01 O DONO DA DIVIDA
MORTE NARRANDO
O sol do Rio de Janeiro não tem pena de ninguém, mas aqui no topo do Alemão, ele parece queimar com um gosto diferente. O cheiro de asfalto quente e óleo diesel é o meu oxigênio. Olho para o meu morro fervendo lá embaixo e eu verifico o carregador do meu fuzil por puro hábito. O metal está quente, mas a minha mente está fria. Sempre fria.
Hoje o dia não é de operação, nem de invasão. Hoje é dia de cobrança. Uma dívida de vinte anos que finalmente venceu. E eu não queria nunca que esse dia chegasse.
Meu vulgo é morte e tenho 30 anos. Sou herdeiro do complexo do alemão e comando vermelho. Sou branco, tenho os cabelos loiros. Olhos azuis. Um metro e noventa e quatro de altura e tenho pelo menos oitenta por cento do meu corpo tatuado.
Sou filho único. Herdeiro único, o que causa inveja em muitos e uma bajulação enorme em outros. Meu pai ainda vivo é um homem da p***a. Mas exigente pra c*****o. Mandão para a p***a e quando ele fala A não adianta falar B e nem o alfabeto que não vai fazer ele mudar de ideia.
Minha mãe morreu no parto. Meu pai me assumiu sozinho e fez um bom trabalho. Sou r**m para a p***a. c***l pra c*****o. Mas tenho caráter, tenho índole e não sou um bosta de homem. Não com quem não merece pelo menos.
Aqui no morro eu sou o sub, não sou o dono ainda porque pelas regras do comando e da família. Para assumir o comando do morro e uma posição na facção o homem tem que ser casado. E o meu dia chegou. Não é com quem quero e nem com a minha vontade. Mas o que vale aqui e agora não é a minha vontade e sim o meu dever.
MONSTRO— O comboio está pronto, Morte. Só dar o sinal_ monstro, meu braço direito e meu primo, encosta na picape blindada com aquele sorrisinho de quem gosta de ver o circo pegar fogo.
MORTE— Vamos logo com isso. Tenho mais o que fazer do que buscar noiva _ respondo, minha voz saindo como um rosnado.
Entro no carro e o comboio começa a descer as vielas. O povo abre caminho. Eles sabem quem manda. Eles sentem o peso do meu nome. "Morte". Um vulgo que conquistei empilhando corpos e enterrando qualquer rastro de fraqueza que um dia existiu em mim. Matei a primeira vez com dez anos e não me arrependo. Aprende desde cedo que antes do meu pai chorar, eu faço o pai de outro chorar primeiro... claro que meu pai não ia chorar. Mas ainda sim vale o ditado.
Meu pai, o velho, está lá em cima, esperando. Ele só me entrega a coroa definitiva do Complexo quando eu colocar uma aliança no dedo dessa garota. Regras de família. Regras de sangue.
Eu já amei uma vez. E aquela desgraçada me entregou para os inimigos em troca de uma mala de dinheiro e uma passagem para fora daqui. A cicatriz que carrego no peito e que quase me levou a morte é o lembrete diário... mulher é distração. Mulher é o caminho mais curto para a cova.
Depois de descer até a beira do morro. Nas casas que já fica na pista, mas que fazem parte do meu império. Paramos o carro em frente a uma casa de tijolo aparente, uma das mais simples da Baixada. O desgraçado que mora aqui é um verme. Um viciado que vendeu a própria filha para não levar um tiro na testa. Eu desprezo caras como ele. Mas um acordo é um acordo. Ainda mais quando ele é feito pelo velho, dono da p***a toda.
Desço do carro. O silêncio na rua é absoluto. Mesmo a casa sendo na pista. Aqui poucos carros passam por saber que a entrada do morro é carrega de homens armados até os dentes. O silencio é quase palpável. até os cachorros param de latir quando eu passo.
Entro na casa sem pedir licença. Meus homens fazem o perímetro. O lugar fede a medo, mas a casa é limpa e organizada por dentro. Vejo o sujeito no sofá, tremendo como uma folha. Nem olho na cara dele. Meus olhos travam na moça que sai do corredor.
Nicole. Ou Nick, como ouvi dizerem por aí. Ela não é o que eu esperava. Eu esperava uma menina assustada, chorando, implorando pela vida. Mas o que vejo é um par de olhos castanhos que parecem querer me incendiar. Mesmo sabendo que ela sempre foi minha. Eu nunca quis a ver e nem a conhecer pessoalmente. Eu sabia que esse dia ia chegar. E tive ainda mais certeza, que ele ia chegar depois de eu ser traído por aquela vagabunda.
