Capítulo 45

1976 Words
Nicholas foi o último a chegar. O gabinete de Edmund era amplo, austero, dominado por madeira escura, mapas antigos e símbolos de tratados passados. A luz da tarde entrava filtrada pelas janelas altas, projetando sombras longas que tornavam o ambiente ainda mais fechado. Radovan já estava ali. De pé, próximo à janela, as mãos cruzadas atrás do corpo, observando os jardins como se já fosse dono deles. Alistair permanecia alguns passos atrás da mesa, discreto como sempre, um bloco de anotações fechado nas mãos. Edmund levantou-se quando o filho entrou. — Nicholas. — disse, em tom baixo. — Sente-se. Nicholas obedeceu, ocupando a cadeira à direita do pai. O corpo rígido, a mandíbula tensa. Ele sentia que aquela sala não fora preparada para ouvi-lo. Radovan virou-se lentamente. — Então... — disse, avaliando os dois — estamos completos. Sentou-se sem pedir permissão. O silêncio que se seguiu foi pesado demais para ser confortável. Edmund pigarreou, escolhendo cada palavra com o cuidado de quem pisa em terreno minado. — Majestade. — começou, num tom conciliador — agradeço por ter vindo com tanta presteza. Sei que sua agenda... — Vamos direto ao assunto. — Radovan interrompeu, seco. — Não vim de tão longe para ouvir gentilezas. Cruzou as pernas com calma calculada. — O que aconteceu, Edmund? O rei de Auren respirou fundo. Radovan arqueou uma sobrancelha, impaciente. — Espero que tenha me chamado para anunciar que o casamento foi marcado. — disse, com ironia fria. — E que deseja discutir os custos da cerimônia. Se for isso, posso emitir um cheque agora mesmo. Edmund manteve o rosto impassível. — Não. — respondeu. — O casamento ainda não foi marcado. O semblante de Radovan se fechou de imediato. — Ora... — disse, inclinando-se levemente para a frente — por que não? O olhar dele varreu a sala, pousando brevemente em Nicholas, como se só agora percebesse sua presença. — O príncipe está no castelo. — continuou. — A princesa está no castelo. O acordo está firmado. O que exatamente estamos esperando? Nicholas sentiu o estômago retesar. Olhou para o pai. Edmund demorou um segundo a mais do que deveria para responder. — Eu o chamei aqui... — começou, escolhendo as palavras com extremo cuidado — para verificar uma possibilidade de... reconsiderarmos os termos do acordo. Um segundo. Dois. Então Radovan riu. Não foi um riso explosivo. Foi algo pior: descrente, quase divertido. — Só pode ser uma brincadeira. — disse. — O senhor enlouqueceu? A risada cessou tão rápido quanto começou. — Não há a menor chance. — afirmou, frio. — Esse casamento vai acontecer. Edmund sustentou o olhar. — Peço que me ouça. — disse, com firmeza contida. — Estou ouvindo. — Radovan respondeu. — Mas pare de falar bonito e vá direto ao ponto. Inclinou a cabeça, incisivo. — Por que você não quer honrar nosso acordo, Edmund? Nicholas sentiu algo se partir dentro de si. Ali estava ele. Sentado. Ouvindo dois homens decidirem sua vida como se ele fosse um detalhe administrativo. Era pior do que Katarina. Ela ao menos fora excluída. Ele estava ali... e ainda assim invisível. — Ande. — Radovan pressionou. — Explique. Nicholas não suportou. — Porque eu não quero me casar com a Katarina. A frase cortou o ar. Radovan virou o rosto lentamente na direção dele. O olhar foi um golpe. — Nicholas. — Edmund disse imediatamente, num tom de advertência — não... — Eu vou falar. — Nicholas interrompeu. — Porque sou eu quem está sendo jogado de um lado para o outro nesse acordo. Eu e a Katarina, que inclusive deveria estar aqui. Radovan o encarou como se observasse algo inconveniente sobre a mesa. — Minha filha não tem que estar aqui. — disse, com frieza absoluta. — Ela foi educada para saber exatamente qual é o seu lugar. Edmund sentiu o