Júnior olhou-se pelo reflexo do espelho enorme em seu quarto. Não tivera tempo de desfazer algumas caixas, Dona Flor andou mexendo na cozinha, mesmo sabendo que ele havia contratado uma equipe para ajudá-la com os afazeres. Respirou fundo enquanto mantinha a mão congelada no botão da camisa branca.
Repassou a conversa com Mari depois do encontro com Lillian.
*
— Eu estive pensando Doutor, desde pequena lembro da minha irmã cuidando de mim. - Mari segurava o caderno firme nas mãos magras. — A Lillian é uma princesa por baixo daquela capa dura.
— Cruzei com ela agora mesmo. - Júnior cruzou os braços, com um leve sorriso nos lábios. — Ela não me pareceu uma princesa.
— Minha mãe era ótima, mas preferia viver uma vida estranha, e quase nunca havia lugar para nós. Minha mãe dizia que a Lilli é fruto de um caso dela, nunca escondeu. - Mari abaixou a cabeça. — E eu, bom, meu pai preferiu se afastar quando notou a vida estranha que estava tendo. E mais uma vez, viramos as sobras. Entenda Doutor, ela é tudo o que tenho, e eu sou tudo o que ela tem.
— Onde quer chegar com isso mocinha?
— A última vez que Lillian sorriu foi no meu aniversário de quinze anos, meses atrás. E eu sei que ela só queria me ver bem. Eu escuto o choro dela de madrugada, sei que ela chora no banho. – Mari engoliu em seco. — Escrevi uma lista para mim, como seu amigo fez, mas, e se eu morrer? Qual a graça disso? Uma lista escrita para ficar dobrada e ser o motivo de tristeza da Lillian?
Junior já tinha deixado de sorrir á muito, descruzou os braços sentindo um formigamento no peito, nunca tinha pensando assim de Nando. E se não fosse por Luiza, a lista seria um papel triste também.
— Criei uma lista para a Lillian, e não se faça de b***a, ela é uma gata e eu te vi olhando para ela várias vezes, além do mais, ela só tem um amigo, e ele não vale nada.
— Marion, não tem nada a ver uma coisa com a outra, eu gosto de olhar nos olhos quando converso. - Pego de surpresa ele desviou os olhos. — Além do mais, corro o risco de levar um tiro no rosto se tentar puxar assunto desnecessário. Olha só para a sua irmã? Diria até que a Vandinha perde feio para ela.
— Deixa de ser medroso. Doutor. - Mari riu. — Bom, quero que me ajude, e é um pedido sincero. A minha irmã não aceita a minha morte, mas e se a minha jornada for curta? E se eu não quiser sofrer? Não é justo para ela passar todo esse tempo cansativo ao meu lado sem nem viver a vida, e no fim ficar sozinha de todos os tipos.
Júnior respirou fundo, não tinha que aceitar, a obrigação dele era em trata-la, não se meter na vida delas, que aliás, era bem triste. Contudo, se ao fim de tudo Lillian o rejeitasse teria essa desculpa. Não conseguiu por causa da falta de empatia da outra.
— Me prometa só uma coisa. - Ele pegou o papel das mãos dela. — Aconteça o que acontecer, vai lutar pela vida.
Mari estendeu a mão aberta, tinha um brilho no olhar semelhante ao da irmã mais velha. No fundo, Marion era mais forte que os dois juntos.
— Será nosso segredo Doutor.
*
Júnior sorriu para si, havia feito um acordo com uma menina de quinze anos. E o pior de tudo era a maldita lista, com dez pedidos.
Dez pedidos. Simples! E tudo o que ele conseguia pensar, eram naqueles olhos intensos o encarando. Sentia-se um adolescente i****a por imaginar cada um desses pedidos sendo realizados.
— Onde vai? - Dona Flor encarou o filho pela porta do quarto. — Senti seu cheiro lá do corredor.
— Vou sair um pouco, preciso relaxar a cabeça. - Ele sorriu para a mãe. — Estou bonito?
— Você é lindo até usando aquelas suas camisetas que mais parecem panos de chão.
— Credo, mãe. - Júnior pegou os pertences e se aproximou da mãe. — Não espere por mim.
Beijou a testa de Dona Flor, sabendo que muito provavelmente ela o aguardaria até o dia seguinte, deitada no sofá.
A Cidade de Marília de noite parecia ganhar vida. Os bares lotados de todo o tipo de gente, música alta e bebida. Tudo o que Júnior queria naquela noite. Beber até se sentir alegre e levar alguma mulher para alguma cama.
A música alta o fez beber além da conta, tirou algumas fotos dos copos de bebida e enviou no grupo. Fernando e Felix agora eram homens de família, mesmo assim fizeram comentários sobre a bebida.
— Oi.
Ao ouvir a voz doce Júnior apagou a tela do celular, ao seu lado havia uma loira linda, de olhos verdes. O vestido era tão colado que ela podia ver o desenho dos s***s dela. Engoliu em seco sentindo o m****o ficar duro.
— Oi. - Ele sorriu ladino.
— Vi que está sozinho. - A loira sorriu, os dentes eram exageradamente brancos e retos. — Me chamo Beatriz.
— Pode me chamar de Júnior. - Ele virou totalmente na direção dela.
A conversa durou mais alguns copos de bebida. Bia era modelo, estava visitando os pais, muito provocante e com a mão na coxa de Júnior, disse que havia preferido ficar em um hotel ali perto, gostava da privacidade.
Para bom entendedor, meia palavra era sinal de sexo.
Júnior se aproximou e a beijou, sentiu a língua dela, o gosto da bebida. Estava duro e queria gozar.
— Está a fim...
— Vamos. - Ele disse de pronto.
Bia levantou-se cambaleante, e ele não muito diferente a seguiu, estava quase chegando ao carro quando sentiu um solavanco no corpo. Ao virar-se viu um brutamontes exageradamente tatuado, o boné quase não cabia a cabeçona.
— Filho da p**a! O que quer com a minha namorada?
— Calma amigo, eu e ela...
— Rodrigo! - A voz de Beatriz se tornou estridente, os s***s dela chacoalhavam enquanto tentava tirar o grandão de cima de Júnior.
Mesmo bêbado ele conseguiu dar um belo tapa no rosto duro do namorado de última hora. Sentiu os próprios dedos arder.
Rodrigo praticamente o jogou em cima do carro, enquanto acertava, ou tentava acertar socos em Júnior.
— Cara, ela não disse que tinha namorado. Eu juro. - Júnior levantou-se, trôpego, limpou o sangue dos lábios e cuspiu no chão.
— Ela é uma safada mesmo, tivemos uma briga boba, e essa, maldita vem atrás de macho.
— Rodrigo!
— Cala a boca! - Ele gritou para a namorada. — Ou eu acerto a sua cara de p*u. Já que não posso, vou acabar com essa merdinha aqui.
Júnior já tinha se posicionado, desviou de um soco, se preparou para bater, e foi aí que a sirene da polícia iluminou todos a volta.