>> Alina Travers >>
Alguns dias depois…
A minha vida inteira passou a girar em torno de Apollo Bollene e não seria exagero da minha parte afirmar que eu penso mais nele do que em mim mesma durante o decorrer dos meus dias.
Ele é a primeira pessoa que passa pela minha cabeça quando eu acordo e a última que passa por ela quando eu me deito. Em poucos dias, eu já sei exatamente tudo sobre ele, desde o tamanho da sua cueca até a pasta de dente com sabor de carvão ativado e menta que ele gosta de usar. Eu também sei quantas vezes por dia ele come, o que gosta de beber e até com qual frequência ele gosta que troque o forro da sua cama. Devo admitir que ser a secretária pessoal de alguém é muito mais difícil e cansativo do que eu imaginava. Ainda mais quando esse alguém é o Senhor Bollene.
Apollo é um homem extremamente exigente e complicado. Ele é muito fechado. Acho que nós últimos dias que se passaram, as únicas frases que ele falou comigo eram ordem sobre o que eu deveria fazer e as únicas exceções a essa regra eram os bons dias que ele sempre colocava na frente da sua primeira ordem do dia ou algumas perguntas aleatórias que ele fazia quando estava curioso sobre algo.
Eu tenho quase certeza que ele tem algum tipo de transtorno obsessivo-compulsivo (também conhecido como TOC). É terrivelmente chato quando se trata de comida, ele come quase todos os tipos de alimentos, mas se a comida não estiver com uma boa aparência e nem na temperatura correta ele não passa da primeira garfada. É viciado em trabalho, vive m*l humorado, não sai para se divertir, reclama de tudo e... eu já falei complicado?
Eu estava tentando cortar as bananas em cubinhos quando ouvi o barulho do motor do carro do Senhor Bolenne. Ele sai para malhar todos os dias de manhã e quando volta tudo o que come é uma salada de frutas, iogurte diet ou cereal. Sua saúde e seu bem estar são sempre a sua prioridade, não é atoa que esse homem é um pedaço de m*l caminho.
— Bom dia, Senhor Bollene! — O cumprimentei com um sorriso assim que ele entrou na cozinha com sua roupa de treino e passando o pano na testa para enxugar o seu suor. Odeio o fato desse homem ser tão gostoso e ao mesmo tempo tão babaca.
— Bom dia, Travers. O que temos para hoje? — Ele perguntou com a sua expressão fechada de sempre e sem se dar ao trabalho de olhar para mim. Caminhou até a porta da geladeira e pegou de dentro uma garrafinha de água mineral, abrindo a mesma em sua mão e começando a golear.
— O senhor tem uma reunião com o Senhor Bennet às 08h40 e uma conferência às 10h00. Sua mãe marcou um horário com o senhor às 12h00, para o almoço, e depois disso só tem a festa de noivado da Senhorita Thompson que será às 17h00. — Eu informei enquanto continuava a cortar as frutas. Sentir o olhar dele sobre mim, ele me olhava por cima da garrafa e eu tentava ao máximo não virar a minha atenção para ele — O Convite com o endereço está na sua mesa e eu já encomendei o seu smoking .
Depois de beber a água e jogar a garrafa no lixo, ele apenas saiu da cozinha. Indo em direção às escadas sem nem me agradecer por ser uma assistente boa o suficiente para saber todos os seus planos de cabeça e não por causa de um tablet que fica comigo vinte e quatro horas por dia. Quando eu não sou útil para ele, ele apenas ignora a minha presença e eu estou quase me acostumando a viver com isso.
Mesmo que às vezes eu tenha vontade de meter o tablet na cabeça dele.
Quando terminei de cortar as frutas e coloquei um pouco de suco e de mel por cima para que a salada de fruta que ele tanto gostava estivesse pronta, coloquei duas pedras de gelo para que ainda estivesse fria quando ele saísse do banho e depositei a tigela sobre a mesa. Não demorou muito para que ele descesse as escadas já vestido em seu terno e gravata que parecia ter sido feito sob medida, sua típica imagem de executivo ao qual eu já estava acostumada voltou a tona.
