Capítulo 31: Romeo

616 Words
(9 Meses Antes) Os últimos dias em Palermo consumiram a minha paciência até o limite. Don Vittorio, ocupando o escritório principal do Palazzo pelo maior tempo desde que eu assumi como Capo, decidiu despejar toda a carga logística da Famiglia nas minhas costas. A minha fachada para a sociedade exigia dedicação. As revistas de negócios locais me chamavam de o Príncipe de Concreto, o visionário que modernizava o horizonte. A Rossi Costruzioni S.p.A. erguia as paredes onde os juízes dormiam e pavimentava as ruas onde a polícia dirigia. Legalmente, eu construía a cidade. Ilegalmente, eu cobrava aluguel de cada alma que pisava nela. Na minha mesa, plantas arquitetônicas de condomínios de luxo misturavam-se com registros de lavagem de dinheiro. Nossos canteiros de obras espalhados pela orla eram o esconderijo perfeito. O cimento fresco sempre foi o melhor lugar para sumir com um corpo sem deixar rastros. Mas o problema daquela semana não era o concreto, e sim o mar. A Rossi Logistics & Shipping controlava a entrada e saída do porto. Nossos caminhões exportavam os vinhos e o azeite da Tenuta para o mundo. Abaixo da superfície legal, metade dos nossos contêineres abrigava fundos falsos lotados de cocaína e fuzis. Rocco Martinus passou a semana inteira nas docas. O Sottocapo sujou os sapatos lidando com os estivadores e amordaçando líderes sindicais. Ele bateu em quem precisava apanhar e fez isso com a cautela necessária para não atrair a polícia federal. Peixes menores podiam sumir na baía, figurões dariam dor de cabeça. Rocco entendia a balança de forma excelente. Ele cobria a ausência de Dante no trabalho sujo de forma exemplar. Ainda assim, faltava a confiança cega do sangue. Rocco não era o meu irmão. E também não era Mattia Santoro. Afastar as plantas baixas da minha mesa me fez lembrar de Mattia. Ele cresceu comigo nos pátios de Trapani e nas ruas de Palermo. Foi o meu melhor amigo de infância, um homem que subiu os degraus da organização até alcançar uma posição alta de respeito. E perdeu a vida de forma estúpida no ano passado. Mattia cometeu o erro primário de se envolver com a filha mais velha de Alessio Marino, o Capo de Messina. Alessio era um doente. Um fanático religioso que governava o seu território com a Bíblia em uma mão e a pistola na outra. O caso de Mattia com a garota causou uma fratura grave entre Palermo e Messina. As rotas travaram e Mattia acabou com um tiro na nuca. A questão só não se transformou em retaliação armada contínua porque a minha avó interveio. Viviana usou a sua influência e arranjou um noivo que Alessio considerou adequado para a filha. Por ser um lunático da fé, qualquer homem que fingisse rezar na mesma cartilha servia. O escolhido foi um soldado menor, um rapaz de patente baixa nascido em Trapani. Que Deus ajudasse o pobre coitado. Passei a mão pelo rosto, sentindo a textura áspera da barba por fazer. Eu não queria pensar em Messina. Não queria pensar no fanatismo de Alessio, nem nos contêineres retidos nas docas, nem nas licitações públicas da prefeitura. A minha cabeça estava cheia de propinas e burocracia. Eu precisava esvaziar a mente daquele mundo corporativo e criminoso. Antes de subir para a Ala Leste, caminhei até a área de serviço. O corredor dos empregados estava vazio durante a tarde. Entrei no quarto estreito e deixei um bilhete dobrado sobre o travesseiro de Carmem. Apenas uma linha escrita à mão, avisando para ela me encontrar assim que o palácio dormisse. Retornei para os meus aposentos, tranquei a porta e fui para o chuveiro, aguardando que a madrugada trouxesse o único alívio que me interessava no momento.
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