Capítulo — Rainha de vidro.
" Se quer derrotar alguém o golpe precisa ser certeiro, sem erros."
Rafaelo
O dia amanhece sob um céu de um azul metálico, o sol de inverno de Paris brilhando com uma luz fria que não aquece, apenas ilumina as arestas das coisas. Exatamente como eu.
Estou parado diante do espelho, ajustando os punhos da camisa de seda grafite. A prótese da mão esquerda está perfeitamente acomodada sob a manga, imóvel, um segredo de metal sob a pele de tecido caro. Olho para o meu reflexo e não vejo o filho órfão de Salvatore; vejo Lucca Boldrini. Um nome comum, sem peso, sem passado, uma máscara perfeita para esconder o lobo que sou.
Eu não posso ser Rafaelo. Para ela, para Paris, para o mundo que respira fora das sombras, eu sou Lucca, um investidor de arte e tecnologia com sangue italiano e um mistério que mulheres da idade dela confundem com charme. Se o nome Rafaelo chegasse aos ouvidos de Dante, a guerra explodiria antes de eu ter minha rainha em mãos. E eu quero que ele veja o golpe apenas quando a faca já estiver enterrada até o cabo.
O local escolhido para o nosso encontro é o "Le Jardin d'Hiver", um café escondido em um pátio interno na Rue du Faubourg Saint-Honoré. É um lugar de vidro e plantas exóticas, onde o som da fonte de água abafa as conversas alheias. É íntimo. É uma armadilha dourada.
Eu chego primeiro. Quero que ela entre e me encontre já senhor do ambiente.
Poucos minutos se passam. Até que ela surge na entrada, meu coração não falha, mas minha mente registra a precisão do ataque. Rosália está deslumbrante em um vestido de tricô cor de vinho, sob um casaco longo cinza claro. O rosto está levemente corado pelo frio da rua, e o coque de ontem deu lugar a uma cascata de cabelos castanhos que balançam conforme ela caminha, procurando por mim.
Eu me levanto. O movimento é fluido, calculado.
— Você veio — digo, minha voz saindo como uma nota grave de violoncelo.
Enzo é perfeito nessa questão de horários, ele sabe que atrasos me irritam. Trouxe a menina no tempo que estipulei.
Ela sorri, e há uma timidez genuína naquele gesto que me dá náuseas se eu parar para pensar na inocência que estou prestes a triturar.
Rosália se aproxima seus passos mostram o vacilo normal para sua pouca idade.
— Eu disse que viria... Lucca — ela responde, testando o nome falso.
A observo por alguns minutos. Suas maçãs coram absurdamente pela timidez.
— Sente-se, por favor.
Deslizo a cadeira para ela com a precisão de um mestre de cerimônias, usando apenas a mão direita. A esquerda? Ah, essa permanece enterrada no bolso do meu sobretudo — que repousa com um desleixo meticulosamente planejado sobre o encosto do meu lugar. É um toque de casualidade estudada; não quero parecer que estou me esforçando demais, mesmo que cada milímetro do meu movimento tenha sido ensaiado diante do espelho.
Mantenho o olhar fixo nela, aquele brilho de atenção absoluta que faz qualquer mulher se sentir o centro de um universo particular. Sou o ápice da cortesia, o último bastião do bom gosto em um mundo de brutamontes.
O Detalhe é um leve inclinar de cabeça.
Sem deixar desvanecer o sorriso, aquele que não chega aos olhos, mas que ela, em sua doce ingenuidade, jura ser sincero.
Afirmo para mim mesmo: é assim que se ganha o jogo. As conquistas não são feitas de grandes gestos heroicos, mas dessas pequenas migalhas de etiqueta que elas devoram como se fossem banquetes.
"Toda mulher nutre essa fantasia arcaica de encontrar um príncipe. " — penso, enquanto observo Rosália se acomodar.
"Pois bem, eu darei a ela o roteiro completo. O cavalo branco, a armadura reluzente... só vou omitir o detalhe de que a armadura está oca e o 'reino' é um labirinto de espelhos."
É quase cômico. Ela busca o herói do conto de fadas, e eu entrego a performance da minha vida. Vou servir o príncipe que ela tanto deseja em uma bandeja de prata, garantindo que ela não perceba o gosto do veneno até que já tenha terminado a sobremesa.
Ela se senta, e o perfume de baunilha que senti ao me aproximar dela ontem invade meu espaço pessoal. É o cheiro da casa dos Grecco. O cheiro do que eu vou destruir.
— Você parece diferente da luz de ontem — ela observa, os olhos esmeralda me percorrendo com uma curiosidade elétrica. — Mais... sério.
