Capítulo 41

1619 Words
A música começou suave, guiando o ritmo antes mesmo que Sophie percebesse. Nicholas a conduziu até o centro da pista com naturalidade, como se aquele espaço tivesse sido feito para recebê-los. Parou diante dela, próximo o bastante para que ela sentisse o perfume dele, longe o suficiente para não chamar atenção indevida. — Confia em mim. — murmurou, baixo, só para ela ouvir. Sophie respirou fundo e assentiu. — Tá... — respondeu, nervosa. Ele sorriu. — Primeiro... — disse, aproximando-se um pouco mais — seu braço vem aqui. Guiou a mão dela com cuidado, colocando-a sobre o ombro dele. — Isso. Relaxado. — completou. — O outro fica na minha mão. Entrelaçou os dedos aos dela com firmeza gentil, como se dissesse eu não vou soltar. — E agora... — ele inclinou o rosto, aproximando-se um pouco mais — olha para mim. Sophie ergueu os olhos. E o nervosismo diminuiu no mesmo instante. — Não pensa nos passos. — Nicholas continuou. — Só me acompanha. Eu te conduzo. A música avançou, e ele deu o primeiro passo, puxando-a com leveza. Sophie hesitou por meio segundo... e então deixou o corpo seguir o dele. — Viu? — ele murmurou. — Já está dançando. — Não conta pra ninguém. — ela respondeu, sorrindo. Ele riu baixo. — Postura. — corrigiu, com carinho. — Isso... perfeita. Girou-a devagar, controlando o movimento para que ela não se perdesse. Sophie riu, surpresa por não ter tropeçado. — Você está indo muito bem. — elogiou. — De verdade. — Você diz isso pra todas. — ela provocou. — Não. — ele respondeu, sincero. — Só para você. Os passos se encaixaram aos poucos. Sophie parou de pensar nos pés, no salão, nos olhares. Passou a ouvir apenas a música... e a respiração dele perto demais. — Assim. — Nicholas murmurou. — Segue o ritmo comigo. Ela se deixou conduzir. E, de repente, estava dançando. O sorriso surgiu sem que percebesse, aberto, leve. Nicholas a acompanhava com o mesmo sorriso tranquilo, o olhar preso ao dela como se o resto do salão tivesse desaparecido. Na mesa real, Eleanor observava em silêncio, os olhos brilhando. — Eles combinam. — comentou, baixa. — Muito. — Matthias concordou. — Olha o sorriso dos dois. Edmund assentiu, atento. — E ela está dançando bem. — acrescentou. — Melhor do que esperava. — Porque está com ele. — Eleanor disse, simples. Katarina suspirou, o olhar preso aos dois no centro da pista. — Tomara que meu pai seja compreensivo. — murmurou. — Eu não quero ficar no meio desses dois. Edmund pousou a mão sobre a dela, num gesto paternal. — Estamos todos rezando por esse milagre, Katarina. De volta à pista, Nicholas inclinou-se um pouco mais perto. — Eu te disse que não ia deixar você cair. — murmurou. — Ainda bem. — Sophie respondeu, rindo. — Porque agora... eu até que estou gostando disso. Ele sorriu, orgulhoso. — Eu sabia que ia gostar. E, enquanto rodopiavam lentamente sob a luz do salão, não havia príncipe, nem estrangeira, nem acordo político. Havia apenas dois corações batendo no mesmo compasso. Quando a música terminou, Nicholas conduziu Sophie de volta à mesa real, a mão ainda firme na dela por alguns passos a mais do que o protocolo exigia. Por um instante raro, tudo pareceu simples. Eles conversaram. Nada cerimonioso. Nada pesado. Eleanor perguntou se Sophie tinha gostado da dança; Matthias comentou algo sobre como o salão finalmente parecia uma festa de verdade. Nicholas brincou dizendo que havia sobrevivido sem nenhum pé esmagado, o que arrancou risadas. Por alguns minutos, o mundo ficou em suspenso. Até que alguém se aproximou. — Com licença. O homem parou a uma distância respeitosa, fez uma reverência impecável ao rei e à rainha, depois repetiu o gesto para Nicholas, Matthias e Katarina. Era jovem, elegante, dono de uma postura segura que não precisava se anunciar. Trajava um terno de gala discreto e caro, o tipo de roupa que não chama atenção, mas impõe respeito. Edmund ergueu o olhar e o reconheceu de imediato. — Conde von Arkenwald. — Majestade. — Leopold respondeu, com um leve sorriso contido. Os olhos dele então se voltaram para Sophie. — Peço perdão pela interrupção. — disse. — Seria uma honra convidar a dama para uma dança. E estendeu a mão. Para Sophie. O maxilar de Nicholas travou no mesmo instante. Não foi sutil. Nem um pouco. Matthias desviou o olhar, mordendo o lábio para conter o riso. Sophie piscou, surpresa. Por um segundo breve, não soube o que fazer. O olhar dela buscou Nicholas, rápido demais para ser um pedido, lento demais para ser só reflexo. Depois, voltou-se para o rei. Edmund encontrou o olhar dela e fez um leve meneio de cabeça. Vá. O que ela poderia dizer? Recusar seria deselegante. Aceitar era o esperado. Sophie sorriu para o conde. — Claro. — respondeu, educada. — Será um prazer. Pousou a mão na dele. E seguiu para a pista de dança. Nicholas permaneceu imóvel por um segundo