— Quero que você compre um vestido verde para hoje… — Ele ordenou, fazendo com que eu andasse até o balcão que estava o tablet da empresa e abrisse a área onde fica a agenda eletrônica, mas antes de começar a escrever eu franzi a testa e olhei para ele.
— Um vestido verde? — Perguntei confusa e ele olhou para mim de forma intimidadora por eu ter interrompido a sua fala. Eu coloquei os meus lábios um pouco para dentro e abri um sorriso sem mostrar os dentes, enquanto ele se virava para frente, outra vez. Não sabia que ele tinha esse tipo de fetiche… — De qual tamanho, senhor?
— Do seu, Travers! — Ele disse como se não fosse nada demais e eu franzi um pouco mais a testa, porém, mexi com a cabeça em sinal de concordância e comecei a digitar. Pensei que ele gostasse das mais magras e não das que tinham o corpo como o meu…
— Mas alguma coisa, senhor? — Perguntei enquanto abaixava o tablet e olhava para o homem que nesse momento enchia a sua boca de frutas. Ele concordou com a cabeça enquanto terminava de mastigar.
— Sim... — Ele disse logo após engolir e olhou para mim com a cabeça erguida para encarar o meu rosto - já que eu estava em pé ao seu lado. Eu já estava com o tablet posicionado e só esperando que ele começasse a ditar para que eu pudesse digitar. A forma que eu me sinto por ter ficado boa nisso em tão pouco tempo me faz acreditar que eu nasci para esse tipo de trabalho — Quero que você desmarque todos os compromissos que você tiver para hoje.
Meu cérebro simplesmente travou e os meus dedos congelaram na mesma hora em que meu olhar de direcionou para ele sem sequer ter pedido a minha autorização. Ele me olhava como se estivesse certo da sua ordem, eu, por outro lado, não tinha certeza se eu ouvir direito.
— Perdão? — Perguntei confusa, querendo confirmar se eu tinha mesmo escutado aquilo ou se era apenas coisa da minha cabeça.
— Você vai me acompanhar nessa festa de noivado. — Ele avisou como se não fosse nada demais. Camile deixou passar a parte que eu teria que acompanhar o Apollo nos eventos quando me deu as instruções do que eu deveria fazer.. ou eu que deixei escapar essa parte? Eu não estava preparada para isso e tenho quase certeza que não tem nada sobre isso no meu contrato. — Algum problema com isso?
Ele perguntou enquanto me encarava com a sua típica expressão de poucos amigos. Esse homem tem tudo o que alguém pode desejar. Tem boa aparência, uma família amorosa, dinheiro para comprar o que ele quiser, mas, ainda sim, ele tem a capacidade de achar defeito em tudo.
— Tem certeza que não quer que eu mande o convite para uma das modelos que o senhor sai? Tenho certeza que qualquer uma delas seria mais adequada para te acompanhar nesses eventos do que eu. — Argumentei com sinceridade e ao mesmo tempo desesperada. Mesmo que negar esse evento não fosse a causa da minha demissão, eu tenho certeza que Apollo acharia qualquer outra para pôr no lugar.
— Se o que você quer é atrair a atenção do seu público alvo, você tem que investir em coisas novas e não mais do mesmo, senhorita Travers! — Ele se levantou, ficando de frente para mim e eu olhei para o rosto dele por alguns segundos antes de perceber o que ele tinha acabado de falar — Algum problema com você ser a minha acompanhante hoje?
Ele perguntou com o seu tom de voz rouco de sempre, mas como era de manhã, ele estava mais rouco que o normal. Eu percebi que ele ainda esperava a minha resposta quando notei que o mesmo me encarava.
— Não, senhor... — Eu abri um sorriso sem mostrar os dentes e ele apenas se virou para a porta da cozinha, começando a caminhar em direção a ela enquanto afogava a gravata que tinha acabado de colocar.