VICTORIA SOVOIA
O quarto ainda cheirava a álcool, sexo e perfume caro.
Luz suave invadia o ambiente por entre as pesadas cortinas de veludo vinho, filtrando-se como uma neblina dourada sobre os lençóis amarrotados de linho egípcio. O ar era denso, quente, abafado, como se os pecados da noite anterior ainda estivessem pairando sobre mim.
Meus olhos ardiam.
A cabeça latejava.
A garganta parecia ter engolido areia.
Estava de ressaca. De novo.
Virei lentamente na cama king size e encarei o teto trabalhado com detalhes barrocos, que rodopiava devagar como se estivesse debochando de mim. O silêncio era quase absoluto, quebrado apenas pelo som abafado de um avião passando ao longe e pela respiração mansa de Enzo, dormindo do meu lado, nu, com o lençol m*l cobrindo a cintura.
Suspirei fundo.
Ou pelo menos tentei. Porque até isso doía.
Sentei na beira da cama e fechei os olhos. O chão de mármore frio sob meus pés nus me fez estremecer. Levantei, tropeçando levemente, e fui até a penteadeira — uma antiguidade com entalhes em ouro e um espelho oval enorme, emoldurado por rosas esculpidas à mão.
O reflexo que vi era... decadente.
Rímel borrado. Cabelos revoltos como se um furacão tivesse passado. Marcas no pescoço. Um roxo no quadril.
E um olhar vazio que nem mesmo os brincos de diamante conseguiam esconder.
— Porra... — sussurrei, pegando um dos frascos de perfume e borrifando no pescoço. Era Bleu de Chanel, masculino, forte, meu preferido.
Bati na testa com os dedos tentando acordar a sanidade. Peguei uma taça de cristal esquecida no criado-mudo e bebi o resto da água, já morna. Passei a mão nos cabelos, respirei fundo e fui direto para o closet.
A porta de madeira maciça se abriu com um estalo suave, revelando o santuário da minha vaidade. Roupas perfeitamente organizadas por cor e tipo, sapatos alinhados, bolsas em suas prateleiras iluminadas por LEDs.
Escolhi um robe de cetim preto que deixava as pernas à mostra e o decote um pouco aberto mas mortal. Nos pés, salto alto escarlate. Uma maquiagem leve para esconder a ressaca. Um batom vermelho sangue.
Armei minha armadura.
E quando estava quase pronta, alguém bateu na porta.
— Senhorita Vic... seu pai está esperando na biblioteca. Ele disse que é importante.
— Claro que é... — murmurei com ironia, pegando meus óculos escuros e colocando no rosto como se eles pudessem esconder o caos que vivia dentro de mim.
Atravessei o corredor da ala leste da mansão, que cheirava a madeira polida e incenso de mirra. As paredes eram cobertas por quadros renascentistas e espelhos dourados. Tudo naquela casa gritava "poder"... e "prisão".
Desci as escadas de mármore branco e, ao virar o corredor, passei pelo jardim interno — uma área com colunas romanas e uma fonte que jorrava água como sangue espirrando.
Cheguei à porta da biblioteca, respirei fundo e entrei.
Aquele cômodo sempre me intimidava. As estantes de carvalho escuro iam do chão ao teto, carregadas de livros antigos, armas ornamentais, estatuetas de guerra e uma cabeça empalhada de leão. O lugar fedia a poder, a passado sujo.
Meu pai estava em pé, vestindo um terno cinza risca de giz. Cabelos grisalhos, olhos frios, mãos firmes segurando um charuto. Atrás dele, um homem alto, de costas, observava a lareira como se carregasse segredos nas chamas.
— Finalmente acordou, principessa — disse Luigi com um sorriso sarcástico.
— Se eu soubesse que tinha reunião hoje, teria tomado um Engov antes da terceira dose de tequila — retruquei, me jogando no sofá de couro com um estalo e cruzando as pernas.
Ele soltou uma risada grave.
— Isso não é uma reunião qualquer. É uma correção de erro.
— Que erro?
— Seu antigo segurança. Aquele i*****l que te deixou escapar e viajar sozinha pra Positano sem aviso.
— Já disse que fui atrás de ar fresco.
— Ar fresco o c*****o, Victoria. Você anda sendo observada. Isso é sério. A gente tem inimigos demais. Você é meu bem mais valioso.
Revirei os olhos, mas antes que eu retrucasse, ele apontou para o homem de costas.
— Conheça seu novo guarda-costas.
O sujeito se virou devagar.
