Benjamim Lancelloti
A luz do sol batia na janela do meu apartamento como uma provocação.
Eu odiava manhãs ensolaradas.
Elas mentiam.
Preferia os dias cinzentos. Os que lembravam guerra. Os que combinavam com as cicatrizes que eu carregava por dentro e por fora.
O apartamento era grande, moderno, mas escuro. Era meu bunker particular. Cortinas blackout. Paredes de concreto exposto. Estilo industrial, funcional, quase militar.
Nada que lembrasse lar.
Nada que pudesse me distrair.
Nada de quadros ou decoração inútil. Só o essencial.
Móveis pretos. Mesa de ferro. Uma prateleira com armas bem organizadas.
Um cinzeiro de vidro com restos de cigarros que eu prometi parar de fumar.
Na cozinha americana, o café ainda fervia na cafeteira.
Amargo. Forte. Sem açúcar.
Do jeito que eu gostava.
Estava de pé, sem camisa, usando apenas uma calça de moletom escura.
O corpo marcado por cicatrizes. Tiros. Facas. Ossos quebrados.
Cada marca uma história.
Cada história... uma missão que quase me matou.
Na frente da televisão desligada, sobre a mesa de vidro, estavam espalhados os arquivos da operação.
Fotos de Luigi Savoia, o chefão.
E dela.
Victoria. Vic. Ou como estava escrito no dossiê: "filha única de Luigi Savoia, o Don mais poderoso da máfia italiana."
Fiquei um tempo demais olhando para aquela foto.
Era recente. Tirada em Positano.
Ela de costas, usando um vestido curto e colado, taça de vinho na mão, cabelo ao vento.
Tinha algo na postura dela que me irritava profundamente.
Não era só vaidade. Era... desdém. Desprezo. A certeza de que o mundo girava ao redor dela.
Mimada. Inútil.
Ou pelo menos era o que eu queria acreditar.
Fechei a pasta e respirei fundo.
— Que p***a eu tô fazendo me metendo nisso?
Joguei a pasta na mochila, vesti uma camiseta preta e uma jaqueta de couro surrada.
Passei a mão no cabelo, amarrei as botas e peguei minha arma, escondendo-a no coldre sob o casaco.
Minutos depois, estava no elevador, descendo do 17º andar do prédio antigo e silencioso no centro de Milão. O corredor cheirava a cigarro e verniz velho. No térreo, cruzei com a porteira — uma senhora que nunca sorria — e fui direto pro carro.
Um Mustang preto, 1969.
Motor possante. Janelas escuras. Cheiro de couro e gasolina.
Meu único luxo.
Dirigi até o ponto de encontro.
Um prédio de escritórios discreto, fachada de vidro, sem nada que chamasse atenção.
Subi pelo elevador lateral e entrei numa sala sem janelas, com paredes à prova de som e uma mesa de aço no centro.
Ali estava ele.
O chefe.
— Lancelloti — disse ele sem levantar os olhos da tela. — Sentou o r**o em casa por 48 horas antes de vir reclamar. Recorde.
— Não tô aqui pra reclamar — rebati, cruzando os braços. — Tô aqui pra entender. Porque caralhos eu fui colocado nessa missão babysitter?
Ele finalmente levantou os olhos. Azuis. Frios. Analíticos.
— Porque você é o melhor.
— Não sou babá de patricinha. Eu trabalho em campo, infiltração, extração, interrogatório. Não fico protegendo filha de mafioso que dorme com o cartão de crédito na mão e acorda com o rímel borrado.
— E é exatamente por isso que colocamos você. Porque ninguém esperaria que você estivesse lá. Do lado dela. Dentro. Observando tudo.
— Você acha que essa garota vai me dar acesso a alguma coisa?
— Acho que ela é a chave. O ponto cego do Luigi. O único buraco nessa fortaleza de aço que ele construiu ao redor dele.
— E se você encostar nela do jeito errado, Lancelloti... — ele fez uma pausa — vai comprometer a missão inteira.
— Eu não encosto. A não ser que precise.
Ele me olhou por longos segundos.
— Você vai precisar. E vai ter que fingir que gosta.
Soltei um riso sarcástico, seco.
— Tá achando que eu sou ator agora?
— Você é o melhor infiltrado que esse departamento já teve. Agora seja convincente. Ou aquele velho vai continuar comandando metade das rotas ilegais da Europa por mais uma década.
Fechei a mandíbula.
— Tá bom. Mas se essa garota começar a chorar porque quebrou a unha ou não achou o salto certo pro vestido... eu dou um jeito de sumir com ela.
— Você só sai dessa missão se for com a cabeça do Luigi numa bandeja.
O silêncio que se seguiu foi sufocante.
Peguei meus documentos falsos e fui embora.
Três horas depois.
A mansão Savoia ficava nos arredores de Milão, no alto de uma colina cercada por portões eletrônicos, muros altos e homens armados com metralhadoras.
Do lado de fora, parecia uma vila renascentista. Por dentro... era um palácio.
A entrada era feita de colunas brancas e escadas de pedra. Uma fonte central jorrava água cristalina e brilhava sob o pôr do sol. O jardim era impecável. Rosas vermelhas, ciprestes altos, estátuas de mármore.
Estacionei o carro ao lado de uma Ferrari vermelha e um Rolls Royce preto. Desci devagar. Respirei fundo. E toquei a campainha de ferro antigo, moldado à mão.