— A vida exige seriedade em Paris, pequena. Mas, com você, sinto que posso abrir uma exceção — minto, deslizando o veneno com a facilidade de um mestre. — O que uma bailarina tão talentosa faz tão longe da ensolarada Itália?
Ela arregala os olhos, surpresa.
— Como sabe que sou italiana? E que sou bailarina?
— O seu sotaque é um segredo m*l guardado, princesa. E a sua postura... — Faço um gesto vago com a mão. — Apenas uma bailarina carrega o mundo com essa leveza nos pés. Além disso, eu gosto de saber com quem tomo meu café.
Ela ri, um som cristalino que ecoa pelo pátio.
— Você estudou a minha vida, Lucca?
— Não digo estudar, apenas gosto de saber de "coisas" que ganham a minha atenção. – digo e dou uma piscadela para Rosália que desvia o olhar segurando um sorriso afetado no rosto.
— O que você faz? Além de observar as pessoas e ser atingido por cappuccinos? — pergunta tentando soar natural, mas é tudo o que não está acontecendo.
— Eu coleciono coisas raras — respondo, fixando meu olhar no dela com uma intensidade que a faz desviar o rosto por um segundo, nervosa. — Peças únicas que ninguém mais consegue apreciar o valor.
Passo a hora seguinte tecendo a teia com paciência cirúrgica. Não falo de mim; faço com que ela fale. Abro espaço, silencio minhas urgências, e deixo que as palavras dela encontrem caminho. Aos poucos, emergem as solidões — aquelas que não cabem em salas cheias —, o peso de existir à sombra de um homem poderoso, sempre protegida e nunca escolhida. Ela fala do cansaço de ser tratada como ornamento, como joia exposta sob luzes frias, admirada e, ainda assim, intocável naquilo que importa.
Eu escuto. Escuto de verdade. Nomeio o que ela sente antes que ela mesma consiga, e nisso ela se reconhece. Ofereço compreensão sem pressa, atenção sem barganha. Apresento-me como quem entende as entrelinhas, como o mentor que nunca apareceu quando ela precisou, como a presença que valida sem julgar. Há também o risco — calculado, insinuado —, a promessa de atravessar limites com consciência, o gosto do perigo que ela sempre quis provar sem admitir.
Peço apenas uma pausa para fazer os pedidos e logo em seguida digo o que ela deseja ouvir.
— Por favor, continue.
Dê a uma mulher atenção sincera e meia hora de escuta, e algo se desloca. Ela se sente acolhida, vista, inteira. As defesas baixam, não por fraqueza, mas por alívio. E então as ventosas invisíveis se fixam: não por domínio, mas pela força silenciosa de quem oferece presença. É assim que a teia se forma — fio a fio, palavra a palavra — sem violência, apenas gravidade.
O garçon traz os pedidos se retira rapidamente nos concedendo privacidade
Eu sou o espelho de tudo o que ela sente falta.
— Lucca... — ela diz, num momento de silêncio, segurando a xícara de chá com as duas mãos. — Por que sinto que já te conheço de algum lugar? É estranho. Sinto uma... conexão.
Um calafrio de triunfo percorre minha espinha. A conexão é real, Rosália. É o sangue do meu pai clamando pelo seu.
— Talvez em outra vida tenhamos sido muito próximos — sussurro, inclinando-me para frente, diminuindo a distância entre nós até que ela possa ver o abismo nos meus olhos. — Ou talvez o destino estivesse apenas esperando que você crescesse o suficiente para me encontrar.
Ela morde o lábio, completamente enfeitiçada. Ela não vê o predador; ela vê o salvador. Ela não vê o Rafaelo mutilado pela fúria; ela vê o Lucca, o homem perfeito.
Eu estendo minha mão direita sobre a mesa e, por um breve momento, toco as pontas dos seus dedos. Ela não recua. Ela se inclina para o toque.
— Rosália — digo, minha voz carregada de uma promessa sombria —, Paris pode ser um lugar muito solitário para uma menina como você. Deixe-me ser sua companhia para que sua estadia aqui seja... mais leve.
Ela sorri, e naquele momento, eu sei. Ela me entregaria a chave do seu quarto, do seu coração e da sua vida se eu pedisse agora.
Mas eu não quero apenas o corpo dela. Eu quero o consentimento. Eu quero a lei. Eu quero que, quando Dante vier buscá-la, ela mesma diga a ele que escolheu ficar com o homem que ele mais odeia no mundo.
— Eu adoraria isso — ela sussurra.
