(10 Meses Antes)
As semanas que se seguiram ao nosso momento no quarto foram marcadas por uma distância autoimposta.
Carmem sumiu do meu radar. Ela passou a evitar os corredores da ala oeste e, sempre que nos cruzávamos por acaso perto da copa ou da escadaria, ela abaixava a cabeça, o rosto corando de vergonha, e apertava o passo.
Eu não fui atrás. Na minha cabeça, a garota do interior estava em pânico, sem saber como lidar com a atração óbvia que sentia por mim. Deixei que ela fugisse, sabendo que as paredes do Palazzo Rossi eram o limite do mundo dela. Eu a encurralaria de novo quando tivesse vontade.
Mas a política da Famiglia não me deu tempo para distrações.
Dezembro chegou, e com ele, a ligação na Linha Vermelha. Eu ainda conseguia lembrar da sensação do meu sangue gelando quando atendi o telefone no escritório e ouvi a voz destruída de Dante do outro lado, anunciando que tinha exterminado Benedetto Trovato e os filhos.
O que se seguiu foi um caos burocrático e sangrento. Viajei às pressas para Enna com o Don. Sentar à mesa da Comissão Interprovincial e ver o rosto do meu irmão coberto por ataduras e queimaduras foi um soco no estômago.
Passei horas ouvindo abutres como Bastiano Greco e Luigi Fazello tentarem retalhar o centro da Sicília usando a desculpa de que uma menina de dezessete anos não podia governar nada.
Sim, foi uma longa história. Benedetto Trovato, conhecido como o Don de Enna e aliado ao meu pai, tentou matar o meu irmão queimado. Em resposta, Dante, calmo como só ele sabe ser, matou o Don de Enna e os filhos mais velhos.
A única sobrevivente foi a jovem Eleonora Trovato que se aliou a Dante e Emanuele, mas devido a sua idade, ela não podia assumir o trono da província e nem se casar ainda.
Tive que engolir o cansaço e defender nossas fronteiras. No fim, Vittorio calou a todos. O Don que uniu a Sicília sempre soube botar moral nas coisas.
Eleonora Trovato foi nomeada a Donna de Enna, e meu irmão, temporariamente aleijado e banido de Palermo, virou o Regente absoluto da província central enquanto arrumavam um marido para Eleonora assim que ela completasse dezoito anos em três meses.
Quando o meu carro blindado cruzou os portões do Palazzo em Palermo na viagem de volta, eu estava esgotado. A tensão de ver minha própria família quase entrar em guerra contra a ilha inteira cobrou o preço nos meus ossos.
Passei pelos guardas no saguão sem dizer uma palavra e subi direto para a minha suíte.
Joguei o paletó sobre a poltrona, afrouxei a gravata de seda e desabotoei os primeiros botões da camisa. Sentei na beirada da cama e esfreguei o rosto com as duas mãos, querendo apenas silêncio.
Três batidas leves na porta cortaram o ar.
— Entre — mandei, a voz cansada.
A porta se abriu devagar. Carmem parou na soleira. Ela segurava uma pequena bandeja de prata com uma jarra de água fresca e um copo de cristal.
Quando me viu sentado ali, com a guarda baixa, ela hesitou. Fez menção de recuar. O mesmo teatro de sempre.
— Pode deixar aí — apontei para a mesa de centro. Não tinha energia nem para ser o patrão autoritário.
Ela caminhou em silêncio e pousou a bandeja. Mas, em vez de dar meia volta e sumir pelo corredor, ela ficou parada. Apertou as mãos no tecido do avental.
— Signore... — a voz dela era um fio, trêmula. — Me perdoe a ousadia. Eu sei que não é o meu lugar.
Ergui os olhos. O rosto dela expressava uma angústia contida.
— Fale logo.
— A criadagem não para de cochichar nas cozinhas — ela continuou, dando um passo curto na minha direção. — Falam de explosões no centro da ilha. De três caixões fechados. Dizem que... dizem que o seu irmão estava em um dos carros. Que ele não sobreviveu.
Ela parou, umedecendo os lábios.
— O senhor parece tão exausto, signor Romeo. O seu irmão... ele está bem?
A pergunta me pegou totalmente desprevenido.
No meu mundo, meus homens me pedem ordens. Meus advogados me pedem assinaturas. Meu pai me cobra resultados. Ninguém cruza a porta do meu quarto para perguntar como eu estou lidando com a quase morte da minha própria família.
A empatia limpa e inocente nos olhos dela me desarmou. O muro de frieza que eu mantinha erguido desde a reunião da Cúpula cedeu um pouco.
— As fofocas são exageradas — suspirei, encostando as mãos nos joelhos. — Dante não morreu. Ele está vivo e garantiu o lugar dele. Mas o custo foi alto. Ele se machucou bastante.
Carmem soltou o ar, como se estivesse segurando a respiração por mim.
Ela deu mais um passo à frente. A distância entre nós encurtou para quase nada. O cheiro de sabão neutro e lavanda que ela sempre carregava substituiu o odor de fumaça de charuto que ainda estava impregnado nas minhas roupas da viagem.
— Eu rezei pela sua família todas as noites — ela sussurrou, a voz carregada de uma compaixão que me pareceu rara demais.
E então, ela fez o impensável.
A mão pequena e quente de Carmem se estendeu e tocou o meu antebraço, logo acima do punho. Um toque delicado e carinhoso, sem luxúria ou violência, as coisas que eu mais tinha conhecido na vida.
Olhei para os dedos dela descansando sobre o tecido escuro da minha camisa. Aquele toque simples era mais perigoso do que a massagem que ela tentou me dar semanas atrás. Ele atravessava a minha pele e ia direto no meu espírito cansado.
Girei o meu pulso lentamente, virando a palma da mão para cima. Deslizei meus dedos pelos dela e segurei a mão de Carmem, prendendo-a ali.
Ela não puxou de volta. Ela não fugiu. Apenas me olhou, os lábios entreabertos, a respiração presa.
Um sorriso fraco, mas carregado de satisfação, surgiu no meu rosto. A garota do interior finalmente tinha cedido. A barreira do medo tinha caído. Eu tinha certeza absoluta de que ela estava nas minhas mãos.
E eu a usaria como bem quisesse.