Capítulo 24

1111 Words
Um homem aguardava alguns passos à frente da formação, isolado. Não estava misturado aos oficiais, nem junto aos diplomatas. Estava ali sozinho, imóvel, esperando. A farda era parecida com a de Nicholas. Mas diferente. Menos símbolos. Menos peso visual. Ainda assim, impecável. A postura era relaxada demais para alguém que precisava provar algo... e segura demais para alguém que não tinha autoridade. Quando o rei se aproximou, o homem fez uma reverência profunda, precisa. Não exagerada. Respeitosa. Sophie franziu levemente a testa. Quem é ele? A guarda tornou a bater continência. Então, a porta da ala intermediária do avião se abriu. E Sophie prendeu o ar. Nicholas surgiu no topo da escada. A farda azul-escura, a faixa cruzando o peito, as insígnias douradas brilhando contra o branco da paisagem. O contraste era quase c***l. Ele parecia feito de inverno, aço e tradição. Lindo. Distante. Irreal. O coração dela acelerou sem pedir permissão. Nicholas desceu com passos firmes, expressão controlada, o príncipe herdeiro estampado em cada gesto. Não olhou para os lados. Não procurou por ninguém. Não podia. Quando chegou ao solo, a guarda real bateu continência novamente. Sophie sentiu o arrepio subir pelos braços mais uma vez. Mesmo sem tocá-lo, sem ouvi-lo, sem poder sequer chamá-lo pelo nome... ela sentiu. Era ele. Os reis seguiram adiante, entrando no carro oficial que os aguardava. Tudo aconteceu rápido, preciso, sem espaço para improvisos. As portas se fecharam. O veículo partiu primeiro, escoltado. Sophie acompanhou tudo com os olhos. E então algo chamou sua atenção. Nicholas não se moveu para um carro sozinho. O homem da farda parecida se aproximou dele. Os dois trocaram poucas palavras rápidas, quase imperceptíveis. Nicholas assentiu uma vez. O outro fez um gesto curto com a cabeça, como quem não precisa pedir permissão. Eles caminharam juntos até o segundo carro. Não havia i********e visível. Mas havia... familiaridade. Sophie estreitou os olhos, intrigada. Quem é ele? O carro partiu logo depois, seguindo o dos reis pela pista branca. Só então a comitiva começou a se mover. Elara tocou levemente o braço de Sophie. — Está tudo bem? Ela assentiu devagar, ainda olhando para fora. — Está... — respondeu, sem tirar os olhos da cena que se dissolvia. — Só... diferente de tudo o que eu já vi. Elara sorriu de canto, compreensiva. Sophie apertou o casaco dobrado contra o peito. Ainda fazia calor dentro do avião, mas ela sabia que, ao pisar naquele solo, o frio seria real. Cortante. Inescapável. Assim como tudo naquele lugar. Ela não perguntou quem era o homem da farda semelhante. Ainda não. Mas guardou a imagem com cuidado. Porque, de alguma forma, sentia que ele seria importante. E enquanto o avião começava, enfim, a se preparar para o desembarque da comitiva, Sophie respirou fundo, sentindo o peso da neve, do silêncio e do reino que se abria diante dela. Auren não a recebia com calor. Recebia com reverência. E com promessas que ainda não ousavam ser ditas em voz alta. ** A porta do carro se fechou com um som s***o. O vidro escuro isolou o mundo lá fora em segundos. Nicholas soltou o ar de uma vez só, como se tivesse estado prendendo a respiração desde que o avião tocara o solo. Afrouxou levemente os ombros, encostou a cabeça no banco e fechou os olhos por um instante. — Graças a Deus — murmurou. — Sobrevivi. Matthias soltou uma risada baixa ao lado dele, cruzando os braços com calma. — Relaxa — disse. — O pior já passou. Nicholas abriu um olho e virou o rosto na direção do primo. — Passou nada. — bufou. — Falta tudo isso de novo quando a gente chegar ao castelo. Matthias riu, balançando a cabeça. — Drama seu. — Drama? — Nicholas arqueou uma sobrancelha. — Você ficou lá fora, bonito, fazendo reverência. Eu desci como se estivesse entrando num tribunal. — Você é o tribunal, primo. — Matthias provocou. — Herdeiro, lembra? Nicholas revirou os olhos. — Não me lembra disso agora. — suspirou. — Tô oficialmente de mau humor desde que botei essa farda. Matthias olhou de lado, avaliando-o. — Tá reclamando, mas tá impecável. — deu um meio sorriso. — O povo vai surtar. — Ótimo. — Nicholas fez uma careta. — Mais gente me olhando como se eu fosse uma estátua. O carro avançava em silêncio pela estrada branca. O som abafado da neve sob os pneus era quase hipnótico. Matthias observava em silêncio, encostado com naturalidade no banco oposto. Então sorriu de canto. — Você viu a cara do seu pai? Nicholas abriu um olho. — Qual delas? A de rei contrariado ou a de pai decepcionado? — As duas — Matthias respondeu, rindo baixo. — Ele tá mais tenso do que quando a gente era adolescente e quase derrubou aquela tapeçaria histórica do salão leste. Nicholas soltou uma risada curta. — Aquilo não foi culpa minha. — Foi totalmente culpa sua. — Foi culpa sua também. — Mas você me empurrou. Eles trocaram um olhar cúmplice, daqueles que só quem compartilhou infância e castelo sabe trocar. Nicholas ajeitou a farda, claramente incomodado. — Odeio essa roupa. — Continua odiando sete anos depois — Matthias provocou. — Odeio ainda mais agora. — bufou. — Antes eu pelo menos fingia que fazia sentido. Matthias inclinou a cabeça, analisando o primo com mais atenção. — Você voltou diferente. Nicholas franziu a testa. — Diferente como? — Mais irritado. — respondeu. — E isso vindo de você... é quase um evento histórico. — Obrigado pela parte que me toca. Matthias riu. — Não, sério. — continuou. — E não é só por causa do meu tio. — fez uma pausa curta. — Tem mais coisa aí. Nicholas desviou o olhar para a janela, observando a neve acumulada na estrada. — Tem. — Imaginei. — Matthias disse, tranquilo. — E eu não vou perguntar agora. Nicholas arqueou uma sobrancelha. — Milagre. — Não sou suicida. — Matthias sorriu. — Você tá com cara de quem morde se alguém cutucar demais. Nicholas soltou uma risada baixa. — Tem muita coisa pra te contar. — Ótimo. — Matthias respondeu. — Gosto quando você começa frases assim. Geralmente significa confusão. — Vai por mim — Nicholas murmurou. — Dessa vez é mais do que o normal. O castelo começava a surgir à frente, imponente, cercado pela neve. Matthias suspirou. — Bom... — disse, esticando o pescoço de leve — aproveita esses últimos segundos de liberdade. Daqui a pouco tem funcionário para todo lado. Nicholas fechou os olhos por um instante. — d***a. Matthias sorriu. — Bem-vindo de volta, primo. Nicholas abriu os olhos e respondeu, irônico: — Que alegria.
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