Capítulo 3: Romeo

1032 Words
(10 Meses Antes) As semanas que se seguiram ao nosso momento no quarto foram marcadas por uma distância autoimposta. Carmem sumiu do meu radar. Ela passou a evitar os corredores da ala oeste e, sempre que nos cruzávamos por acaso perto da copa ou da escadaria, ela abaixava a cabeça, o rosto corando de vergonha, e apertava o passo. Eu não fui atrás. Na minha cabeça, a garota do interior estava em pânico, sem saber como lidar com a atração óbvia que sentia por mim. Deixei que ela fugisse, sabendo que as paredes do Palazzo Rossi eram o limite do mundo dela. Eu a encurralaria de novo quando tivesse vontade. Mas a política da Famiglia não me deu tempo para distrações. Dezembro chegou, e com ele, a ligação na Linha Vermelha. Eu ainda conseguia lembrar da sensação do meu sangue gelando quando atendi o telefone no escritório e ouvi a voz destruída de Dante do outro lado, anunciando que tinha exterminado Benedetto Trovato e os filhos. O que se seguiu foi um caos burocrático e sangrento. Viajei às pressas para Enna com o Don. Sentar à mesa da Comissão Interprovincial e ver o rosto do meu irmão coberto por ataduras e queimaduras foi um soco no estômago. Passei horas ouvindo abutres como Bastiano Greco e Luigi Fazello tentarem retalhar o centro da Sicília usando a desculpa de que uma menina de dezessete anos não podia governar nada. Sim, foi uma longa história. Benedetto Trovato, conhecido como o Don de Enna e aliado ao meu pai, tentou matar o meu irmão queimado. Em resposta, Dante, calmo como só ele sabe ser, matou o Don de Enna e os filhos mais velhos. A única sobrevivente foi a jovem Eleonora Trovato que se aliou a Dante e Emanuele, mas devido a sua idade, ela não podia assumir o trono da província e nem se casar ainda. Tive que engolir o cansaço e defender nossas fronteiras. No fim, Vittorio calou a todos. O Don que uniu a Sicília sempre soube botar moral nas coisas. Eleonora Trovato foi nomeada a Donna de Enna, e meu irmão, temporariamente aleijado e banido de Palermo, virou o Regente absoluto da província central enquanto arrumavam um marido para Eleonora assim que ela completasse dezoito anos em três meses. Quando o meu carro blindado cruzou os portões do Palazzo em Palermo na viagem de volta, eu estava esgotado. A tensão de ver minha própria família quase entrar em guerra contra a ilha inteira cobrou o preço nos meus ossos. Passei pelos guardas no saguão sem dizer uma palavra e subi direto para a minha suíte. Joguei o paletó sobre a poltrona, afrouxei a gravata de seda e desabotoei os primeiros botões da camisa. Sentei na beirada da cama e esfreguei o rosto com as duas mãos, querendo apenas silêncio. Três batidas leves na porta cortaram o ar. — Entre — mandei, a voz cansada. A porta se abriu devagar. Carmem parou na soleira. Ela segurava uma pequena bandeja de prata com uma jarra de água fresca e um copo de cristal. Quando me viu sentado ali, com a guarda baixa, ela hesitou. Fez menção de recuar. O mesmo teatro de sempre. — Pode deixar aí — apontei para a mesa de centro. Não tinha energia nem para ser o patrão autoritário. Ela caminhou em silêncio e pousou a bandeja. Mas, em vez de dar meia volta e sumir pelo corredor, ela ficou parada. Apertou as mãos no tecido do avental. — Signore... — a voz dela era um fio, trêmula. — Me perdoe a ousadia. Eu sei que não é o meu lugar. Ergui os olhos. O rosto dela expressava uma angústia contida. — Fale logo. — A criadagem não para de cochichar nas cozinhas — ela continuou, dando um passo curto na minha direção. — Falam de explosões no centro da ilha. De três caixões fechados. Dizem que... dizem que o seu irmão estava em um dos carros. Que ele não sobreviveu. Ela parou, umedecendo os lábios. — O senhor parece tão exausto, signor Romeo. O seu irmão... ele está bem? A pergunta me pegou totalmente desprevenido. No meu mundo, meus homens me pedem ordens. Meus advogados me pedem assinaturas. Meu pai me cobra resultados. Ninguém cruza a porta do meu quarto para perguntar como eu estou lidando com a quase morte da minha própria família. A empatia limpa e inocente nos olhos dela me desarmou. O muro de frieza que eu mantinha erguido desde a reunião da Cúpula cedeu um pouco. — As fofocas são exageradas — suspirei, encostando as mãos nos joelhos. — Dante não morreu. Ele está vivo e garantiu o lugar dele. Mas o custo foi alto. Ele se machucou bastante. Carmem soltou o ar, como se estivesse segurando a respiração por mim. Ela deu mais um passo à frente. A distância entre nós encurtou para quase nada. O cheiro de sabão neutro e lavanda que ela sempre carregava substituiu o odor de fumaça de charuto que ainda estava impregnado nas minhas roupas da viagem. — Eu rezei pela sua família todas as noites — ela sussurrou, a voz carregada de uma compaixão que me pareceu rara demais. E então, ela fez o impensável. A mão pequena e quente de Carmem se estendeu e tocou o meu antebraço, logo acima do punho. Um toque delicado e carinhoso, sem luxúria ou violência, as coisas que eu mais tinha conhecido na vida. Olhei para os dedos dela descansando sobre o tecido escuro da minha camisa. Aquele toque simples era mais perigoso do que a massagem que ela tentou me dar semanas atrás. Ele atravessava a minha pele e ia direto no meu espírito cansado. Girei o meu pulso lentamente, virando a palma da mão para cima. Deslizei meus dedos pelos dela e segurei a mão de Carmem, prendendo-a ali. Ela não puxou de volta. Ela não fugiu. Apenas me olhou, os lábios entreabertos, a respiração presa. Um sorriso fraco, mas carregado de satisfação, surgiu no meu rosto. A garota do interior finalmente tinha cedido. A barreira do medo tinha caído. Eu tinha certeza absoluta de que ela estava nas minhas mãos. E eu a usaria como bem quisesse.
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