— Como ela está?
Lillian respirou fundo, estava encostada na viatura, as mãos posicionadas, os ouvidos e olhos atentos na rua escura.
— Lutando. - Disse, apenas. — Sabe como é, alguns dias quase nos esquecemos que a Mari está doente, em outros, eu fico com medo até de dormir.
— Preciso visita-la, comprei uns jogos legais.
— Sei. - Lillian concordou. — Sabe que pode ir a qualquer momento, né?
Marcelo engoliu em seco, ao lado de Lillian encarava a mesma direção que ela. sabia que a garota era dura, mas estava sofrendo. Eram amigos desde a escola militar, quase nunca viu um sorriso no rosto dela, agora então, com os olhos fundos e a cara sempre fechada, parecia até que Lillian era quem estava doente.
— Tem alguma pista? - Ele indagou. — Sei que ainda estava grilada com aquele assunto.
— Ainda não, mas eu treinei todo esse tempo esperando por eles. - Lillian apertou a arma no coldre. — Eram dois, ainda tenho uma bala para cada.
— c*****o Lilli. - Marcelo a encarou.
Ele ia dizer algo, sabia que ela odiava sentimentalismos, mas precisava dizer que a admirava muito, contudo, o celular tocou e ele se afastou, não era namorado de Lillian, mas haviam tido uma f**a boa, então ele se sentia na obrigação de afastar-se.
Enquanto Lillian tentava não ouvir a conversa, repassou aquele encontro com o médico, as mãos dele eram bem fortes para um maldito riquinho. O perfume era caro, Júnior tinha cheiro de homem.
Se remexeu, trocou o peso do corpo para a outra perna. Um médico não podia tirar a concentração dela.
— Hey, soldado Nascimento. - Marcelo abriu a porta do carro. — Ocorrência na República.
— Deixa eu adivinhar? - Ela o seguiu, entrou no carro e bateu à porta. — Bêbados.
— Parece que sim.
Marcelo dirigiu rapidamente, eram a viatura mais próxima do local, então chegaram em dois minutos. A viatura iluminou os briguentos, Lillian viu que havia uma mulher no meio da briga, a loira assim que os viu praticamente correu até eles.
Marcelo em exercício da função, era um padre.
— Foi eu quem chamou vocês. - Mulher balançava os s***s ao correr. — É que meu ex-namorado está batendo em um carinha.
— Carinha. - Lillian esquadrinhou a mulher. A boina cobrindo-lhe parte do rosto. — Tem alguém armado?
— Acho que não.
Lillian se moveu rápida entre os espectadores. Os briguentos eram grandes, o maior, de boné, se arremeteu contra o outro.
— Pode parar! - Ela berrou.
Quando se afastaram Lillian arregalou os olhos, estava diante do Doutor José Carlos, sem o jaleco e com o cabelo levemente bagunçado. E o pior de tudo, bêbado.
— Li..
— Senhores, se afastem agora. - Ela o encarou com intensidade.
José Carlos falou, meio embolado toda a situação, contou que a garota, cujo nome não sabia mais, disse ser solteira, e o chamou para ir ao hotel. E quê de última hora, o cabeçudo chegou e sem dar tempo de conversa, e o atacou.
— Ela é a sua namorada? - Lillian encarou o grandão enquanto recebia o RG das mãos dele. — Senhor, Rodrigo.
— Claro que é! - Ele esbravejou.
— O senhor não pode chegar em um local público fazendo escândalo. Se não estão juntos o melhor a se fazer é voltar para casa. - Ela manteve a autoridade total. — Já que ambos estão bem, fisicamente, e se a segunda parte não quiser registrar o B.O, cada um vai para o seu lado e acabou. O senhor esfria a cabeça e depois conversa com a sua namorada, ou ex.
— Eu não quero confusão. - Júnior disse.
Na verdade, ele não queria mais nada daquilo. Se já achava Lillian espetacularmente sexy só de olha-lo, com ela fardada e falando com austeridade, ele praticamente babou, sentiu o coração acelerar miseravelmente.
Se ela mandar, eu caio de quatro e uivo aqui mesmo. Pensou ele.
Rodrigo, disposto a não passar vergonha, se aproximou dela, tanto que o peito bateu no colete de Lillian.
— Soldado, - ele forçou a visão. — Nascimento. Sabe quem é meu irmão? - Ela negou, indiferente. — Segundo Sargento, Vargas.
