02 O PESO DA MORTE

1626 Words
NICOLE NARRANDO Dizem que o trauma tem um cheiro específico. Para algumas pessoas, é o cheiro de hospital, para outras, o cheiro de fumaça. Para mim ‘Nicole’, o cheiro da minha vida acabando tinha o odor de aguardente barata, suor de medo e o perfume adocicado do fumo de rolo que meu pai consumia enquanto destruía o nosso teto. Eu tinha doze anos. Até aquela idade, eu era apenas uma menina do morro. Eu sabia que a gente era pobre, sabia que o jantar às vezes era apenas pão com café, e sabia que meu pai, Seu Jorge, era um homem quebrado por vícios que ele nunca teve força para combater. Mas eu ainda tinha sonhos. Eu queria estudar, queria ser enfermeira, queria sair do morro e nunca mais olhar para trás. Só que em uma noite de terça-feira, uma daquelas noites em que o Alemão parecia estar em silêncio absoluto, um silêncio que parece indicar coisa r**m. Eu estava na cozinha, tentando ignorar a discussão que subia de tom na sala. LEMBRANÇAS ON CIDA— Você fez o quê, Jorge? _O grito da minha mãe, Cida, não foi de raiva. Foi um grito de morte. Um som que saiu do fundo da alma dela e ricocheteou nas paredes de tijolo sem reboco, batendo no meu peito em cheio. Eu não sabia o que era. Mas eu sabia que era comigo. Eu me encolhi atrás da porta, o coração batendo como uma escola de samba desgovernada. JORGE— Era o único jeito, Cida! Eles iam me picar em pedaços na frente da casa! _ Meu pai soluçava. Era um choro patético, de um homem que desistiu de ser homem. — Eu perdi tudo na mesa. O dinheiro que peguei com o pessoal do Complexo... eu achei que ia recuperar... CIDA— Você pegou dinheiro com o dono do morro? _Minha mãe perguntou, a voz agora um sussurro de puro terror. — Jorge, ninguém deve ao dono do morro e vive para contar. JORGE— Eu não devo mais _ele disse, e o tom de alívio na voz dele me deu um calafrio que sinto até hoje, anos depois. — Eu fiz um acordo. O Velho... ele aceitou uma garantia. _ velho é o vulgo do dono do morro. Eu saí da sombra da porta. Não consegui evitar. Meus pés me levaram para o meio da sala. Meus pais pararam de falar no instante em que me viram. Minha mãe estava pálida, as mãos agarradas ao avental. Meu pai estava sentado no banquinho, com um hematoma no olho e o lábio cortado. NICOLE— Que garantia, pai? _ eu perguntei. Minha voz era pequena, infantil. Ele não conseguiu me olhar nos olhos. Nunca mais conseguiria, de verdade. JORGE— Você lembra do que eu te falei quando você nasceu, Nick? _ele começou, a voz trêmula. — Que você era o meu tesouro? Que você ia salvar essa família? CIDA— Jorge, não... _ minha mãe chorou, caindo de joelhos no chão. — Ela é uma criança. Ela é só uma menina! JORGE— É o acordo! _ ele gritou, explodindo em uma raiva defensiva. — O Velho quer o herdeiro dele no comando, mas quer que o rapaz tenha uma linhagem aqui de dentro, alguém que o povo respeite as raízes. Ele viu a Nicole na rua mês passado. Perguntou de quem era a "menina bonita". Eu só... eu só confirmei a promessa que fiz anos atrás, quando ela ainda estava na sua barriga e eu já devia aos caras. _ Minha respiração falhou. O mundo ao meu redor começou a girar, as paredes da sala pareciam se fechar sobre mim. Eu quase não subia o morro. Só para ir à escola e descer. Mas eu sei que dia foi esse. O dia que minha amiga Andressa insistiu para que eu fosse tomar assai com ela. NICOLE— O que você está dizendo? — perguntei, sentindo as lágrimas queimarem meus olhos. JORGE— Você está prometida, Nicole. Ao filho do dono. Ao Morte_ ele cuspiu o nome como se aquilo limpasse o pecado dele. — Quando você tiver idade, quando ele precisar assumir o morro, você vai ser a mulher dele. Em troca, minha dívida está limpa. Ninguém toca na nossa família. A gente vai ter proteção. _ Naquele momento, eu não chorei. O choro é para quando você perde um brinquedo ou rala o joelho. O que eu senti foi o peso de uma laje de concreto sendo colocada sobre o meu peito. Aos doze anos, eu descobri que não era uma pessoa. Eu era uma moeda. Uma nota de cem reais que meu pai tinha usado para pagar uma rodada de jogo e uma dívida de droga. NICOLE— Eu não quero! _ gritei, finalmente recuperando o fôlego. — Eu não vou! Eu vou fugir! Eu vou para a polícia! _ O