(10 Meses Antes)
Dante era o Sottocapo da nossa casa, mas com ele banido de Palermo e praticamente de babá com sua esposa em Enna, meu pai teve que colocar outro nesse posto. E o escolhido foi Rocco Martinus, o próprio chefe de segurança do Palazzo Rossi.
Eu não levantei nada contra, ele fazia um bom trabalho. Sua ascensão dentro da organização deixaria sua família, uma casa menor que as outras, bastante satisfeita lá em Catania.
E assim dezembro chegou. O clima de fim de ano não mudava muita coisa na nossa rotina, mas a tradição exigia o mínimo.
Claro que eu fiz uma ligação pela manhã para ver como o i****a do meu irmão mais novo estava, para garantir que ele não tinha se envolvido em problemas novamente.
Disquei o número seguro e o telefone tocou duas vezes antes de ser atendido.
— Rossi — a voz de Dante soou do outro lado, dura e seca, como se esperasse o aviso de um ataque.
— Relaxe os ombros, i****a. Buon Natale, fratello.
A tensão na linha pareceu dissipar no mesmo instante. Ouvi a respiração dele mudar, ficando mais leve.
— Buon Natale, Romeo.
— Como estão as coisas nesse fim de mundo? — Perguntei, recostando-me na poltrona do meu quarto. — Caindo muita chuva?
— Neve — Dante corrigiu.
— E neva até na Villa Trovato?
— Sim, de verdade. Emanuele quase teve um ataque cardíaco de emoção.
Sorri, imaginando a cena da brasileira vendo a montanha branca.
— Pelo menos ela tem uma distração. E o resto? Nenhum problema novo nas fronteiras?
— Não, aqui está tudo quieto. O frio parou tudo.
Dante fez uma pausa. O silêncio durou alguns segundos, até ele perguntar:
— E aí? A Nonna está reclamando da comida?
Soltei uma risada. Era impossível esconder o clima da nossa própria casa.
— É um inferno. Ela só reclama nos dias em que a Silvana não assume o fogão. Como o Don trouxe a Silvana de Trapani, ela e a cozinheira daqui de Palermo ficam fazendo um rodízio de quem manda. A velha Viviana não perdoa um prato m*l temperado. Mas ela está bem. E você, e as meninas? Um dia desses ela disse que você e Emanuele vão voltar só os ossos daí.
Dante riu. Uma risada curta, um pouco rouca pela fumaça que ele engoliu semanas atrás, mas verdadeira.
— Diga a ela que estamos comendo bem. Emanuele e Agata fizeram scacciata... Sim, Romeo. Estamos bem.
— Fico feliz em ouvir isso. Mande um beijo para a minha cunhada selvagem. E aproveitem o gelo. Aqui em Palermo está chovendo tanto que eu estou pensando em construir uma arca no pátio antes do almoço.
Nos despedimos rapidamente, do jeito que costumávamos fazer, e eu desliguei. Um problema a menos. Meu irmão estava domado, coitado.
O resto do dia seguiu o roteiro de sempre. Entreguei um presente para o meu pai: uma garrafa da bebida que o Don mais gostava, praticamente um dos presentes mais comuns de todas as nossas comemorações, pois não ligávamos muito para isso.
Para a minha avó Viviana, eu dei um baralho. Ela ia ficar jogando com algumas criadas e Silvana Bellagamba até tarde, aproveitando a noite de folga para não reclamar da comida das outras funcionárias.
A casa estava ocupada e distraída. E por fim, só faltou um presente.
Desci as escadas até o térreo, caminhando em silêncio pela ala dos criados. Parei na frente de uma porta específica. Eu sabia que era o quarto dela. Não bati. Apenas deixei um bilhete deslizar por baixo da fresta da madeira.
Recuei no mesmo instante e desapareci no corredor quando escutei o barulho da porta se abrindo. Fui direto para a minha suíte.
Não demorou muito, as batidas na porta do meu quarto foram rápidas.
A porta se abriu e Carmem apareceu. Estava de noite, então imaginei que ela vestiu as roupas de criada às pressas depois de ler o recado. O cabelo escuro estava um pouco desgrenhado e a respiração ligeiramente acelerada.
— Signor Romeo? — Ela chamou da soleira.
Eu estava saindo do closet. Parei no meio do tapete.
— Entre e tranque a porta.
Carmem hesitou. Os olhos dela percorreram o quarto vazio, mas ela obedeceu. Girou a chave na fechadura e se aproximou em passos curtos, parando na minha frente e apertando as mãos no avental.
— Como posso ajudá-lo, signore?
— Você vai me ajudar tirando a sua roupa.
Carmem arregalou os olhos minimamente, a surpresa estampada no rosto claro.
— Perdão? — Ela sussurrou, confusa.
Dei as costas para ela, voltei até o closet e trouxe os cabides com as capas de proteção das lojas mais caras do centro. Abri o zíper, revelando os tecidos finos e os cortes perfeitos de vários vestidos elegantes.
— Eu resolvi que você merece um presente de Natal — falei, jogando as roupas sobre a cama.
Ela olhou para os vestidos, depois para mim.
— Um presente... eu? — Ela gaguejou, a voz baixa. — Mas eu não tenho nada para o senhor...
Dei um passo na direção dela, diminuindo o espaço.
— E eu não preciso de nada. Portanto, comece a tirar suas roupas e experimente esses vestidos. Leve o que mais gostar.
Fiquei parado, esperando. A ordem era a mais invasiva que eu poderia dar. Eu pensei que ela ia se virar, destrancar a porta e fugir pelos corredores, apavorada com a audácia do patrão.
Mas a jovem e inocente Carmem não recuou um único centímetro. Ela sustentou o meu olhar e, devagar, sorriu.
Então começou a tirar a roupa.