— Que bom. - Lillian manteve o olhar frio. — Agora se retire, ou eu chamo outra viatura e te conduzo até a delegacia.
— Não. - Ele a respondeu. — E você pensa que é quem?
— Soldado Nascimento. Você sabe ler, que eu sei. - Ela o respondeu. — Vai se retirar?
— Não.
Lillian, sob o olhar de todos, desferiu um tapa forte o bastante para desequilibrar Rodrigo. Ele até tentou mobiliza-la, e acabou levanto um soco no meio das pernas, tombou para frente. Lillian rapidamente o jogou no chão, subiu nas costas dele e o algemou.
— Chame outra viatura. - Ela olhou de lado para Marcelo. — Esse senhor quer dar uma passadinha na delegacia.
Júnior que observava tudo, havia levado a mão ao peito. Lillian era um furacão, pena que o amigo tatuado era o único a receber a atenção merecida dela.
A briga acabou, o grandão fora jogado sem delicadeza alguma no camburão. E Júnior permaneceu sentado na calçada enquanto Lillian falava com os colegas de profissão, depois chamou o companheiro de lado e após uma breve conversa, voltou sozinha.
— Vem pudim de pinga, vou te levar em casa. - Estendeu a mão a ele.
Júnior aceitou, a levou até o carro, e dessa vez, sentou-se envergonhado. Lillian se sentou no banco do motorista e sem dificuldade alguma tirou o carro do estacionamento e o colocou na rua.
— Onde mora?
— Condomínio Esmeralda. - Ele a respondeu. — Não deveria estar na viatura, com seu..
— Com a minha guarnição? Sim. Marcelo é meu amigo além desse trabalho.
— E o que disse a ele?
— Que você é o médico que está tratando minha irmã. E que eu vou te deixar no conforto do seu lar.
Não falaram mais nada até Lillian estacionar na frente da casa. Ela deu uma olhada para dentro, dessa vez todas as luzes estavam apagadas, para o alívio de Júnior.
Ele saiu do carro meio grogue, e Lillian o seguiu.
— Vou pedir um Uber para você.
— Não precisa, enviei a minha localização para o Marcelo, ele já deve estar chegando. - Júnior concordou.
— Olha, sobre mais cedo...
— Não é da minha conta, Doutor.
— Júnior. - Ele falou. — Meu pai era José Carlos, sempre fui chamado de Júnior.
— Boa noite Júnior. - Ela o olhou nos olhos. — Toma cuidado ao sair, minha primeira ocorrência foi com um cara daquele tipo, o outro, passou semanas internado.
— Entendido, soldado. - Ele tentou brincar, ela não sorriu. — Boa noite Lillian.
Se aproximou dela, satisfeito por causar-lhe um certo susto, tomou a mão de Lillian e a levou aos lábios, deixando um beijo cálido, sem tirar os olhos azuis dela. Lillian engoliu em seco, sentiu o beijo esquentar muito mais que a mão, ao recolher lentamente desviou os olhos.
— Fica diferente de farda. - Júnior se aproximou ainda mais, qualquer coisa colocaria a culpa na bebedeira. — Mais bonita.
— Obrigada, Dou.. Júnior. - Lillian voltou a encará-lo, a boina lhe conferia um semblante muito mais sério e hostil, alguns homens se afastavam ao vê-la. O médico parecia fascinado.
Deve ser a bebedeira. Pensou ela.
Ele esticou a mão e tocou-lhe o rosto frio, viu que Lillian corou um pouco. No fim, Marion estava certa, a emburradinha perdia a postura na frente dele.
A porta da casa se abriu, iluminando os olhos dela, Lillian desviou os olhos para ver uma senhora parada no umbral da porta, as mãos na cintura e o olhar sério.
— Minha nossa senhora. - Se aproximou do filho. — Júnior! - Dona Flor segurou o rosto dele, horrorizada com as marcas em seu rosto. — Está caindo de bêbado, não acredito que agora a polícia vai começar a te trazer em casa.
— Não se preocupe senhora, seu filho não fez nada de tão grave assim. - Lillian suavizou o semblante. — Ele bebeu além da conta, mas não teve culpa alguma na briga, como é responsável me pediu para acompanhá-lo até a casa.
A senhora fuzilou o filho com os olhos, Lillian despediu-se, virou as costas e saiu dali, tinha um bolo no estômago.