Helena:
Destranco o automóvel, então ele vai à frente e abre a porta para mim. Entro, ao agradecer, ele dá a volta e bate no vidro, abro sem entender.
— Posso ir à frente, ou vou para trás?
— Pode entrar — digo, puxando a maçaneta para abrir.
Ele entra um pouco desconfortável, senta e fica massageando as mãos.
Obrigado pela oportunidade e desculpe pelo nosso último encontro.
— Não lembro de nada r**m ter acontecido no nosso último encontro.
— É normal tratar todos assim ou está se preparando para se vingar de mim?
— Trato todos da mesma forma, independente de posição social, se essa for sua dúvida. Realmente não me lembro de algo r**m ter acontecido… teve sim uma fala de indignação de sua pessoa, mas não posso te julgar sem saber da sua vida primeiro, não sei o que estava passando e vivendo naquele momento e por isso, apaguei o ocorrido. Só lembro de ter me ajudado a sair da chuva forte e me levado até em casa, em segurança.
— Não é possível que você seja assim…
— Por quê?
— Você tem muito dinheiro, pode pisar em quem quiser, ainda mais em pessoas como eu-sorrio.
— Eu sempre fui assim. Com mais dinheiro ou menos dinheiro, eu continuaria a mesma pessoa. Isso que acho que é o problema da pobreza, queremos ficar ricos por vingança, para nos mostrar melhores e pisar nos outros, porém, riqueza é totalmente o oposto disso. Riqueza é bondade, amor, empatia, alegria, respeito, tolerância, felicidade, gratidão, resiliência, atitude, ser oportunista… A riqueza começa de dentro para fora. Se for dessa forma, tudo dará certo, tudo que colocar a mão vai prosperar.
— Tento sempre mudar minha vida e continuo na mesma… sou bondoso, você sabe.
— Vamos falar de trabalho?
— Sim — diz sem ânimo.
— Quero um bebê e você não precisa cuidar, criar. Você tem a opção de morar na minha casa ou em outra, mas será observado por alguém de minha confiança. Não pode ter relações com ninguém enquanto eu não engravidar. Proibido beber álcool, fumar e coisas que sejam prejudiciais à criança.
— Não posso deixar minha mãe…
— Se ficar na minha casa, arrumamos um lugar para ela sem problemas. Se ficar em outro lugar, pode ficar com ela.
— Não tenho dinheiro e nem meio de bancar nada disso.
— Eu te pedi algum centavo? — Sai rude, então sorrio para quebrar o clima chato que ficou — vou pagar tudo, alimentos, roupas, remédios, estadia e o que mais for necessário. A única coisa que não farei é esbanjar dinheiro com coisas inúteis.
— Esse será meu pagamento?
— Receberá seu dinheiro assim que o óvulo for fecundado e houver a implantação no útero, dando início à gravidez.
— Tudo bem. Quando me mudo?
— Assim que quiser, só precisa me avisar para eu arrumar outra casa.
— Pode arrumar uma o mais rápido possível.
— Está animado — sorrio por sua animação.
— Preciso desse dinheiro. E eu vou ficar na casa da senhora, acho que seria bom conhecer melhor a mãe do meu filho — sorri constrangido.
— Bom, tenho que ressaltar algumas coisas, se for morar comigo, não quero me chamando de senhora, ou me chama de Maria, Helena ou de Maria Helena. E mais importante, não me trate como se fôssemos casais, nossa relação é baseada em um contrato trabalhista. Resumo, você é meu funcionário.
— Deixou isso sempre muito claro.
— Ótimo.
Chegamos à minha casa e eu fui mostrar tudo para ele, todos os cômodos, os lugares, onde poderia ir, estar, entrar.
— Esse é o quarto de hóspedes — digo, abrindo a porta.
— Esse é meu quarto? — questiona com uma expressão nada boa.
— Seria, mas pelo visto precisa de uma leve reforma…
— Tudo bem, qualquer lugar que estiver disponível, durmo, sem problemas.
