O quarto estava quieto demais.
O ar ainda carregava o calor recente dos corpos, mas agora havia algo diferente ali, um silêncio espesso, desconfortável, como se o mundo tivesse retomado o peso depois de alguns minutos de suspensão.
Nicholas estava deitado de costas, o peito subindo e descendo devagar, ainda ofegante. Não parecia nem um pouco preocupado em se cobrir. A nudez nele tinha algo quase inconsciente, como se ainda não tivesse voltado completamente à realidade.
Sophie, ao contrário, puxou o lençol para si assim que conseguiu respirar direito. Enrolou-se nele por instinto, sentando-se um pouco mais afastada, o olhar perdido em algum ponto do quarto.
Ele virou o rosto para ela.
Observou.
E então quebrou o silêncio.
— Vem comigo.
A frase saiu baixa. Não havia ordem nela. Nem urgência teatral. Era um pedido cru, quase cansado.
Sophie se mexeu devagar e se virou de lado, ficando de frente para ele. Nicholas fez o mesmo, apoiando a cabeça no braço, finalmente sentindo a necessidade de puxar um lençol e cobrir parte do corpo.
— Eu não posso ir — ela disse.
Ele franziu a testa.
— Não pode? — repetiu. — Por quê, Sophie? — a voz dele suavizou. — Por que é tão difícil assim? O que te prende aqui?
Ela suspirou fundo antes de responder.
— Eu não posso te ver se casar com outra mulher — disse, simples. — Eu gosto de você, Nicholas. Não percebeu?
Ele soltou um meio sorriso triste.
— Percebi. — olhou entre eles, para a cama ainda bagunçada. — Olha o que a gente acabou de fazer.
Ela bufou, desviando o olhar.
— t*****r não é nada demais — disse, defensiva. — Não precisa gostar pra t*****r. Basta sentir atração.
Nicholas balançou a cabeça devagar.
— Não é o nosso caso. — falou com calma. — Eu também gosto de você, Sophie. Eu sei que eu tô confuso... e tudo bem você também estar. Foi tudo do nada, rápido demais, como a gente já falou.
Ela fechou os olhos por um instante.
— Eu sei. Mas você não vai entender. — abriu os olhos de novo, encarando-o. — Se esse acordo não for desfeito... se eu estiver lá... se eu passar a amar você... — a voz falhou por um segundo — assistir você se casar com a princesa perfeita, poliglota e virgem vai me quebrar.
Ele ficou em silêncio.
— Eu prefiro que você vá enquanto eu ainda só gosto de você — continuou. — Do que criar esperança.
Respirou fundo, deixando tudo sair de uma vez:
— Você é a d***a de um príncipe herdeiro do trono. Eu sou uma brasileira sem família, sem estudo... e agora sem emprego também.
Nicholas puxou outro lençol e se sentou, cobrindo-se dessa vez. O gesto não foi por vergonha, foi para conseguir pensar.
Olhou para a mão esquerda.
Para o anel.
— Eu sei o que eu sou — disse. — Esse anel aqui não me deixa esquecer. — ergueu o olhar para ela. — Mas isso não me impede de querer você. Esse noivado vai ser desfeito, Sophie.
Ela bufou.
— Tá. Digamos que seja. — inclinou a cabeça. — E aí?
Ele piscou.
— E aí... a gente assume que estamos juntos.
Sophie riu.
Riu de verdade. Um riso quase incrédulo.
— Você é muito maluco, Nicholas. — disse, ainda rindo. — Você acha mesmo que as pessoas em Auren vão me aceitar? Que o povo vai querer uma estrangeira como rainha deles? Você acha que eu vou ser respeitada?
O riso morreu aos poucos.
— Eles querem a Katarina. Não eu. E você sabe disso.
Nicholas se levantou e deu a volta na cama, parando à frente dela.
— E você acha que eu ligo tanto assim para essa gente?
Ela o olhou séria.
— Devia. — respondeu. — É o seu povo. Seu dever. Sua obrigação.
Ele passou a mão pelo rosto, exausto.
— Por favor, Sophie. — aproximou-se dela, diminuindo a distância. — Considera ao menos conhecer. Só isso. — os olhos dele estavam sinceros demais. — Eu te juro que no instante em que você disser que quer ir embora, eu compro uma passagem e te levo até o aeroporto. Juro.
Ela o encarou, cansada.
— Tem certeza disso mesmo?
— Tenho. — respondeu sem hesitar. — Eu não vou te manter lá contra a sua vontade. Se quiser, eu deixo o dinheiro com você. Você compra a passagem quando quiser. Não precisa nem falar comigo.
Ela suspirou fundo, deixando o corpo cair um pouco sobre o colchão.
— Eu não quero ficar longe de você também — confessou. — Mas você precisa entender o quanto isso é difícil pra mim.
Nicholas assentiu.
— Eu entendo. — disse. — Mas a gente precisa tentar. Pelo menos tentar.
O silêncio voltou.
Dessa vez, não como antes.
Era um silêncio cheio de medo... e de possibilidade.
Sophie respirou fundo.