tapa do meu pai veio rápido. Foi a primeira e única vez que ele me bateu. Mas o golpe físico não doeu nada perto do que ele disse em seguida... JORGE— Você não vai a lugar nenhum. Se você fugir, eles matam a mim e a sua mãe. Você quer o sangue da sua mãe nas suas mãos, Nicole? É isso? _ Eu olhei para a minha mãe. Ela estava no chão, destruída, sem forças para me defender. Ela sabia que, no Complexo, a palavra do dono é a única lei que não permite apelação. Se eu não cumprisse o destino, a minha casa se tornaria um necrotério. LEMBRANÇAS OFF A partir daquele dia, minha vida "mala" começou. Eu digo mala porque eu vivia pronta para partir, mas sem ter para onde ir. Cada vez que eu saía para a escola, sentia os olhos dos "radinhos" em mim. Eles não me olhavam como olhavam para as outras meninas. Eles me olhavam com respeito e medo, como se eu fosse um objeto sagrado que pertencia a um deus c***l. Eu via o Morte passar de moto. Ele já era dez anos mais velho que eu e continua sendo logicamente. já tinha a fama de sanguinário. Eu o via de longe, com o fuzil atravessado no peito, o rosto fechado. Muitas mulheres em volta em uma máscara de ódio. E eu pensava... Aquele homem é o meu fim. Aquele homem é o dono do meu corpo, do meu tempo de tudo em mim. Quando eu vi ele com uma fiel. Eu tive uma ponta de esperança de que eu iria me livrar dele. Mas quando eu soube que a mulher não era nascida aqui no morro e do nada ela sumiu. Eu vi que a minha esperança era coisa de menina boba que fantasiava uma vida melhor, mas que nunca teria. Tentei odiar o morte antes de conhecê-lo. Tentei me tornar feia, tentei me esconder, mas o tempo passava e eu só florescia, para o meu próprio desespero. Cada curva que meu corpo ganhava era um prego a mais no meu caixão. Hoje oito anos depois de eu descobrir tudo. Eu já tenho vinte anos. Tenho a pele morena, cabelos castanhos lisos, ondulados até a altura da b***a. Meu olhos são castanhos. Não sou muito alta. Um e setenta e cinco de altura. Mas tenho o corpo bem definido e cheio de curvas como eu disse. Minhas amigas falavam de garotos, de beijos no baile, de primeiros amores. Eu ficava calada. O meu primeiro e único homem já tinha sido escolhido por um contrato assinado com sangue e miséria. As pessoas dizem que a vida começa aos dezoito. Para mim, os dezoito foram a contagem regressiva para a execução. Eu passei seis anos olhando para o topo do morro, para aquela mansão imensa que vigia o Alemão, sabendo que um dia eu entraria por aqueles portões e nunca mais sairia a mesma. Eu morri naquela noite, aos doze anos. A Nicole que queria ser enfermeira, a Nick que gostava de ler romances à luz de velas quando a luz acabava... aquela menina foi assassinada pela ganância de um pai covarde. Hoje, eu acordei já sabendo que o dia chegou. Eu fui avisada ontem que eu devia estar pronta as nove da manhã. Então eu acordei, me arrumei e sentei na cadeira da cozinha, encarando a xicara de café fraco que era até difícil de tomar. quando o Morte entrou na minha sala de dentro da cozinha eu senti o frio e o medo me dominar. Mas eu não ia baixar a guarda. Eu não ia ser submissa a ela como minha mãe sempre foi. Caminhei até a sala e quando o vi, eu mirei em seus olhos azuis. Não dá para negar que ele é lindo. Mas o que tem de lindo, tem de c***l. Morte me desafiou e eu segurei o deságio. Ele segurou a minha mão, eu não senti medo do monstro que ele é. Eu senti o peso final daquela laje que tinha caído sobre mim aos doze anos. Agora contrato estava sendo cumprido. A mercadoria estava sendo entregue. E a única coisa que eu pude fazer foi o seguir. Enquanto o carro subia o morro, eu não olhava para o luxo dos bancos de couro. Eu olhava para as minhas mãos e pensava... Minha vida acabou antes de começar. Mas se eu vou viver no inferno, é bom que o d***o esteja preparado. Porque eu não sou mais aquela menina de doze anos que aceitou a sentença chorando. Se eu fui vendida para o Morte, então ele vai ter que aprender que a morte também pode ser uma companhia muito perigosa para quem acha que pode ser o dono de uma alma. É FOGO NO PARQUINHO QUE QUEREM? VÃO TER. COMENTEM E VOTEM MUITO O LANÇAMENTO É EM BREVE.
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