Capítulo — Tempo aliado indispensável.
" O tempo é o melhor aliado em muitos casos, especialmente quando se elabora planos."
Rafaelo
Três dias depois...
O tempo é um aliado indispensável, mesmo quando parece agir contra nós. Ele amadurece sentimentos, organiza pensamentos e revela verdades que a pressa insiste em esconder. Há dores que apenas o tempo sabe suavizar, assim como há sonhos que só florescem quando respeitamos o ritmo natural da vida. O tempo ensina, molda, fortalece e, silenciosamente, nos transforma. Ele não corre, não desacelera — apenas segue, convidando-nos a crescer junto com cada segundo vivido. Quando aprendemos a confiar nele, percebemos que até as esperas mais longas carregam propósito. No fim, o tempo não tira, ele prepara, ajusta e entrega aquilo que chega na hora certa.
E eu fiz bom uso do tempo. Tive dez anos para amadurecer o meu plano, para passar e repassar cada detalhe, como um arquiteto que desenha e redesenha a mesma obra até que ela se torne perfeita. Cada espera foi um cálculo, cada silêncio, uma estratégia. Enquanto o mundo seguia distraído, eu observava, aprendia, corrigia falhas invisíveis aos olhos dos outros. O tempo não me enfraqueceu; ele me lapidou, transformando impulsos em precisão. Hoje, cada passo que dou já foi ensaiado na minha mente incontáveis vezes. Porque quem domina o tempo, domina o momento — e eu esperei o suficiente para não falhar.
Meu olhar está fixo no ar.
O aroma do café forte — aquele espresso curto que carrega o DNA das minhas raízes italianas — corta a doçura amanteigada do desjejum parisiense espalhado sobre a mesa. Observo o banquete à minha frente com um distanciamento necessário. O café da manhã francês é uma instituição de delicadeza: o croissant perfeitamente folhado, o pain au chocolat que derrete ao toque, e as tartines generosamente cobertas com manteiga de Isigny e geleia de damasco.
Dizem que essa tradição de massas leves e doces remonta ao século XIX, uma herança da viennoiserie que os austríacos trouxeram para Paris, adaptada pelo paladar local para criar algo que parece ar, mas pesa no estômago com sofisticação. É uma cultura de prazer matinal lento, uma influência da aristocracia que transformou o ato de quebrar o jejum em um ritual de estética. Mas, para mim, o café da manhã é apenas o prelúdio funcional. Meus traços italianos exigem o amargor do grão torrado para abrir o apetite e a mente. Um doce e um café — o suficiente para despertar o predador antes que o meio-dia exija sangue ou assinaturas.
Muitos anos se passaram desde que meus dias amanheciam com a simplicidade da luz branca. Sou como as nuvens que observo da janela desta suíte. De longe, quem as olha acredita que são massas brancas e puras, estáticas no céu. Engano de quem não entende a natureza do que é suspenso. A nuvem, assim como o homem, muda de forma e de cor conforme o que reflete. Sob o sol forte, torna-se alaranjada, amarela; sob a tempestade, assume tons acinzentados e azuis profundos; e, no crepúsculo, aquele púrpura denso que ninguém sabe de onde emana, mas que todos temem.
Ela não tem neurônios para refletir; apenas é o produto do meio e da luz que a atinge. Eu contenho água, contenho tempestades, e reflito apenas o que me convém, para que ninguém saiba o que realmente se passa no centro da massa escura que me tornei.
— Don? — a voz de Enzo Baroni corta meus devaneios meteorológicos.
— Pergunte-me, Enzo. — Não desvio o olhar da xícara.
— Queria saber como andam a senhorita Lavínia e a senhora sua mãe. Elas estão bem, senhor?
— Conversei com as duas ontem à noite. Estão bem.
Recosto-me na cadeira de veludo, sentindo a textura do tecido contra minhas costas. O nome da minha irmã e da minha mãe traz um peso diferente para o ar.
— Quero vigilância redobrada em cima das duas, Enzo. Reforce a segurança no perímetro da villa e nos deslocamentos. Não vou perder mais ninguém da minha família. Já paguei tributo suficiente ao destino com a minha própria carne.
Enzo assente com uma gravidade silenciosa. Ele segura o tablet nas mãos, os dedos deslizando pela tela de vidro com a agilidade de quem lida com crises em tempo real. Dá alguns passos, aproximando-se da mesa, e coloca o dispositivo exatamente no meu campo de visão, entre o croissant intocado e o café vazio.
— Com licença, senhor. Preste atenção nisso aqui.
É um anúncio digital, elegante e sóbrio. Uma propaganda sobre o corpo de balé do qual Rosália faz parte. O texto em francês anuncia uma apresentação exclusiva no Théâtre des Mirages, localizado na movimentada Rue de la Chaussée-d'Antin. A imagem mostra a silhueta de bailarinas em um rodopio etéreo, mas meus olhos buscam apenas um nome, uma presença.
Rosália Grecco.
Um esgar de sorriso curva meus lábios.