a mais do que devia. — Audacioso. — murmurou, enfim. — Muito audacioso, esse conde von Arkenwald. — Jovem, rico e bonito também. — Matthias comentou, divertido. Edmund observava a pista com calma experiente. — Até agora, ela estava aqui conosco. — disse. — No canto. Em anonimato. Nicholas não respondeu. — Você dançou com ela. — o rei continuou. — Você a mostrou ao salão. Fez uma pausa breve. — E convenhamos... ela está belíssima. Quem não haveria de querer dançar com ela? Nicholas apertou a mandíbula. Não conseguia tirar os olhos dos dois. Sophie ria de algo que Leopold dizia. A postura dela estava mais solta agora, os passos seguros demais para quem dizia não saber dançar. O conde conduzia bem. Eles giravam com leveza, o vestido dela desenhando movimentos suaves sob a luz do salão. — Ele está gostando dela. — Matthias comentou, baixo. — Ele está gostando da companhia. — Eleanor corrigiu, serena. — Ela continua olhando para o Nicholas mesmo quando ri. Nicholas viu. Viu quando Sophie girou. Viu quando voltou a sorrir. Viu quando, mesmo distante, o olhar dela o procurou por um instante. ** A música seguia suave quando Sophie percebeu, aos poucos, que estava rindo com mais facilidade do que esperava. O conde Leopold von Arkenwald conduzia com segurança tranquila. Não havia pressa em seus passos, nem tensão em sua postura. Ele dançava bem, não com a precisão ensaiada de quem aprendeu desde a infância para exibições oficiais, mas com uma naturalidade confortável, quase despretensiosa. — Você aprende rápido. — ele comentou, com um sorriso leve, depois de um giro bem-sucedido. — Não parece alguém que "não sabe dançar". Sophie riu, balançando a cabeça. — Você está sendo gentil. — respondeu. — Só isso. — Talvez. — Leopold concedeu. — Mas gentileza não costuma fazer alguém se mover assim tão à vontade. Ela não soube exatamente o que responder. A verdade era que não estava completamente à vontade. Não como estivera com Nicholas. Mas também não estava desconfortável. Leopold mantinha a distância correta, o toque preciso, o olhar respeitoso. Conversava com facilidade, fazia comentários espirituosos sobre a música, sobre o salão, sobre pequenas situações da noite que arrancavam dela risadas espontâneas, aquelas que Nicholas via de longe e que, sem contexto, podiam dizer mais do que realmente diziam. — Confesso que esperava uma noite mais... rígida. — ele comentou em certo momento. — Mas você torna tudo menos formal do que parece. — Acho que não sei ser outra coisa. — Sophie respondeu, sincera. E era verdade. Ela dançava, sorria, respondia. Mas em algum lugar silencioso dentro de si, Nicholas estava ali o tempo todo. Como uma presença constante, quase física. Pensava nele vendo aquela cena. Pensava no que ele poderia estar sentindo. Pensava se deveria estar ali. Quando a música chegou ao fim, Leopold não soltou a mão dela imediatamente. Não por ousadia, apenas pelo tempo exato que o gesto permitia sem parecer errado. — Posso ser ainda mais gentil? — perguntou, com educação impecável. Sophie ergueu os olhos, curiosa. — Como? — Convidando você para uma bebida. — respondeu. — Prometo uma conversa tão inofensiva quanto esta dança. Ela hesitou. Foi breve. Quase imperceptível para qualquer um que observasse de fora. Mas, por dentro, Sophie sentiu o aperto conhecido no peito. Pensou em Nicholas. Pensou no olhar dele mais cedo. No sorriso que só existia para ela. Pensou que não devia. Pensou que talvez devesse recusar. Mas... como? Como explicar que não podia aceitar porque amava um príncipe comprometido? Como dizer não sem parecer descortês, sem chamar atenção, sem quebrar o delicado equilíbrio social que tentava sustentar desde que entrara naquele salão? — Claro. — disse, afinal, com um sorriso educado. — Podemos ir. Leopold pareceu genuinamente satisfeito. Colocou a mão com cuidado nas costas dela, num gesto correto, distante de qualquer i********e excessiva, apenas guiando-a para fora da pista. Sophie acompanhou, sentindo o peso invisível da escolha, não como culpa, mas como consciência. Caminharam lado a lado. Conversaram sobre coisas simples. Ele contou uma história leve sobre uma situação constrangedora em um baile anterior; Sophie riu, surpresa por se sentir tão... normal ali. Não havia tensão. Não havia jogo. Apenas duas pessoas trocando palavras enquanto o salão girava ao redor. E ainda assim, em meio às risadas, o olhar dela escapava. Procurava, mesmo sem querer, por Nicholas. Como se precisasse confirmar que ele ainda estava ali. Que ainda a via. Que, apesar daquela dança, daquela bebida que se aproximava, aquilo tudo ainda tinha um centro e não era o conde. Amar Nicholas, Sophie percebeu naquele instante, não significava se esconder do mundo. Mas significava sentir o mundo inteiro através dele.
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