O jogo entrou na fase de xeque. Em poucos dias, ela fará dezessete anos. O Tribunal de Menores verá um casal apaixonado e um "Lucca " respeitável. Dante Grecco verá o próprio inferno.
E eu? Eu finalmente sentirei o gosto da terra sendo jogada sobre o caixão do meu inimigo.
As luzes do "Le Jardin d'Hiver" parecem vibrar ao redor de Rosália, criando uma aura que, para qualquer outro homem, seria um convite à adoração. Para mim, é apenas o realce cromático de um alvo bem posicionado. O modo como ela segura a xícara, os dedos finos e pálidos contrastando com a porcelana branca, revela a fragilidade que Dante tentou blindar com muros de concreto e fuzis. Ele esqueceu que as fortalezas mais impenetráveis caem por dentro, através de uma porta aberta por alguém que sorri e oferece compreensão.
Ela me olha com a timidez adolescente, é encantador e ao mesmo tempo revela o quanto é ingênua e está alheia ao perigo.
— Você é um mistério, Lucca — ela diz, e o som do meu nome falso em sua voz tem a doçura perigosa de um fruto envenenado. — Age como se soubesse exatamente o que estou pensando antes mesmo de eu dizer. É quase... assustador.
Estreito meu olhar com suavidade.
— O medo e o fascínio caminham juntos, Rosália — respondo, mantendo o tom de voz naquela frequência baixa que obriga o interlocutor a se inclinar para frente, invadindo involuntariamente o meu espaço.
— As coisas mais valiosas do mundo sempre carregam uma dose de perigo. O balé, por exemplo. É lindo, mas exige que você leve seu corpo ao limite da dor, não é?
Ela assente, os olhos brilhando com a validação de alguém que finalmente entende o sacrifício por trás da estética. Eu não estou apenas conversando; estou mapeando o sistema nervoso da sua psique. Cada palavra minha é um eletrodo posicionado para disparar a dopamina da aceitação.
Elogios é a forma mais fácil de destruir alguém, uma vez que a razão fica suspensa .
O café termina, mas a captura apenas começou. Ao sairmos do estabelecimento, o ar gélido de Paris nos atinge, e eu observo o leve tremor que percorre os ombros dela. É o momento da coreografia que ensaiei mentalmente mil vezes. Com a mão direita, retiro meu cachecol e o coloco ao redor do seu pescoço fino. É um gesto clássico, paternalista e protetor — o tipo de cavalheirismo que desativa qualquer alarme instintivo de preservação.
— Não posso deixar que o frio de Paris estrague a leveza do seu dia — sussurro perto do seu ouvido.
Sinto o cheiro do seu cabelo, uma mistura de flores e juventude, e por um milésimo de segundo, a imagem do meu pai, Salvatore, morrendo em cima de uma cama hospitalar , surge diante dos meus olhos. O ódio, que é meu combustível mais puro, queima o oxigênio dos meus pulmões. Eu uso essa queimação para fixar o sorriso no rosto.
Caminhamos pela calçada da Rue du Faubourg Saint-Honoré. Rosália caminha perto de mim, quase tocando meu braço direito. Ela se sente segura sob o peso do meu cachecol, sem saber que está vestindo a própria mortalha simbólica.
— Meu pai me mataria se soubesse que estou aqui e meu irmão também, foi uma luta para que eles não colocassem seguranças para me vigiar— ela confessa, soltando uma risada nervosa que tenta disfarçar a gravidade da afirmação. — Eles são... protetores. Excessivos. Às vezes sinto que vivo em uma redoma de vidro, Lucca.
— Pai como o seu costumam confundir posse com proteção — digo, escolhendo as palavras com a precisão . — Eles constroem gaiolas de ouro e se perguntam por que os pássaros param de cantar. Você não é uma joia para ficar guardada em um cofre, Rosália. Você é uma artista. Artistas precisam de liberdade. De ar. De... experiências.
Ela para de caminhar e me olha. Há uma fome em seu olhar, uma sede de ser vista como algo além da "irmã do Don". Eu sou a água que ela não sabia que precisava.
— Você me entende — ela sussurra, e a palavra "entende" carrega o peso de uma rendição total.
Neste momento, um carro preto de vidros fumê reduz a velocidade ao passar por nós. Meus sentidos entram em alerta máximo. A tensão muscular é imediata, mas invisível sob a seda da minha camisa. Reconheço o modelo. É um dos carros de apoio que Enzo mencionou. Os cães de guarda de Dante estão por perto, farejando o rastro da "bambina".
Ele jamais iria deixar Rosália largada a própria sorte.
