— Eu tenho quinze anos. - Marion ergueu o queixo, havia um brilho no olhar dela, quase como uma chama viva. — Moro com a minha irmã desde que a nossa mãe morreu.
Lillian engoliu em seco, os braços cruzados enquanto encarava a irmã falar como uma quase adulta.
— Nossa mãe faleceu em confronto contra bandidos. - Ela encarou o médico a sua frente. — Desde então somos eu, e a papagaia.
— Mari posso te pedir um favor? - José Carlos tirou o celular do bolso.
— Já sei, eu não vou jogar esses joguinhos bestas, mas vocês podem conversar lá fora, não gosto que falem de mim enquanto eu observo de longe. Ainda não morri.
Mari voltou a mexer no celular, Júnior saiu do quarto, seguido pela irmã mais velha, a levou para o mesmo infeliz lugar que Ana tinha sido informada sobre a morte iminente do filho.
— Ela sabe o que está acontecendo? - Ele cruzou os braços frente ao corpo.
— Sabe, preferi ser sincera desde o início. Marion sabe que está piorando, e que pode morrer. Se perguntar, ela mesma diz que tem Leucemia Moelóide aguda, conta como descobriu, e o tratamento feito até agora.
- Quanto tempo está em tratamento?
— Minha mãe morreu na semana que descobrimos essa doença, já faz dois anos. Acabei vendendo tudo e viemos para cá logo em seguida. A Mari adora a natureza e.. - Lillian emudeceu, a expressão ficou dura de repente. Não iria chorar na frente de um estranho. — Ela me pediu para ter um cavalo, queria montar em um antes de morrer. Ainda estamos vendo isso.
— Eu sinto muito, sei que foram transferidas para cá, e vamos fazer o possível para tratá-la. É um tratamento agressivo, mas ela tem chance de viver. Recebi a ficha dela antes de vir para cá. A oncologista pediu transferência para a Alemanha, mas deixou tudo organizado.
— A Doutora era ótima com a Mari. – Lillian o respondeu. — Obrigada Doutor.
Lillian tinha um olhar duro, era como se quisesse descobrir todos os pecados dele olhando-o dentro dos olhos, sem desviar, ou corar. Ela não parecia ter emoções, nem se abalou como algumas mulheres costumavam.
— Vou fazer visitas regulares a ela. Quero que esteja presente, sua irmã é de menor e se a assistente social ficar sabendo, pode complicar a situação de vocês duas. Pelo que a conheço, aquela mulher é um porre.
— Não vai acontecer, Doutor. Não durante o dia.
Lillian se levantou, os ombros curvados de cansaço, deixou o médico sentado, petrificado no corpo torneado e postura dela. Voltou a quarto destruída, lembrou-se do pedido da mãe, enquanto o sangue esvaía de seu corpo, respirou fundo e entrou no quarto,
— Demorei? - Mari deu de ombros, concentrada no celular. — Presta atenção em mim, é falta de educação dar de ombros, sabia? - Tomou o celular das mãos da menina.
— Não Li, não demorou, até achei que daria uns pegas no médico. - Mari deu uma olhada para a porta e voltou a encarar a irmã. — Sabia que ele é solteiro? Dei uma procurada no i********: dele, tem umas três fotos, é um pedaço de..
— Chega Mari! - Lillian abriu o zíper da bolsa. — Trouxe o chocolate que me pediu, aqueles livros idiotas da garota princesa.
— Seleção, e não é i****a.
- Que seja bom mesmo, o box me custou os olhos da cara. - Lillian estendeu a mão com os livros e o chocolate em cima. — Coma com moderação. Se vomitar, vou dizer que roubou de mim, e lhe dar uns tapas na cara.
— Quanto tempo eu tenho?
— Todo o tempo do mundo Mari, agora leia, tem atividade da escola também. - Lillian notou o olhar afiado da irmã. — Ele não te deu prazo, falou apenas que o tratamento vai ser agressivo, e que vão fazer de tudo.
— Estou ficando com o saco cheio disso, sabia? Meu corpo todo dói, cansei de ser furada todos os dias, dos vômitos, cansei.