Por alguns segundos, ficou apenas olhando para ele, como se ainda estivesse pesando o tamanho da loucura que estava prestes a cometer.
Então assentiu.
— Tudo bem, Nicholas. — disse, enfim. — Eu vou com você.
O sorriso que se abriu no rosto dele foi imediato. Largo. Aliviado. Quase juvenil.
— Sério? — perguntou, como se precisasse ouvir de novo.
— Sério — ela confirmou. — Mas com uma condição.
O sorriso dele não diminuiu.
— Qualquer coisa.
— Eu quero o dinheiro da passagem comigo. — disse, firme. — Para voltar a hora que eu quiser. Sem depender de você.
Nicholas assentiu sem hesitar.
— Fechado. Assim que a gente chegar, eu te entrego. Em espécie.
Ela arqueou a sobrancelha.
— Em espécie?
— Dinheiro de Auren. — explicou. — Aurenas.
Sophie soltou uma risada desacreditada.
— Isso é uma loucura.
— É mesmo — ele riu, agora claramente mais leve. — Mas você vai ver. Vai gostar.
Deu um passo à frente, o olhar mudando de novo, ficando perigoso.
— Em público, a gente vai seguir alguns protocolos... — murmurou.
Antes que ela pudesse responder, ele a segurou pela cintura e a jogou de volta na cama com facilidade.
— No privado — completou — você é minha.
Sophie soltou um gritinho de susto, que virou riso na mesma hora.
— Ah, então eu virei sua amante, doutor?
Nicholas parou, pensativo.
— É... — inclinou a cabeça — tipo isso.
Ela fez uma careta exagerada.
— Nossa, que coisa h******l. Eu não quero ser amante.
— Não vai ser por muito tempo — ele garantiu. — Confia no meu pai e no poder de persuasão dele. Ele vai me livrar desse compromisso.
Ela suspirou.
— Tá.
O clima suavizou de vez.
— Passaporte você tem? — ele perguntou, já entrando no modo prático.
— Tenho.
— Ótimo — sorriu. — Sem burocracia.
— Não precisa de visto?
Nicholas bufou.
— Visto, Sophie? Você vai com a comitiva do próprio rei. Pra quê visto?
Ela caiu na risada.
— Eu sei que já disse um milhão de vezes, mas isso é maluquice demais.
Saiu debaixo dele e começou a se vestir. De repente, parou no meio do quarto.
— Nicholas... você mandou eu parar de me importar com roupas, mas olha isso.
Abriu o armário e começou a jogar peças sobre a cama: bermudinhas, croppeds, bodys decotados.
— O que eu vou fazer com isso tudo?
Nicholas riu.
— Eu já te disse. Roupa é o menor dos nossos problemas.
Ela abriu uma gaveta, puxou uma calcinha fio dental e ergueu no ar.
Nicholas abriu a boca... mas não conseguiu dizer nada.
Sophie gargalhou e jogou a peça para ele. Nicholas pegou, cheirou sem nenhum pudor e sorriu, completamente perdido.
— Você bem que podia levar isso aqui — comentou. — Não tem nada nem parecido com isso naquele lugar.
— Pode deixar — ela riu. — Vou colocar alguns na mala, Alteza.
Ele riu junto, feliz demais para disfarçar.
Enquanto se vestia, começou a organizar tudo em voz alta:
— A gente vai fazer assim: hoje vamos ao shopping comprar algumas peças. Só algumas. — fez uma careta. — Nada do que você tem é a cara de Auren. Quando chegarmos lá, a costureira da minha mãe faz uns vestidos para você.
Sophie arregalou os olhos.
— A costureira da rainha? — riu. — Você tá louco, Nicholas?
— Você viu — ele deu de ombros — eles são só pessoas normais. Minha mãe vai fazer questão.
Ela sorriu, tocada.
— Eles gostaram de mim?
— Gostaram. — afirmou. — Se não tivessem gostado, meu pai nem cogitaria te levar. Inclusive... — riu — ele me deu dinheiro para renovar seu guarda-roupa.
Sophie o encarou, incrédula.
— Você pediu dinheiro pro rei pra comprar roupas pra mim?
— Para o meu pai — corrigiu. — Não para o rei. Tem diferença.
Ela riu.
— Tem mesmo. Dá pra perceber. Ele fica muito mais sério quando tá no modo rei.
Nicholas assentiu.
— Meu pai é divertido. Com ele dá pra falar de tudo. Agora... o rei...
— Igualzinho a você — ela provocou.
— Eu não sou assim.
— É sim — ela insistiu. — Bastou entrar na mansão. Sua postura mudou, os gestos ficaram contidos, o sorriso sumiu. Você fica sério demais no modo Vossa Alteza Real.
Ele sorriu de canto.
— Então a senhorita não gosta do príncipe?
Ela pensou um segundo.
— Sinceramente? — respondeu. — Eu prefiro meu chefe veterinário.
Nicholas riu alto.
— É uma pena — disse, aproximando-se dela — que eu não possa ser só ele.
Mas, naquele momento, ele parecia disposto a tentar.