estômago afundar. — Criada para obedecer. — Radovan continuou. — Primeiro a mim. Depois, ao marido, quando tiver um. Nicholas sentiu o sangue ferver. — Criada para procriar. — completou o rei de Karsevia. — E gerar um herdeiro homem. Algo que a mãe dela foi incapaz de fazer. A sala congelou. Alistair baixou o olhar. Radovan levantou-se. Aproximou-se de Nicholas com passos lentos, calculados. — Você não é nada, garoto. — disse, baixo. — Não tem lugar de fala aqui. Parou diante dele. — Essa é uma conversa entre reis. — continuou. — O acordo foi selado entre dois reis. Não é um fedelho que m*l saiu das fraldas que vai opinar. Inclinou-se um pouco mais. — Você nem devia estar nesta sala. — Chega. — Nicholas disse, erguendo-se também. Edmund sentiu o coração disparar. — Nicholas! — repreendeu, já tarde demais. — Eu estou aqui porque é a minha vida. — Nicholas disse, firme. — E eu não vou me casar com a Katarina. Radovan virou-se para Edmund lentamente. — Diga-me, majestade. — falou, num tom perigosamente calmo — minha filha tem algum problema? Fez uma pausa curta. — Ela não é linda? — continuou. — Educada? Inteligente? O olhar endureceu. — Ela não está à altura do seu herdeiro? Há algum defeito nela que justifique essa recusa? — Pergunte a mim. — Nicholas respondeu, sem pensar. — Nicholas! — Edmund explodiu. — Você já passou de todos os limites! Virou-se rapidamente para Radovan. — Não se trata disso. — disse, firme. — Katarina é uma excelente princesa. Respirou fundo. — Acontece que meu filho não a ama. Radovan voltou a rir. Dessa vez, com desprezo. — Amor... — repetiu. — Ele quer amor. Olhou para Nicholas como quem avalia uma criança. — Moleque. — disse. — Isso é política. Você vai se casar com a Katarina. — Não vou. — Nicholas respondeu. O sorriso de Radovan desapareceu. — Cuidado com o que diz. — disse. Radovan observou Nicholas por um segundo longo demais. O silêncio não era hesitação. Era cálculo. — Isso... — Nicholas disse, com a voz firme apesar do nó no estômago — foi uma ameaça? Radovan não respondeu de imediato. Aproximou-se da janela, olhou para fora, para os jardins de Auren, para as muralhas antigas, para o reino que já estivera à beira de desaparecer. Então falou, sem se virar: — Não. — disse, calmamente. — Ameaças são coisas que se fazem quando ainda existe dúvida sobre o resultado. Virou-se devagar. — O que eu fiz foi lhes dar um aviso. O olhar pousou em Edmund. — O senhor sabe, majestade. — continuou. — Já viu isso acontecer antes. Deu dois passos em direção a Nicholas. — Reinos não caem de uma vez. — disse. — Eles apodrecem primeiro. Perdem aliados. Enfraquecem por dentro. Depois... alguém termina o trabalho. O silêncio era absoluto. — Mas fique tranquilo. — acrescentou, com um sorriso frio demais para ser reconfortante. — Não tenho interesse em guerra neste momento. Fez uma pausa mínima. — Desde que o acordo seja cumprido. Edmund sentiu o mesmo frio antigo atravessar-lhe o peito. O mesmo de anos atrás. Radovan pegou o casaco. — Vou embora. — disse. — Levarei minha filha comigo. Edmund sentiu o frio antigo da guerra percorrer-lhe a espinha. — Darei a vocês um tempo a mais. — Radovan completou. — Para que o príncipe caia em si. O olhar pousou novamente em Nicholas. — Creio que, em breve... — disse — o senhor enviará uma mensagem a Karsevia, implorando para se casar com Katarina. Virou-se e saiu. A porta do gabinete se fechou com força suficiente para ecoar pelo corredor. Edmund permaneceu parado por um segundo, de costas para o filho, respirando fundo como quem tenta impedir algo de explodir por dentro. Quando se virou, o olhar já não era o do rei diante de outros reis. Era o de um pai furioso. — Você tem ideia do que fez? — perguntou, a voz baixa, controlada demais para não ser