Victoria Savoia
Não era o tipo de silêncio que traz paz.
Era o tipo que pesa no peito. Que ecoa nos ossos.
Silêncio de campo de guerra depois do bombardeio.
Eu estava deitada de lado, nua, suada, marcada.
O corpo inteiro vibrava no pós-caos do segundo round, como se os músculos tivessem sido esculpidos com dor e g**o.
Os lençóis estavam amarrotados, ainda úmidos em alguns pontos — e manchados com uma gota escura de sangue seca perto da minha coxa. Talvez de um arranhão. Ou de alguma marca de mordida. Ou só mais uma prova da brutalidade deliciosa que foi ele me fodendo até quebrar a minha alma.
O lençol grudava na minha pele como se ainda quisesse arrancar mais um gemido. Minhas coxas tremiam. Meu ventre ardia. Como se o corpo soubesse que ele esteve ali. E estivesse implorando pra ele voltar.
Benjamim estava atrás de mim.
O braço pesado, possessivo, me enlaçava como um aviso silencioso: "você não sai daqui".
A respiração dele batia contra a minha nuca, quente, constante... e mesmo assim, eu me sentia congelada por dentro.
Porque o que me perturbava não era o calor.
Era o silêncio.
O silêncio dele.
Silêncio que pesava. Que ecoava nos ossos.
O tic-tac distante de um relógio preenchia o quarto como uma sentença.
Lá fora, um carro passou devagar, o som abafado se perdendo na madrugada.
E em algum lugar da casa, o encanamento rangeu — como se o universo também prendesse a respiração.
Benjamim sempre tinha uma resposta suja na ponta da língua, uma provocação que me fazia perder o fôlego.
Mas agora... ele estava calado. Imóvel.
Era como se ele estivesse... longe. Longe de mim. Longe de tudo.
Me virei devagar, como se estivesse tentando não quebrar um feitiço perigoso.
E lá estava ele.
De olhos abertos. Mas com a alma a quilômetros de distância.
A mandíbula trincada. O maxilar tenso.
Aquele rosto esculpido por algum deus que claramente me odiava... estava perdido.
Fiquei observando em silêncio, o coração apertado sem saber por quê.
Até que ele percebeu.
Seus olhos vieram pros meus.
E foi aí que eu vi.
Não era luxúria.
Não era raiva.
Era medo.
Um medo cru, feroz, escondido sob camadas de arrogância, dominação e desejo.
— O que foi? — perguntei, num sussurro quase infantil, tocando de leve seu rosto marcado.
Ele fechou os olhos. Respirou fundo.
E quando respondeu, a voz saiu baixa... arrastada.
— Você tá ficando perigosa, Vic.
Arqueei uma sobrancelha, confusa.
Meu peito apertou. Não era uma acusação. Era uma confissão disfarçada de aviso.
A palavra grudou no ar. Me atravessou sem pedir licença.
Perigosa?
Eu?
— Perigosa... como?
Ele abriu os olhos devagar.
E naquele instante...
— "Era como ver uma rachadura se abrir numa estátua de mármore. Lenta. Iminente. E eu estava prestes a ver o que sangrava por dentro.
O homem de aço estava prestes a desmoronar.
— Porque você tá me fazendo esquecer por que c*****o eu vim pra essa merda.
Silêncio.
Não entrei em pânico.
Mas senti o peso daquelas palavras como um soco no estômago.
Ele se afastou.
Sentou-se na beira da cama, curvado, as mãos no rosto.
Era estranho ver Benjamim assim.
Humano. Quebrado. Perdido.
Me sentei também, puxando o lençol até a cintura, embora meu corpo inteiro ainda ardesse de marcas que ele deixou em mim.
Aproximei minha mão devagar, tocando as costas dele com suavidade.
— Você não precisa fugir disso... — sussurrei.
Ele soltou um riso curto. Sem humor. Sem luz.
— Fugir? Eu sou o d***o, Vic. Eu não fujo.
Eu destruo. Inclusive você.
— E se for você quem acabar destruído? — devolvi, sem pensar.
Ele se virou. Me olhou.
E eu vi de novo.
Dor.
Não de agora.
Uma dor antiga. Que dormia dentro dele e acordou quando eu cheguei.
— Então você vai ser a única que conseguiu.
E antes que eu conseguisse dizer qualquer coisa, ele se levantou.
Nu.
A pele marcada por arranhões meus.
A b***a firme. As costas largas.
O cheiro do sexo ainda nele.
Ele caminhou até o banheiro.
A porta se fechou com um clique seco.
E eu fiquei ali.
Sozinha.
No meio da cama dele.
Fodida. Nua. Confusa.
Com uma única pergunta latejando na minha cabeça:
Quem diabos é Benjamim Lancellotti por trás do disfarce do meu segurança e capacho do meu pai?
E por que eu sinto que ele tá preso em algo que nem ele sabe como escapar?
E o que ele tá escondendo de mim?
Porque por um segundo...
Só um segundo...
Ele não parecia meu segurança.
Nem meu amante...
Ele parecia meu refém.
Mas e se no fim...
...somos os dois prisioneiros do mesmo inferno?
***
A porta do banheiro se abriu com um rangido lento, quase preguiçoso.
