Capítulo 17

1604 Words
O quarto estava quieto demais. O ar ainda carregava o calor recente dos corpos, mas agora havia algo diferente ali, um silêncio espesso, desconfortável, como se o mundo tivesse retomado o peso depois de alguns minutos de suspensão. Nicholas estava deitado de costas, o peito subindo e descendo devagar, ainda ofegante. Não parecia nem um pouco preocupado em se cobrir. A nudez nele tinha algo quase inconsciente, como se ainda não tivesse voltado completamente à realidade. Sophie, ao contrário, puxou o lençol para si assim que conseguiu respirar direito. Enrolou-se nele por instinto, sentando-se um pouco mais afastada, o olhar perdido em algum ponto do quarto. Ele virou o rosto para ela. Observou. E então quebrou o silêncio. — Vem comigo. A frase saiu baixa. Não havia ordem nela. Nem urgência teatral. Era um pedido cru, quase cansado. Sophie se mexeu devagar e se virou de lado, ficando de frente para ele. Nicholas fez o mesmo, apoiando a cabeça no braço, finalmente sentindo a necessidade de puxar um lençol e cobrir parte do corpo. — Eu não posso ir — ela disse. Ele franziu a testa. — Não pode? — repetiu. — Por quê, Sophie? — a voz dele suavizou. — Por que é tão difícil assim? O que te prende aqui? Ela suspirou fundo antes de responder. — Eu não posso te ver se casar com outra mulher — disse, simples. — Eu gosto de você, Nicholas. Não percebeu? Ele soltou um meio sorriso triste. — Percebi. — olhou entre eles, para a cama ainda bagunçada. — Olha o que a gente acabou de fazer. Ela bufou, desviando o olhar. — t*****r não é nada demais — disse, defensiva. — Não precisa gostar pra t*****r. Basta sentir atração. Nicholas balançou a cabeça devagar. — Não é o nosso caso. — falou com calma. — Eu também gosto de você, Sophie. Eu sei que eu tô confuso... e tudo bem você também estar. Foi tudo do nada, rápido demais, como a gente já falou. Ela fechou os olhos por um instante. — Eu sei. Mas você não vai entender. — abriu os olhos de novo, encarando-o. — Se esse acordo não for desfeito... se eu estiver lá... se eu passar a amar você... — a voz falhou por um segundo — assistir você se casar com a princesa perfeita, poliglota e virgem vai me quebrar. Ele ficou em silêncio. — Eu prefiro que você vá enquanto eu ainda só gosto de você — continuou. — Do que criar esperança. Respirou fundo, deixando tudo sair de uma vez: — Você é a d***a de um príncipe herdeiro do trono. Eu sou uma brasileira sem família, sem estudo... e agora sem emprego também. Nicholas puxou outro lençol e se sentou, cobrindo-se dessa vez. O gesto não foi por vergonha, foi para conseguir pensar. Olhou para a mão esquerda. Para o anel. — Eu sei o que eu sou — disse. — Esse anel aqui não me deixa esquecer. — ergueu o olhar para ela. — Mas isso não me impede de querer você. Esse noivado vai ser desfeito, Sophie. Ela bufou. — Tá. Digamos que seja. — inclinou a cabeça. — E aí? Ele piscou. — E aí... a gente assume que estamos juntos. Sophie riu. Riu de verdade. Um riso quase incrédulo. — Você é muito maluco, Nicholas. — disse, ainda rindo. — Você acha mesmo que as pessoas em Auren vão me aceitar? Que o povo vai querer uma estrangeira como rainha deles? Você acha que eu vou ser respeitada? O riso morreu aos poucos. — Eles querem a Katarina. Não eu. E você sabe disso. Nicholas se levantou e deu a volta na cama, parando à frente dela. — E você acha que eu ligo tanto assim para essa gente? Ela o olhou séria. — Devia. — respondeu. — É o seu povo. Seu dever. Sua obrigação. Ele passou a mão pelo rosto, exausto. — Por favor, Sophie. — aproximou-se dela, diminuindo a distância. — Considera ao menos conhecer. Só isso. — os olhos dele estavam sinceros demais. — Eu te juro que no instante em que você disser que quer ir embora, eu compro uma passagem e te levo até o aeroporto. Juro. Ela o encarou, cansada. — Tem certeza disso mesmo? — Tenho. — respondeu sem hesitar. — Eu não vou te manter lá contra a sua vontade. Se quiser, eu deixo o dinheiro com você. Você compra a passagem quando quiser. Não precisa nem falar comigo. Ela suspirou fundo, deixando o corpo cair um pouco sobre o colchão. — Eu não quero ficar longe de você também — confessou. — Mas você precisa entender o quanto isso é difícil pra mim. Nicholas assentiu. — Eu entendo. — disse. — Mas a gente precisa tentar. Pelo menos tentar. O silêncio voltou. Dessa vez, não