E, por um segundo, eu esqueci como se respirava.
Alto. Muito alto.
Músculos perfeitamente distribuídos sob uma camisa preta de botão, com a gola levemente aberta, revelando parte do peitoral. Mandíbula marcada, barba por fazer. Olhos escuros. Intimidadores. Inteligentes. Frios.
Mas o que me arrepiou... foi o olhar.
Ele me encarava como se já soubesse exatamente quem eu era. Como se já tivesse me despido mil vezes. Como se estivesse analisando minha alma... para destruí-la.
— Benjamim Lancelloti, ao seu dispor — ele disse, com voz rouca e arrastada, carregada de sotaque estrangeiro.
— FBI? — perguntei, sarcástica, com a sobrancelha arqueada, sem nem pensar.
Ele sorriu de lado. Devagar. Como um animal prestes a atacar.
— Não exatamente. Mas se quiser, posso fazer uma revista completa.
Meu coração bateu tão forte que senti no fundo do estômago.
Merda.
Aquela era a minha perdição.
E eu nem sabia ainda.
Cruzei os braços, ainda sentada no sofá, e tentei disfarçar o desconforto que crescia como uma erva daninha sob minha pele. O olhar dele ainda queimava em mim, mesmo que agora estivesse quieto, quase indiferente.
Benjamim Lancelloti.
Até o nome dele soava como um aviso.
— Pai... — comecei, forçando a voz a sair firme — já deu de seguranças, não acha?
Ele arqueou a sobrancelha, encarando-me com aquela expressão de "não começa". Mas eu continuei:
— Eu tô cheia disso. Onde quer que eu vá, tem alguém me seguindo. Me observando. Me controlando. Isso aqui virou um manicômio de luxo. Chega.
— Não estamos discutindo isso, Victoria — ele rebateu, mais seco do que eu esperava.
— Eu só quero um pouco de privacidade. Um mínimo.
— Não existe privacidade pra filha de um homem que tem uma lista de inimigos do tamanho de um tratado de guerra — ele falou, a voz firme, os olhos afiando. — E agora que o i****a anterior permitiu que você saísse sozinha, vai ter alguém colado em você. Sempre.
Revirei os olhos, teatralmente, e me levantei, ajeitando o vestido no corpo com um puxão irritado.
— Quer dizer que ele vai ser... minha sombra? — desafiei, apontando com o queixo para Benjamim.
— Exatamente — Luigi confirmou, cruzando os braços com uma expressão de pedra. — Vai estar onde você estiver.
— Até no banheiro?
— Sim.
A resposta foi imediata. Direta. Crua.
Como uma sentença.
Abri um sorriso cínico, meio entre choque e sarcasmo.
— Vai me ajudar a limpar também?
— Se você pedir com jeitinho — Benjamim respondeu antes que meu pai pudesse dizer qualquer coisa.
A voz dele era baixa.
Quase preguiçosa.
Mas carregava um veneno... e uma provocação que atingiu direto o meio das minhas coxas.
Senti o sangue esquentar.
Me virei para encará-lo de verdade agora, de frente, num desafio silencioso.
Queria ver se ele sustentava aquele olhar na minha cara.
Queria deixá-lo desconfortável.
Mas foi eu quem fiquei.
Benjamim não recuou.
Nem piscou.
Ele apenas me olhou.
De cima a baixo.
Não como quem admira.
Mas como quem avalia.
Como quem já decidiu o que vai fazer com você... e só está escolhendo o momento.
Aquele olhar era um campo minado.
Tinha desejo.
Mas também controle.
Ele não estava e******o. Ele estava calculando.
E isso me deu calafrios.
Senti meus dedos tremerem levemente, escondidos sob os braços cruzados.
Mas mantive a pose. O salto. O batom vermelho.
— Eu não preciso de babá — disparei, tentando manter a voz firme.
— Ótimo — ele respondeu, o canto da boca curvando num quase-sorriso. — Porque eu não sou babá. Sou guarda-costas. E armas sabem se proteger sozinhas... mas joias preciosas, não.
Tive que piscar.
Duas vezes.
Filho da p**a.
Meu pai deu um meio sorriso satisfeito, achando que estava tudo resolvido. E talvez estivesse.
Mas não do jeito que ele imaginava.
Porque naquele instante, eu soube.
Benjamim Lancelloti não era só meu novo segurança.
Ele era o começo da minha perdição.
E talvez... o meu primeiro passo rumo a algo que nem o próprio inferno seria capaz de conter.