— Ok… pode deixar suas roupas por enquanto no meu quarto, posso arrumar um espacinho no meu closet.
— Se não for te atrapalhar, eu aceito.
Assim que terminamos o tour, ele diz que vai até em casa contar tudo para a mãe dele e que traria as coisas dele.
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Gean:
Estava feliz demais, ia para casa em um veículo de luxo, com direito a um motorista… vinha a sensação incrível de que minha vida iria mudar.
Chego em frente à minha casa, digo ao motorista que logo retornaria, saio do carro, vou até o portão e logo entro em casa. Minha mãe passava roupas, às vezes ela trabalhava passando roupas para vizinhos que tinham a condição melhor ou para pessoas ricas.
— Olá, mãe! — Chego gritando.
— Tudo bem, meu filho?
— Sim, e a senhora.
— Bem. O que houve, está mais animado?
— Passei na entrevista de emprego!
— Que bom, meu filho! — a mesma me abraça forte — e, por sua animação, imagino que seja um trabalho ótimo.
— E é… fui contratado pela Maria Helena Farzar!
— Que legal — ela sorri.
— É maravilhoso e agora vamos nos mudar por um tempo, então arruma suas coisas e eu vou pegar as minhas, leve só o necessário.
— O quê? Por quê? Como ficaremos sem nossa casa, nossas coisinhas?
— Ela vai nos hospedar na casa dela e amanhã vai conseguir uma para a senhora. Iremos morar em outra casa até que eu termine meu trabalho.
— Se vou para outra casa, onde você vai ficar?
— Na casa dela.
— Morar na casa dela?
— Sim!
— Calma, Gean.
A mesma se senta, desliga o ferro e se abana, além de respirar devagar.
— Tem certeza de que essa proposta foi feita por ela? Pode ser um golpe.
— Foi ela, mãe, ela me chamou pessoalmente.
— Que trabalho é esse?
— Ela precisa de um doador de sêmen, eu sou o melhor para doar… claro, preciso melhorar algumas coisas, ela é exigente.
— Vai ter um filho?
— Não. Ela vai comprar um filho meu.
— Essa mulher é louca?
— Não sei, o que sei é que ela vai me pagar bem por isso e, enquanto não engravidar, vai bancar eu e a senhora, vamos ter uma vida digna pelo menos por alguns meses.
— Não aceite — fala baixo.
— O quê?
— Não aceite! — diz firme.
— É a nossa chance de mudar de vida e a senhora quer prescindir disso?
— Sim. Você não é um mercenário, uma mercadoria, você é um rapaz de respeito. Melhor pobre e honesto, do que rico e desonesto, mercenário.
— Está ouvindo o que está dizendo? Estou cansado da pobreza e estão mandando eu continuar pobre.
— Esquece esse trabalho, essa mulher. Coisas melhores virão, só tenha paciência.
— Mãe, eu te amo, não quero te largar, mas eu não aceito viver nisso aqui nem mais um minuto.
— Vai preferir o dinheiro do que nossa paz?
— Eu não tenho paz aqui! Olha para essa casa, para nossas roupas, nosso passado e presente. Eu não consigo ter paz assim! Quero melhoria.
— Então vai. Não quero ninguém ingrato perto de mim. Você está cansado de tudo isso e eu estou cansada de reclamações.
— Mãe, pense melhor — seguro em sua mão — podemos ter uma vida mais digna, de todos os pobres, nós somos os piores, queira melhorar, viver bem… temos essa chance, só aceita.
— Pega suas coisas e vai, não vou te privar do seu sonho, mas esse não é o meu, não acho essa atitude honrosa.
Fecho os olhos e permito as lágrimas caírem, mas infelizmente eu não podia deixar minha vida ser destruída como minha mãe deixava a dela.
Pego o necessário, beijo sua testa, digo que a amo e que, o que precisasse, eu estaria ali para a ajudar, então vou embora.