Bato o dedo no interruptor assim que entramos. Vazio, com cheiro de lodo e completamente abandonado. As paredes fechadas, sem janelas. Lembro-me perfeitamente do dia do qual decidi ter esse galpão; Foi semanas depois que a Rafaela disse estar grávida, eu me preparei tanto para qualquer tipo de ameaça e esqueci de observar o que estava abaixo o meu nariz.
- Aconchegante.- Kaue ironiza olhando envolta.
- Onde colocamos ele? - Um dos homens que veio conosco pergunta, viro e vejo ele ajudando o outro a carregar o corpo. Tenho repulsa em olhar o rosto ensanguentado, ultimamente eu tenho repulsa de todos daquela mansão.
- Pode jogar em qualquer lugar. - Respondo e eles colocam o homem no meio do galpão, abaixo da luz fraca que pouco iluminava ali.
Caminho até ele, deitado e inconsciente, rosto completamente machucado e sangrento. Chuto o seu estômago para desperta-lo, porém ele não reage. Chuto novamente e sua tosse seca sai com respingos de sangue e ele acorda assustado.
- Meu Deus! - Choraminga. - Onde estamos? O que está fazendo, Felipe?
- Cadê o Tales? - Pergunto calmamente e seus olhos enchem de lágrimas.
- Já falei, eu não sei, sumiu com a filha dele há semanas. É tudo o que e... - Antes que ele terminasse chuto novamente o seu estômago, por alguns segundos ele perde o fôlego.
- Onde está o Tales? - Repito e ele chora desesperadamente.
- Pelo amor de Deus, tenha misericórdia, eu não sei Felipe, juro por Deus. Não faço ideia!! Se soubesse já teria falado, olha só o meu estado!!! - Exclamou assustado, se contorcendo enquanto os braços e pernas estavam presos.
- Joel, vamos lá, amigão. Nós nos conhecemos há quantos anos? Cinco? - Dou um sorriso m*****o e abaixo o encarando.
- Tempo o suficiente para não te irritar, Felipe. Acredite em mim, não faço ideia de onde ele está. Ele afastou de todos nos últimos meses e...- Ficou pensativo, meus olhos estreitaram e os seus arregalaram surpresos. - Ele comentou de um primo - lembrou esperançoso - Acho que era no interior de Minas.
- Ahhh, não. - Finjo desanimo - Sem achismos, vamos lá, você consegue melhor do que isso! Olhe quanto já evoluímos.
- Ok ok. - Fecha os olhos esforçando-se para lembrar, sussurra algumas cidades, xinga outras, depois de alguns segundos abre os olhos. - Patrocínio Paulista! - Fala em um tom alto. - Isso mesmo! Patrocínio Paulista.
- Viu!? - Dou um meio sorriso e ele sorri de volta.
- Posso ir agora?
- Ir? - Entrelaço as mãos pensativo. - Não prefere descansar primeiro? - Seus olhos cintilam medo enquanto eu abro um sorriso largo pra ele. Kaue para ao meu lado e entrega a minha arma.
- Não. Por favor! - Implora chorando.
- Sabe, Joel, nesses últimos dias eu aprendi que não podemos deixar pontas soltas.
- Eu não sou uma, posso sair do País, faço o que você pedir. Felipe, eu tenho família! - Súplica em prantos. Meu sangue sobe, toda a raiva que eu sentia se intensifica de uma forma assustadora.
- Doces sonhos, Joel. - Aponto a arma na sua cabeça e disparo sem delongas, respingos do seu sangue voam até o meu rosto e os olhos abertos estão sem vida.
Eu também tinha família.
- O que acha? - Levanto a cabeça para o Kaue que encarava o cadáver. - Acho que ele falou sério, e você? - Dou um sorriso e todos me encaram assustados.
- Acredito que sim. - Responde baixo.
- Então tá. - Levanto. - Os três tirem ele daqui, cortam e mandem pedaços para a família. Um por semana.
- Felipe, por quê? - Kaue questiona confuso. Suspira e pede para os outro três saírem. Quando eles saem, volta a me encarar - Ele não fez nada, nitidamente não sabia o que houve. Não faz ideia do porque foi espancado e morto.
- Ele eram próximos, Kaue. Viviam juntos, Cassandra o chamava de tio. Realmente acredita que esse homem iria ser espancado e só ao chegar à beira da morte lembraria do tal primo!? O que foi? Bati forte na cabeça dele e o tico e o teco voltou a funcionar? - Espero uma resposta mas ele permanece quieto. - Mataram uma....- Respiro, não iria mais fraquejar ao falar deles. - Mataram uma criança de três anos. Eles não são os mocinhos.- Passo por ele e vou até os homens lá fora. - A ordem é a mesma, vou mandar um carro pra vocês. - Aviso e eles vão voltando para o galpão.
- Você vem? - Pergunto ao meu amigo, que caminhava lentamente para o carro.
- Lógico. - Responde. - Vamos achar esses desgraçados, eu juro. - Promete e eu aceno com a cabeça concordando.
HÁ DOIS MESES ATRÁS
- Enrico! - Chamo assim que cruzo a porta, segurando um urso de quarenta centímetros na mão.
- Papai chegou filho! - Ouço Rafaela avisa-lo da cozinha.
- Papá! - Sua voz é música para os meus ouvidos, ele aparece na porta e abre os braços para me abraçar.
Incrível como a cor do seu cabelo era exatamente a cor do meu.
- Ah, garotão. - Levanto ele no meu colo, dando um abraço apertado e sentindo o cheiro de casa. - Olá, amiguinho. - Afino a voz e balanço o coelho na frente dele. Os olhos iguais o da mãe brilham contente. - Quer brincar comigo?
- Sim! - Responde empolgado para o coelho.
- Como vou me chamar? - Continuo interpretando o coelho quando a Rafaela para no batente nos observando enquanto sorri.
- Como... - Pensa por alguns segundos.
- Que tal Pernalonga? - Sugiro e nós dois fazemos uma careta.
- Já existe. - Falamos ao mesmo tempo e eu dou risada, beijo o alto da cabeça do meu filho enquanto ele procura por um nome.
- Já sei! - Fala empolgado. - Coelho! - Dou uma risada alta com a sugestão dele.
- Pode ser o que você quiser, querido.- Rafaela se aproxima a acaricia as costas dele. - Senhor coelho, bem-vindo a família.
- Obrigada, mamãe. - Imito o coelho novamente, porque o Enrico acha graça. - Já deu um beijo no papai hoje?
- Ah! Como eu pude esquecer? - Finge preocupação e Enrico da risadinhas. - Olá, papai. - Fala e beija os meus lábios.
- Vou mostrar para a tia Kim! - Segura o coelho empolgado e eu o coloco no chão, seus passos são rápidos para a escada.
- Cuidado, filho. - Minha mulher alerta e volta a me olhar. - Coelho, hum!?
- Não gostou? Achei ele simpático. - Dou os ombros e ela sorri.