— Lembra o que a mãe disse na volta para casa? - Lillian encarou a irmã. - Você não vai ser enterrada antes dos oitenta anos. Nasceu na linhagem das Nascimento, vai lutar como uma.
— Isso é porque vocês são Maria Machão, eu não. - A menina deu de ombros.
Lillian acomodou-se na poltrona, estava cansada pela noite em claro e as horas de rondas constantes, os ombros doíam e os pés pesavam uma tonelada cada. Mas valia a pena, todo o treinamento ali, as horas em claro, tudo. Enquanto estivesse Marion, tudo valeria a pena. O pior para ela já tinha acabado. Pelo menos em sua carreira.
(***)
Era noite quando Júnior passou pelo portão da casa, parou o carro e viu que a luz da sala estava acesa. Entrou em casa sem fazer barulho, a mãe, Dona Flor, dormia como um anjo no sofá enorme.
— Mãe. - Ele sacudiu a mãe com delicadeza. — Mãe, cheguei.
— Júnior? - Ela abriu os olhos assustados. — Que horas são?
— Dez horas da noite, vá para a cama, vou tomar um banho e me deitar também.
Dona Flor subiu cambaleante, enquanto Júnior a seguia, pronto, caso ela caísse para trás. A deixou na porta do quarto, pediu a benção, como em todas as noites e rumou para o quarto.
Precisou de um bom banho para conseguir relaxar, deitou-se na cama e repassou tudo. Desde Ben até a garota e a irmã mais velha. Algo nele, naquele momento o deixava inquieto. Talvez pela forma fria como Lillian o olhava, os olhos perdidos, lindos aliás, o fizeram querer impressioná-la. Ela era linda e forte. Se soubesse o poder da beleza que tinha, não seria tão m*l humorada assim.
Ele pegou no sono, tão logo mergulhou acordou, o celular despertando as seis horas da manhã. E como sempre, tomou um banho frio, arrumou-se com aquela vontade i****a de impressionar a garota estranha e obscura, passou no quarto da mãe e lhe desejou um bom dia.
O trajeto para o hospital fora rápido, chegou cedo e logo recebeu o bom dia seco da secretária. As sete, começou as visitas.
— Bom dia. - Entrou no quarto de Marion, de novo estava sozinha. — Onde está a sua irmã?
— Daqui a pouco ela chega. - A menina deu de ombros. — Minha irmã é muito ocupada, sabe.
— O que faz aí? - Ele apontou para o caderno.
— Escrevendo algumas coisas. - Mari o encarou. — Quer ver?
Ela estendeu o caderno e ele viu que era uma lista com coisas a fazer durante o dia. Anotações com recados para a irmã mais velha.
— Meu amigo criou uma lista de desejos quando ficou doente. - Ele devolveu o caderno a menina. — Esperou ficar adulto para realizar todos eles.
— Eram legais?
— Para ele, sim. - Júnior deu de ombros. — Quem te ensinou esse tipo de lista?
— Lillian. Quando nossa mãe morreu e ela precisou voltar para a academia de polícia e os treinamentos, era assim que organizávamos nosso dia. Ela me deixava recado, deixava os horários dos remédios e com a ajuda da tia Viviane, eu cumpria a todos. De noite, deixava recados para ela.
Então Lillian era policial. Fazia sentido toda aquela postura dela, a negação em chorar na frente dele, e a forma como se arrumava. Como um homem.
- Sua irmã é, policial?
— Não diz que eu contei, é perigoso espalhar essa informação, sabe. A li estava terminando a academia quando a mãe morreu, eu fui a formatura. - Mari respirou fundo. — Posso te pedir um favor?
— Claro. - José Carlos concordou com um movimento.
— Agora não posso te falar porque ela deve estar chegando, antes de ir embora você pode vir aqui? Quero te pedir um favor.
— Pedir o quê? - Lillian entrou no quarto, deixou a bolsa de lado. — Bom dia, Doutor José Carlos.
— Bom dia. - Ele piscou para a menina. — Parece que a sua irmã quer tomar um sorvete mais tarde, e me pediu.
— Que coisa feia Marion! - A irmã ralhou com ela.
— Eu disse que faria, não briga com ela.
Lillian, envergonhada fingiu procurar algo na bolsa, Mari piscou de volta e balbuciou um "Obrigada".