Nicole é uma mulher linda e gostoso pra c*****o. Não como pensei. Uma menina sem sal e sem nada de atrativos. Ela está em um vestido justo que marca cada curva do seu corpo perfeito. mas é o queixo erguido que me chama a atenção. Ela tem um fogo que não combina com essa casa de derrota.
MORTE— Então é você_ digo, medindo-a de cima a baixo. Minha voz ecoa na sala pequena, fazendo o pai dela se encolher ainda mais.
NICOLE— Eu tenho nome _ ela rebate. Sinto um canto da minha boca querer subir. Atrevida. Gosto de quebrar coisas atrevidas. Dou um passo à frente, invadindo o espaço dela, sentindo o cheiro de sabonete barato e algo que é só dela e que é bom. Muito bom. Ela não recua. Nem um milímetro.
MORTE— No meu morro, você só tem o que eu te dou. E hoje, eu estou te dando o título de minha mulher. Não por amor, garota. Mas porque eu honro os acordos que meu pai fez. _ Estendo a mão. É um teste. Quero ver se ela vai tremer.
NICOLE— Se eu for com você... a dívida do meu pai acaba? _ela pergunta. Solto uma risada seca. O pai dela não vale o que come, mas a coragem dela vale alguma coisa.
MORTE— A dívida dele é eterna. Mas a sua vida agora é minha. Se ele respirar errado, eu o mato. Se você tentar fugir, eu te busco no inferno. Entendeu as regras? _ Ela olha para os pais com um desprezo que eu reconheço bem. Então, ela coloca a mão na minha. A mão dela é pequena, macia, mas a pegada é firme. Eu a puxo para perto, rápido demais, próximo demais. Íntimo demais só para ver se o coração dela dispara. Está acelerado, mas os olhos continuam fixos nos meus.
NICOLE— Vamos logo com isso. _ ela diz.
MORTE— Você tem fogo, Nick. Vou gostar de ver esse fogo se apagar quando perceber que aqui e lá em cima, só existe uma lei...a minha. _ olho para o verme no sofá. Ao lado de uma mulher que claramente é submissa a ele. - Se andar fora da linha. Eu volto e vai ser para a busca a sua vida. _ eu falo e me viro de costa colando Nicole na minha frente conduzindo ela para fora da casa.
Levo ela para o carro. Nicole entre em silencio e assim permanece. O caminho de volta é silencioso. Ela fica olhando pela janela, vendo o império que agora, tecnicamente, ela vai ajudar a governar. Ela não pergunta nada. Não questiona nada. É como se ela já tivesse aceitado o seu destino, sem porquês e sem mais.
NICOLE— como vai ser isso? _ pergunta por fim, quase chegando ao pico do morro. —Vou ser um troféu, ou uma mulher em todos os sentidos? _ eu a olho.
MORTE— não vou fazer nada que não queria. Mas tu é minha. Em todos os sentidos. _ ela concorda. — Não espere amor de mim. _ ela me olha como se fosse obvio. — Amor é uma doença que te faz baixar a guarda_ falo, sentindo o peso da pistola no meu coldre. — Eu fui curado faz tempo. E se você for espertar, vai aprender a matar o que sente antes que o sentimento te mate.
Chegamos na mansão, no pico do morro. Os portões se abrem. Meus soldados olham com atenção, mas quando vê mulher no carro desviam os olhos. Todos sabem que essa é a mulher do chefe. Saio do veículo e só faço sinal para o monstro que entende. Olho pra Nicole e faço sinal para ela me seguir. sinto o olhar dela queimando as minhas costas. E eu só consigo pensar em um coisa...
Amanhã, o Alemão vai ter uma festa. O herdeiro vai casar. O povo vai beber e comemorar, achando que é um conto de fadas do crime. m*l sabem eles que estou trazendo uma prisioneira para dentro do meu castelo de armas.
Entro dentro da minha casa e vou em direção as escadas. Escuto os passos da Nicole atras de mim..., mas, enquanto subo as escadas, eu penso... quem é que está realmente em perigo? Ela, nas minhas mãos, ou a minha frieza, diante desse fogo que ela carrega nos olhos?
Balanço a cabeça. Já cortando esse pensamento de merda. Ela é só um pagamento. E eu sou o Morte. E a morte não se apaixona, não mais....
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