Eu não precisei me virar.
Eu sabia.
Era ele.
Benjamim.
Nu.
A toalha branca passeava devagar pelo corpo dele, como se tivesse inveja dos meus dedos.
Gotas d'água ainda escorriam pelas clavículas, desciam pelo peito largo, cruzavam o abdômen esculpido... e sumiam no caminho da perdição. Aquele maldito "V" que já me arrastou pro inferno mais de uma vez.
A luz baixa do abajur desenhava cada músculo dele como se o universo estivesse querendo me punir por ter visto demais.
Mas eu não podia ceder.
Não agora.
Me levantei devagar.
Peguei a calcinha — a mesma rasgada de horas atrás — e vesti como quem tenta esconder um crime. O tecido ainda úmido e frio grudou na pele.
O baby doll, ou o que sobrou dele, estava largado perto da cama como uma testemunha muda da brutalidade consensual da nossa noite.
Vesti também.
Meus pés descalços encontraram o chão frio enquanto eu caminhava até a cadeira onde estavam meus saltos.
Abaixei devagar. Respirei fundo.
Eu precisava sair.
Precisava fugir antes que ele dissesse algo que me amarrasse de novo.
— Fica. — a voz dele cortou o ar.
Baixa. Rouca.
Mas ainda assim, um comando.
Parei.
Devagar, me virei.
Benjamim estava parado no meio do quarto.
Nu.
Cru.
A toalha pendurada na mão como se fosse só um acessório dispensável.
E talvez fosse.
Porque ele não conhecia vergonha.
Só poder.
— Dorme comigo, Vic. — ele repetiu, mais suave agora.
E o mundo silenciou.
A cidade lá fora? Sumiu.
Só o tambor surdo do meu coração batendo no peito como se algo tivesse acabado de ser decidido por mim.
Eu queria dizer não.
Juro que queria.
Mas meu corpo... traiu minha boca.
Assenti.
Só com a cabeça.
Ele soltou a toalha, como quem descarta qualquer tipo de resistência, e caminhou até mim.
Me puxou com um braço só.
Firme. Possessivo.
E segundos depois, eu estava de novo entre os lençóis dele.
Mas dessa vez...
Era diferente.
Eu não estava de quatro.
Nem implorando com os olhos.
Eu estava aninhada no peito dele.
Como se aquele lugar fosse feito sob medida pra mim.
A mão dele traçava linhas lentas nas minhas costas, distraída... mas íntima.
Como se ele estivesse memorizando o meu corpo com os dedos.
Como se soubesse que não poderia tocá-lo por muito tempo.
— O pesadelo de antes... — ele disse de repente, com a voz abafada contra meu cabelo. — Era comum?
Fechei os olhos por um segundo.
O gosto da lembrança era amargo.
— Às vezes, sim. — murmurei. — Mas só voltou agora... por causa daquele homem.
Silêncio.
Benjamim apenas apertou o braço ao meu redor.
Como se dissesse: continua.
— Quando eu tinha dezoito, fui sequestrada. Um inimigo do meu pai. Queria vingança, dinheiro, claro... Pensei que ia morrer. Que nunca mais veria ninguém... — minha voz falhou por um segundo...e às vezes ainda sinto o cheiro da corda no meu pulso. Um cheiro de poeira velha e medo, o gosto metálico da mordaça ainda me volta na boca. Sempre acordo suando no meio da noite... e lembro do frio do chão áspero nas minhas costas, e de como minhas pernas tremiam mesmo sem querer... o som da tranca fechando a porta ficou preso dentro de mim mais do que qualquer ferida. — Mas antes que o pior acontecesse, meu pai me encontrou. Salvou minha vida.
Benjamim ficou imóvel.
Mas o peito dele ficou rígido sob minha bochecha.
— E desde então... é isso. Cercada. Vigiada. Enclausurada. Os seguranças, as regras, a prisão de luxo. Eu odeio. — respiro fundo. — Mas entendo. Meu pai tem medo de que tudo se repita. De novo.
Ele não disse nada.
Mas me abraçou mais. Forte. Quente.
A mão dele parou de traçar rotas e ficou ali. Parada. Como se segurasse uma parte minha que estivesse prestes a escapar.
E então, ele virou o rosto, tocou os lábios nos meus. Um beijo que era mais que um beijo. Era promessa muda. Era raiva. Era proteção. Era... tudo o que eu nunca achei que teria dele.
Sorri, ainda com os olhos fechados, e provoquei:
— Não sabia que você era gentil.
— Eu não sou. — ele devolveu, seco, sem hesitar.
— Jura? Porque agora parece. — sussurrei de volta, com um sorrisinho desgraçado.
Ele encostou a testa na minha.
Os olhos escuros, intensos.
— Talvez... por você... eu possa ser.
Arregalei os olhos. O encarei, surpresa.
— Isso é uma tentativa de contrato exclusivo?
— Não sei. — ele respondeu, arrastando os dedos pela lateral da minha coxa. — Vai depender se a cliente quer... correr o risco.
E naquele momento, eu soube.
Eu já estava correndo.
Sem escudo. Sem estratégia. Sem rota de fuga.
Na cama dele.
Na vida dele.
No jogo dele.
E pela primeira vez...
Eu não queria escapar.