perigosa. — Tem ideia do tamanho da imprudência que acabou de cometer? Nicholas ainda estava alterado, o peito subindo e descendo rápido, o sangue quente demais para qualquer reverência. — Eu falei o que precisava ser dito. — respondeu. — Alguém precisava falar. — Não daquela forma. — Edmund rebateu, dando dois passos na direção dele. — Você desrespeitou Radovan. Um rei. Um homem que não esquece afrontas. — Ótimo. — Nicholas soltou, com amargura. — Talvez alguém devesse começar a afrontá-lo. Edmund fechou os olhos por um instante. Quando tornou a abri-los, havia cansaço ali. Antigo. Profundo. — Você não faz ideia de quem ele é. — disse. — Nem do que Karsevia é capaz. Nicholas soltou uma risada curta, sem humor. — Ah, entendo. — disse. — Então é isso? Medo? O olhar dele cravou no do pai. — É isso, meu pai? — insistiu. — Você tem medo dele? O silêncio que se seguiu foi pesado. Edmund não respondeu de imediato. — Não é vergonha um rei agir com cautela. — disse, por fim. — Vergonha é conduzir seu povo para a morte por orgulho. Nicholas balançou a cabeça, incrédulo. — Você fala como se eu fosse um garoto mimado. — rebateu. — Mas eu sei o que aconteceu. Minha tia morreu. O marido dela morreu. E o senhor achou de bom tom me usar pra encerrar uma guerra. A palavra usar ficou suspensa no ar. Edmund riu. Mas não havia humor algum naquele som. Era um riso baixo, curto, quebrado. O riso de quem carrega um peso que nunca conseguiu dividir. — Essa... — disse ele, respirando fundo — é a versão suavizada. Nicholas franziu a testa. — Foi o que eu contei a você quando era criança. — continuou Edmund. — Para que conseguisse dormir à noite. Para que não crescesse odiando o próprio nome. Deu alguns passos, apoiando as mãos na mesa. — A verdade, meu filho... — disse, a voz mais baixa agora — é que nós íamos perder aquela guerra. Nicholas sentiu algo se mover dentro do peito. — Não perder uma batalha. — Edmund continuou. — Perder tudo. Ergueu o olhar para o filho. — Auren estava a um passo de ser anexada aos territórios de Karsevia. Nossos aliados haviam recuado. Nosso exército estava exausto. A população... faminta. Fez uma pausa. — Não havia mais esperança. Nicholas engoliu em seco. — Se a guerra tivesse continuado... — Edmund prosseguiu — todos nós da família real teríamos morrido. O silêncio se tornou sufocante. — Inclusive você. — acrescentou. — Com três anos de idade. Nicholas sentiu o chão se deslocar sob os pés. — Eu vi soldados atravessarem vilarejos inteiros. — Edmund disse. — Vi crianças morrerem de frio. Vi mães implorarem por comida que eu não tinha como fornecer. A voz falhou por um segundo. — Quando Radovan me chamou para negociar... — continuou — não foi uma proposta entre iguais. Levantou-se lentamente. — Eu me rendi. Nicholas arregalou os olhos. — Ele poderia ter tomado Auren à força. — Edmund disse. — Poderia ter executado todos nós como exemplo. Mas escolheu outra coisa. Fez um gesto vago com a mão. — Ele foi misericordioso. A palavra soou errada. c***l. — Radovan queria Auren. — disse Edmund. — Não imediatamente. Não com sangue. Queria absorvê-la. Nicholas começou a entender antes mesmo das palavras seguintes. — O acordo... — Edmund continuou — garantia que, quando o filho de você e Katarina nascesse... O ar pareceu desaparecer do ambiente. — Ele herdaria Auren e Karsevia. — concluiu. — Governaria os dois reinos como um só. Nicholas sentiu o estômago revirar. — Era isso... — Edmund disse, por fim — ou ver você e sua mãe mortos diante de mim. O silêncio que caiu foi absoluto. Nicholas não encontrou palavras. Edmund o encarou, os olhos úmidos, mas firmes. — Então me diga, meu filho. — disse, com voz cansada. — O que você teria feito no meu lugar?
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