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937 Words
Serena narrando… Meu nome é Serena. E se você olhar pra mim na rua, provavelmente não vai enxergar nem metade do que eu realmente sou. Porque eu aprendi desde cedo a me esconder. Eu sou morena, tenho o cabelo preto bem longo, liso, daqueles que descem pelas costas e chegam quase na altura da b***a. Meu corpo… bom, meu corpo sempre chamou atenção, mesmo quando eu fazia de tudo pra evitar isso. Pernas grossas, cintura fina, quadril largo… um tipo de corpo que muita mulher queria ter. Mas pra mim isso nunca foi motivo de orgulho. Foi motivo de medo. Eu nunca gostei de chamar atenção. Nunca gostei de olhares demorados. Nunca gostei de homem olhando pra mim como se eu fosse alguma coisa que pudesse ser usada. Porque foi assim que eu cresci. Aprendendo que o meu corpo não era seguro. Aprendendo que eu precisava esconder o máximo possível. Por isso eu sempre usei roupas largas. Camisetão, calça folgada, qualquer coisa que apagasse minhas curvas, que me deixasse invisível. Porque invisível era melhor. Muito melhor. Eu moro em uma comunidade pequena no interior de São Paulo. Não chega nem perto do tamanho da Rocinha, mas ainda assim é um lugar esquecido, daqueles que ninguém liga, ninguém olha, ninguém ajuda. Meu barraco fica no fim de uma rua de terra batida. Pequeno, m*l estruturado, com parede fina e telhado que vive vazando quando chove. Dentro, é só o básico… e às vezes nem isso. Minha mãe… bom, minha mãe não é exatamente uma mãe. Ela é dependente química. Sempre foi. Desde que eu me entendo por gente, lembro dela mais perdida do que presente. Tinha dias que ela nem sabia que eu existia. Outros dias… ela simplesmente não estava. Sumia. Voltava dias depois como se nada tivesse acontecido. Meu pai não era diferente. Também viciado. Mas diferente da minha mãe, ele não sumia. Ele ficava. E talvez isso fosse pior. Crescer dentro de uma casa onde deveria existir proteção… mas só existe dor… muda uma pessoa. Eu cresci assim. Aprendendo a me virar sozinha. Aprendendo a ficar em silêncio. Aprendendo que reclamar não adiantava. E principalmente… aprendendo a ter medo. Medo do olhar. Medo da voz alterada. Medo de quando ele bebia demais. Medo de quando chegava perto demais. Fechei os olhos por um segundo, sentindo o peito apertar com as lembranças. Respirei fundo. Não… eu não queria pensar nisso agora. Eu nunca queria. Mas tem coisas que simplesmente não vão embora. Eu estava sentada no chão do barraco, encostada na parede, com os joelhos dobrados e os braços em volta das pernas. O sol entrava pela fresta da janela quebrada, iluminando o ambiente simples e desgastado. Minha mãe estava deitada no colchão velho, completamente apagada. Mais um dia. Mais uma vez. Suspirei baixo. Serena: — Eu preciso sair daqui… Falei sozinha, como tantas vezes já tinha feito. E dessa vez… não era só um pensamento. Era uma decisão. Nos últimos meses, uma mulher da igreja começou a aparecer na comunidade. Ela levava comida, roupas, conversava com as pessoas. Diferente de muitos que já passaram por ali, ela realmente parecia se importar. E foi ela que falou sobre o projeto. Uma ação social no Rio de Janeiro. Na Rocinha. Na época, eu nem sabia direito onde ficava. Mas quando ela falou que precisava de voluntários… que ia levar gente pra ajudar, trabalhar, recomeçar… