixo do vestido, puxei a pequena peça preta até sair por uma das pernas e em seguida, puxei pela outra. Olhei em volta. Ele tornou a me olhar durante todo o processo. — Não olhe em volta, só para mim, ninguém mais importa. Estiquei a mão e entreguei a calcinha a Maximus. Ele pegou, levou ao rosto, sentiu o cheiro e em seguida colocou no bolso. — O que vai fazer com ela? — É minha. Vai fazer parte da minha masmorra agora. - Foi conciso. Ouvimos notificação no celular dele. O táxi tinha chegado. — É o taxi? — Eu não queria ir embora. Estava excitada demais para ir. — Sim, venha. Ele me guiou até o carro. Era estranho andar sem calcinha. — Quando chegar me avise e já sabe como buscar sua peça. Ele abriu a porta do carro para mim. Não houve beijo de despedida, ele não era assim, era sincero e direto. Ainda o olhei uma última vez antes de partir. Não sabia mais o que estava sentindo. Uma admiração profunda? Paixão? Desejo? Tudo combinado? Durante todo o trajeto pensei muito no que estava sentindo, até que vi que havia uma notificação de Roberta no meu celular. Eduardo tinha falecido. Meu Deus! Era algo que nenhuma de nós esperava. Era uma situação muito triste para minha amiga. Certamente ela ia se culpar pelo acontecimento, uma vez que estavam se divorciando. Eu não podia ampará-la naquele momento, então nem fui até o hospital, mesmo porque não me deixariam entrar pela hora que era. Olhei o relógio, marcava 00:10h. Teria que esperar pela manhã de domingo para estar com ela. Ainda assim liguei. — Meg? — Oi minha linda, como você está? — Muito m*l, amiga. Não sei o que fazer, me ajuda? —Hoje não posso mais, mas amanhã vou chamar Dominique para te ajudarmos com tudo. Está em casa? — Estou. — Eu só não posso ir por causa da babá, ela só vai ficar até 01h. Você me entende não é? Mas se quiser ficar no telefone, a gente fica a noite toda. Ou melhor, vai lá para casa. — Não posso, meu filho está m*l. — Ah entendo amiga, mas você vai melhorar, toma um calmante. — Vou sim, estou precisando, beijos. — Beijos. Cheguei em casa arrasada. Por muitos motivos. Queria que tudo desse certo para Roberta, que as coisas fossem mais fáceis para mim, para Angela, para Barbara. Subi as escadas lentamente e ao passar pela porta do quarto de Carlos, a luz estava acesa. Parei um pouco antes da porta, olhei para meu vestido, a bolsa e senti um medo que nunca antes tinha sentido. — Onde estava, Margareth? — Aquela voz, outrora tão amada, agora só me causava asco e medo. Eu tinha que aparecer, inventar alguma coisa. O pior era o cheiro do perfume de Mateus. Aquilo me entregaria certamente. Dei mais dois passos e o vi, sentado na cama, com uma garrafa de uisque ao lado. Ele ergueu a cabeça e me olhou. Durante alguns segundos analisou meu vestido, quieto. Depois olhou meu rosto e por fim me encarou. Carlos estava sem camisa, parecia bêbado e desalinhado demais. — Eu perguntei onde estava tão arrumada assim. — Ah, o Bingo, de uma amiga da Dominique. -Menti descaradamente. Ele deu um sorriso de escárnio. — Você mente quase tão bem quanto eu. — Não estou mentindo. Comecei a mexer na bolsa e a buscar o celular, queria gravar tudo que ele fizesse e dissesse. — Ele é melhor do que eu? Parei e examinei seu rosto. O que aquele homem infiel queria saber me perguntando aquilo? — Não sei do que está falando, Carlos, mas se for alguma coisa em relação a sexo, eu não sei dizer, faz muito tempo... Ele me interrompeu bruscamente, como sempre. — Você vai me deixar, não é? Diante daquele estado deplorável, cheguei a quase sentir pena dele. Porém lembrei de todas os maus tratos, gritos e quase agressões físicas. Sem falar na humilhação diante dos outros. Por que eu havia esquecido de trocar de roupa? Mateus tinha esse efeito sobre mim, de me desnortear e até esquecer que eu estive fazendo algo errado. Errado. Engraçado como o errado, por vezes, pode parecer tão certo. Quando estamos cansadas, quando perdemos o amor, quando perdemos a esperança, o errado não existe mais. A vida era curta demais para desperdiçar refletindo sobre o certo e errado em uma relação que acabou fazia tempo. Mas aparentemente para