Um dos capangas veio me receber. A cara fechada. A mão na cintura.
— Nome?
— Lancelloti. Já sou esperado.
Ele hesitou. Checou algo no ponto eletrônico e abriu caminho.
Caminhei pelo corredor principal da mansão, com chão de mármore branco e preto em padrão xadrez, lustres de cristal veneziano, tapetes persas e quadros gigantescos de antepassados de olhar severo.
Até que, lá no final do corredor...
Ouvi uma risada.
Baixa. Feminina.
E soube, antes mesmo de virar o corredor, que era ela.
Victoria Savoia.
Minha missão.
Minha armadilha.
Meu vício antecipado.
E talvez...
Meu fim.
(***)
Ela andava na frente.
Cada passo... uma declaração de guerra.
O som dos saltos dela ecoava pelo mármore como tiros abafados.
Clac. Clac. Clac.
Cada passo era uma afronta. Uma maldição de pernas longas, postura de princesa decadente e perfume forte demais para uma mulher.
Victoria Savoia não andava — ela desfilava como se o mundo existisse só pra observá-la.
E, p***a, como era difícil não observar.
Eu a seguia em silêncio, dois passos atrás.
Sem dizer nada.
O corredor era longo, iluminado por arandelas douradas, e as janelas davam vista para o jardim onde capangas treinavam tiros com silenciadores. Lá fora, sangue.
Aqui dentro... tentação.
Ela não me dirigiu nem um olhar desde que saímos da biblioteca. Estava nitidamente irritada. E eu gostava daquilo.
Mulheres mimadas irritadas são como dinamites acesas.
Você só precisa esperar o momento certo pra ver a explosão.
Vestia um robe de cetim preto que deixava as pernas à mostra e o decote aberto o suficiente para provocar até um monge em meditação.
O cabelo ainda meio bagunçado, preso num coque frouxo, e a maquiagem impecável — como se a raiva dela tivesse escolhido ficar bonita pra me provocar.
Chegamos à ala norte da mansão.
Mais reservada. Mais silenciosa.
Duas estátuas de anjos armados guardavam o início do corredor. Irônico.
Ela parou em frente à porta do quarto, com moldura de madeira escura entalhada à mão. Rosas. Caveiras. Simbolismo típico de quem vive entre o luxo e a morte.
Antes que eu dissesse qualquer coisa, ela se virou.
— Vai ficar colado em mim o tempo todo, é? Vai dormir na minha cama também, segurança?
O tom era ácido. Mas os olhos... estavam desafiando.
Senti o canto da minha boca ameaçar um sorriso. Mas me segurei.
— Só se você roncar. Aí preciso monitorar sua respiração. Pode indicar risco de saúde.
Ela riu. Um riso curto. Falso.
Abriu a porta com força e deu um passo pra dentro.
E foi aí que o inferno se abriu.
Um homem apareceu do nada.
Nu.
Porque, claro... era só isso que faltava: um macho exibindo o p*u logo cedo, na p***a do meu primeiro dia de missão.
Cenário do inferno ativado. Testosterona em excesso, tatuagem m*l feita, e aquela cara de quem acha que fode melhor do que pensa.
Parabéns, universo. Se a ideia era me irritar, conseguiu. Com louvor.
Faltou só o troféu de "o****o nu do dia".
Com o corpo ainda marcado de arranhões.
Cabelo bagunçado.
E antes que eu pudesse reagir... ele beijou ela.
Na minha frente.
A mão dele segurou a nuca dela com i********e. Os lábios se colaram aos dela com fome.
E ela...
retribuiu.
Lenta. Maldita.
Senti meus punhos se fecharem no ato.
O maxilar travou.
Puta. Que. Pariu.
A imagem era um gatilho.
Um raio de raiva atravessou o meu cérebro.
Não pelo beijo em si. Mas pelo que aquilo significava.
Ela sabia.
Ela fez de propósito.
Victoria, com aqueles olhos maquiados de preto e aquele sorriso de cobra, sabia que eu estava ali.
E ainda assim, deixou aquele babaca aparecer nu e colar a boca na dela como se fossem os reis do bordel.
Quando o beijo terminou, ela olhou pra mim.
Direto.
Sorrindo.
Um sorriso torto. Diabólico. Venenoso.
— Relaxa, segurança. Esse aqui é só o Enzo. Meu passatempo favorito. Você vai ter que se acostumar.
O tal Enzo olhou pra mim e sorriu também. O típico sorriso de macho que acha que ganhou um troféu.
Eu queria quebrar todos os dentes dele.
— Sua segurança vai ficar no pé o tempo todo, é? — ele perguntou pra ela, puxando-a pela cintura como se fosse um brinquedo.
— É o que meu pai quer — ela respondeu, sem tirar os olhos de mim. — Mas eu faço o que eu quiser. Sempre fiz.
Eu continuei parado. Imóvel.
Por fora: uma estátua.
Por dentro: um vulcão prestes a explodir.
Sem dizer uma palavra, dei um passo pra trás e fechei a porta na cara deles.
Calma. Contida. Cirúrgica.
E andei pelo corredor com os punhos latejando, os dentes cerrados e a certeza de que...
Ela começou.
Mas quem vai terminar esse jogo... sou eu.