como antes. Era um silêncio cheio de medo... e de possibilidade. Sophie respirou fundo. Por alguns segundos, ficou apenas olhando para ele, como se ainda estivesse pesando o tamanho da loucura que estava prestes a cometer. Então assentiu. — Tudo bem, Nicholas. — disse, enfim. — Eu vou com você. O sorriso que se abriu no rosto dele foi imediato. Largo. Aliviado. Quase juvenil. — Sério? — perguntou, como se precisasse ouvir de novo. — Sério — ela confirmou. — Mas com uma condição. O sorriso dele não diminuiu. — Qualquer coisa. — Eu quero o dinheiro da passagem comigo. — disse, firme. — Para voltar a hora que eu quiser. Sem depender de você. Nicholas assentiu sem hesitar. — Fechado. Assim que a gente chegar, eu te entrego. Em espécie. Ela arqueou a sobrancelha. — Em espécie? — Dinheiro de Auren. — explicou. — Aurenas. Sophie soltou uma risada desacreditada. — Isso é uma loucura. — É mesmo — ele riu, agora claramente mais leve. — Mas você vai ver. Vai gostar. Deu um passo à frente, o olhar mudando de novo, ficando perigoso. — Em público, a gente vai seguir alguns protocolos... — murmurou. Antes que ela pudesse responder, ele a segurou pela cintura e a jogou de volta na cama com facilidade. — No privado — completou — você é minha. Sophie soltou um gritinho de susto, que virou riso na mesma hora. — Ah, então eu virei sua amante, doutor? Nicholas parou, pensativo. — É... — inclinou a cabeça — tipo isso. Ela fez uma careta exagerada. — Nossa, que coisa h******l. Eu não quero ser amante. — Não vai ser por muito tempo — ele garantiu. — Confia no meu pai e no poder de persuasão dele. Ele vai me livrar desse compromisso. Ela suspirou. — Tá. O clima suavizou de vez. — Passaporte você tem? — ele perguntou, já entrando no modo prático. — Tenho. — Ótimo — sorriu. — Sem burocracia. — Não precisa de visto? Nicholas bufou. — Visto, Sophie? Você vai com a comitiva do próprio rei. Pra quê visto? Ela caiu na risada. — Eu sei que já disse um milhão de vezes, mas isso é maluquice demais. Saiu debaixo dele e começou a se vestir. De repente, parou no meio do quarto. — Nicholas... você mandou eu parar de me importar com roupas, mas olha isso. Abriu o armário e começou a jogar peças sobre a cama: bermudinhas, croppeds, bodys decotados. — O que eu vou fazer com isso tudo? Nicholas riu. — Eu já te disse. Roupa é o menor dos nossos problemas. Ela abriu uma gaveta, puxou uma calcinha fio dental e ergueu no ar. Nicholas abriu a boca... mas não conseguiu dizer nada. Sophie gargalhou e jogou a peça para ele. Nicholas pegou, cheirou sem nenhum pudor e sorriu, completamente perdido. — Você bem que podia levar isso aqui — comentou. — Não tem nada nem parecido com isso naquele lugar. — Pode deixar — ela riu. — Vou colocar alguns na mala, Alteza. Ele riu junto, feliz demais para disfarçar. Enquanto se vestia, começou a organizar tudo em voz alta: — A gente vai fazer assim: hoje vamos ao shopping comprar algumas peças. Só algumas. — fez uma careta. — Nada do que você tem é a cara de Auren. Quando chegarmos lá, a costureira da minha mãe faz uns vestidos para você. Sophie arregalou os olhos. — A costureira da rainha? — riu. — Você tá louco, Nicholas? — Você viu — ele deu de ombros — eles são só pessoas normais. Minha mãe vai fazer questão. Ela sorriu, tocada. — Eles gostaram de mim? — Gostaram. — afirmou. — Se não tivessem gostado, meu pai nem cogitaria te levar. Inclusive... — riu — ele me deu dinheiro para renovar seu guarda-roupa. Sophie o encarou, incrédula. — Você pediu dinheiro pro rei pra comprar roupas pra mim? — Para o meu pai — corrigiu. — Não para o rei. Tem diferença. Ela riu. — Tem mesmo. Dá pra perceber. Ele fica muito mais sério quando tá no modo rei. Nicholas assentiu. — Meu pai é divertido. Com ele dá pra falar de tudo. Agora... o rei... — Igualzinho a você — ela provocou. — Eu não sou assim. — É sim — ela insistiu. — Bastou entrar na mansão. Sua postura mudou, os gestos ficaram contidos, o sorriso sumiu. Você fica sério demais no modo Vossa Alteza Real. Ele sorriu de canto. — Então a senhorita não gosta do príncipe? Ela pensou um segundo. — Sinceramente? — respondeu. — Eu prefiro meu chefe veterinário. Nicholas riu alto. — É uma pena — disse, aproximando-se dela — que eu não possa ser só ele. Mas, naquele momento, ele parecia disposto a tentar.
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