ele não. — Por que está dizendo isso? —Por que eu sei. Eu te dei viagens para ir sozinha, dei jóias para usar sozinha, dei carro para sair sozinha. Nunca fui com você. E agora está ai usando esse vestido lindo, gostosa como sempre foi e não sou eu que estou comendo. Lancei-lhe um olhar de deboche. Não estava “comendo” porque não me procurava mais. — Infelizmente ninguém está comendo. — Eu não sou burro, Meg, não me tome como burro porque fico puto. Calei-me e baixei a cabeça. — Eu só queria você de volta nesse quarto... Ele se levantou para se aproximar, mas cambaleava. Dei passos para trás. — Carlos, não. Deita ai, você precisa dormir. Em poucos passos ele já estava sobre mim, tentando me agarrar. O pânico tomou conta do meu corpo, o coração acelerou. Tentei me desvencilhar e o empurrar para a cama. — Quem está te comendo, vagabunda?! As agressões começaram muito facilmente quando ele não teve o que queria. Então o pior aconteceu, Carlos puxou a alça do meu vestido que se rasgou. Tentando segurar a alça rasgada, senti um forte tapa no meu rosto, que me fez quase cair para o lado. O ardor foi imediato junto com a dor. Assim que consegui me aprumar ereta novamente, andei para fora do quarto sem tentar fazer alarde. — Eu não vou perder você, você sempre foi e sempre será minha mulher, Margareth! Está ouvindo, v***a?! Aquelas palavras doeram. O tapa doeu. Eu não podia continuar daquele jeito. Meus filhos saíram do quarto e foram para o corredor ver porque o pai gritava. Aquele não era o sonho de infância que eu tinha sonhado para meus filhos. Não era modo de se viver. Ainda vi as luzes se acenderem lá embaixo e Ana subir as escadas correndo atrás de mim. Ela sabia o que tinha acontecido. — Dona Margareth, a senhora está bem? Entrei no meu quarto, junto com meus filhos. Eles choraram ao ver meu rosto. Devia estar vermelho. — Estou bem, Ana, por favor vá dormir. — Não precisa de nada? Um chá de camomila para acalmar? — Não, não, obrigada, minha querida, eu vou melhorar. Não, eu não ia melhorar. Eu só precisava que ela saísse do meu quarto para que eu tirasse uma foto do meu rosto. Entrei com meus filhos, que subiram na cama sem entender o que estava acontecendo. —Pai te bateu, mãe? — Perguntou Caio. -Não, filho, eu bati na parede. - Como se meu filho mais velho fosse engolir aquela versão. Rapidamente peguei o celular e tirei uma foto do meu rosto e só então que vi o tamanho do estrago. Havia sangue no canto dos meus lábios. Senti o gosto ferruginoso do sangue na boca. Tentei sentir todos os dentes e estavam todos lá. Sorte. Enviei a foto para o email da minha advogada e guardei. Expliquei aos meus filhos que a bebida que o pai estava bebendo fazia com que ele fizesse aquelas coisas. Menti. Menti como toda mãe mente para amenizar a triste imagem do pai como um espancador de mulheres. Nunca pensei que passaria por aquilo. Durante anos Carlos jamais me encostou a mão. Durante anos eu saí com minhas amigas enquanto ele estava na casa de outras. Ele não se importava mais comigo há muito tempo. O que teria mudado? Talvez tivesse sido deixado pela amante? Eu não podia começar a fazer conjecturas a respeito de agressões na tentativa de achar uma justificativa, pois nada daquilo era justificável. Eu acho que só queria entender o avanço das agressões desde que Mateus tinha chegado. Talvez ele tivesse notado que o diretor da empresa era mais bonito, mais jovem e que eu olhei para ele de forma diferente. A forma abrupta como levantei no jantar pode ter denunciado que alguma coisa tinha acontecido. Lembrei que Mateus pediu para ser avisado quando eu chegasse. Assim que acalmei meus filhos e tranquei a porta do quarto, enviei mensagem a ela com a foto do meu rosto anexada. Rapidamente recebi resposta. Ele fez isso com você?! Ele queria fazer pior. Eu vou aí agora! Não, pelo amor de Deus, já tenho problemas demais, eu vou a delegacia assim que amanhecer. Eu vou te levar. Filho da p**a. Esse desgraçado passou de todos os limites. Deixei o celular de lado e fiz meus filhos dormirem de novo. O dia seguinte seria cheio.
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