Eu não recuo. Pelo contrário, estreito a distância entre mim e Rosália, colocando minha mão em sua cintura, guiando-a para mais perto, desafiando a lente da câmera que eu sei que está apontada para nós de algum lugar. Quero que eles registrem. Quero que as fotos cheguem à mesa de Dante. Quero que ele veja um homem elegante, um estranho sem nome, tocando o que ele considera sagrado. Quero que a semente da dúvida comece a brotar no seu jardim de certezas. Ele vai cavar e não encontra Rafaelo e sim Lucca, um homem que teve dez longos anos para ser moldado e ter uma vida falsa criada nos mínimos detalhes.
— Algum problema? — ela pergunta, notando o meu olhar fixo no trânsito.
— Nenhum. Apenas admirando como Paris fica pequena diante de você — minto, voltando minha atenção total para ela.
Paramos em frente a uma floricultura. O momento da despedida é o clímax da primeira fase. Eu poderia beijá-la agora. O convite está escrito na inclinação do seu corpo, na forma como ela morde o lábio inferior. Mas a pressa é o erro dos amadores. Eu quero que o desejo se transforme em obsessão. Quero que, ao deitar a cabeça no travesseiro hoje à noite, ela não consiga pensar em outra coisa a não ser no mistério de Lucca Boldrini.
— Eu preciso ir — ela diz, relutante. — Temos ensaio em uma hora.
— Eu sei. A disciplina é o preço da perfeição — respondo, retirando o cachecol dela, mas deixando minha mão demorar um segundo extra no contato com sua pele. — Vá, pequena borboleta. O palco te espera. Mas saiba que, a partir de hoje, você não está mais sozinha nesta cidade.
Ela me estica a mão pequena revestida por luvas, os dedos roçando os meus.
— Quando te vejo de novo?
— O destino costuma ser generoso comigo quando eu quero algo de verdade — digo, com um sorriso enigmático. — Eu te encontro, Rosália. Eu sempre encontro o que procuro.
Eu a observo seguir em frente caminhando pela calçada. Ela olha para trás uma última vez antes dos seus passos serem mais apressados. O golpe foi limpo. A infecção foi plantada.
Assim que ela desaparece de vista, minha expressão relaxa, voltando à frieza habitual. Caminho até a esquina, onde um carro cinza discreto me espera. Entro no banco de trás e encontro Enzo Barone. Ele me entrega um tablet com as fotos do encontro, tiradas por um de nossos próprios homens de outro ângulo.
— Ela está nas suas mãos, Rafaelo — Enzo diz, a voz rouca. — Mas os homens de Dante estão enviando relatórios para a Itália. Ele vai querer saber quem é "Lucca".
— Deixe que ele procure — respondo, passando as fotos de Rosália sorrindo para mim. — Minha equipe digital já criou o rastro de Lucca Boldrini. Investimentos em Londres, um apartamento em Mônaco, uma galeria de arte fantasma em Milão. Dante encontrará exatamente o que eu quero que ele veja: um bilionário excêntrico e inofensivo.
Olho para a minha mão esquerda, a prótese metálica escondida sob a luva de couro que calcei . O metal está frio, mas meu sangue está fervendo.
— Em pouco tempo ela fará dezessete anos — continuo, falando mais para mim mesmo do que para Enzo. — O plano para o aniversário dela está pronto?
— Sim. Tudo conforme as suas instruções. A festa no iate.... Rafaelo, ela é bonita...
— Eu sei. – respondo– No aniversário dela, eu não serei apenas um conhecido de café. Eu me tornarei o ar que ela respira. E quando Dante perceber que a irmã está se afogando, ele descobrirá que sou eu quem está segurando a cabeça dela sob a água.
Enzo assente, mas vejo uma sombra de hesitação em seus olhos.
— E se ela se apaixonar de verdade, Rafaelo? E se isso complicar as coisas?
Eu solto uma risada curta e seca, um som que não carrega nenhuma alegria.
— O amor é apenas uma ferramenta, Enzo. Uma alavanca que move montanhas e destrói impérios. Se ela se apaixonar, a queda será apenas mais alta. Eu não sinto pena de cordeiros quando meu objetivo é o lobo que os lidera.
Rosália Grecco acha que encontrou um príncipe em uma cidade romântica. Ela não sabe que Paris, para ela, acaba de se transformar em um matadouro de luxo.
— Vamos — ordeno ao motorista. — Tenho uma "peça única" para terminar de polir.
O carro arranca, deixando para trás o rastro de uma vingança que levou anos para ser destilada e que agora, finalmente, começa a ser servida. O gosto é metálico, persistente e absolutamente perfeito.