A ironia de chamá-la de "noiva" em meus pensamentos me agrada. É um título que ela ainda não sabe que possui, uma marca invisível que já imprimi em sua alma com aquela carta e aquelas flores.
— Farei uma surpresa para minha futura noiva — sentencio, os olhos fixos na tela. — Irei visitá-la nos bastidores antes da apresentação. E depois também. Quero que ela sinta que o mundo ao redor dela está diminuindo até que eu seja a única coisa que reste.
Enzo inspira profundamente, o tipo de fôlego que um homem tira antes de mergulhar em águas turvas. Ele retira o tablet, volta à posição anterior, em pé ao lado da mesa, mas sua postura indica que o assunto "romance" terminou. O clã exige o Dom.
— Dom, precisamos da sua atenção para questões urgentes de logística e finanças — começa Enzo, a voz agora técnica. — A Europol intensificou a fiscalização sobre o sistema Hawala que usamos para as remessas de Marselha. Isso está atrasando a lavagem dos fundos das operações de carga em 15%. Além disso, os recentes relatórios sobre criptoativos mostram que a volatilidade do mercado e as novas regulamentações da União Europeia estão "sujando" nossas trilhas digitais mais rápido do que podemos limpá-las. Estamos perdendo margem de lucro na conversão.
Cruzo as mãos sobre a mesa. O coto oculto sob a manga do terno sob medida pulsa, a cicatriz lembrando-me constantemente de quem eu me tornei.
— O problema da Europol é burocrático, Enzo. Burocracia se resolve com diversificação. Pare de usar o sistema Hawala para as grandes somas por um tempo. Fragmente os valores em pequenas empresas de fachada no setor imobiliário aqui mesmo em Paris. Compre apartamentos em bairros periféricos que estão em processo de gentrificação. O dinheiro entra limpo na revenda em dois anos.
— E quanto às perdas digitais, senhor? Os americanos estão pressionando por pagamentos em stablecoins sob mira regulatória.
— Diga aos americanos que, se querem o meu dinheiro, aceitarão o risco ou mudarão para ativos físicos de baixo rastreio, como diamantes industriais ou contratos de arte subfaturados. Não vamos deixar rastro em blockchain enquanto o código não for nosso. Se a margem está caindo, corte os intermediários de logística na Albânia. Eles estão cobrando uma taxa de proteção por algo que nós mesmos podemos proteger. Mande uma mensagem clara: ou reduzem a porcentagem, ou envio uma equipe para gerenciar o porto de Durrës pessoalmente.
Enzo escuta cada palavra com atenção absoluta, os dedos voltando a voar sobre o tablet, registrando ordens que moverão milhões de euros e silenciarão dezenas de homens antes do pôr do sol.
— Entendido, Dom. Vou iniciar os protocolos de realocação de ativos imediatamente.
Levanto-me, ajustando o botão do meu paletó. O café da manhã terminou. O céu de Paris continua mudando de cor, mas eu já decidi qual tom terei hoje.
Para o mundo, serei o investidor implacável que resolve crises financeiras com um estalar de dedos.
Para Rosália, serei o porto seguro.
O homem que cruza os bastidores de um teatro para lhe entregar o mundo em forma de adoração.
Ela é a luz que reflete na minha nuvem púrpura. E, por enquanto, não faz ideia de que o sol que vê em mim é apenas o reflexo do incêndio que carrego por dentro.
— Prepare o carro para o teatro, Enzo. Quero as melhores orquídeas que o dinheiro pode comprar em Paris para o camarim dela. O espetáculo está apenas começando.
Enzo se afasta para cumprir as ordens, mas seus pensamentos permanecem pesados enquanto caminha pelo salão silencioso. Ele conhece aquele olhar. Já viu Dom decidir destinos com menos intensidade. O problema não é a obsessão — é o silêncio que vem depois dela. Sempre há sangue quando o Dom fixa um alvo.
Enquanto isso, observo novamente a cidade pela janela.
Rosália Grecco.
O nome ecoa na minha mente como uma sentença.
Não é apenas desejo. Não é apenas fascínio.
É algo mais antigo.
Mais sombrio.
A vingança é uma fome diferente. Não se sacia com sangue rápido, nem com mortes simples. A vingança exige tempo, paciência, destruição calculada. Exige que a vítima veja tudo ruir antes do golpe final.
E eu sou um homem paciente.
Um homem que perdeu demais.
Um homem que aprendeu que destruir alguém não significa apenas matá-la — significa desmontar sua vida peça por peça, até que reste apenas o vazio.
Rosália Grecco ainda dança.
Ainda sorri.
Ainda acredita que o mundo é um palco iluminado.
Mas eu sou a cortina que cai.
Sou o silêncio após a última música.
Sou o homem que caminha entre aplausos e decide quem continuará respirando quando as luzes se apagarem.
Se alguém atravessar meu caminho, eu esmigalharei.
Sem piedade.
Sem hesitação.
Porque eu não busco apenas vingança.
Eu me tornei a própria vingança.
E o alvo…
é ela.
Rosália Grecco.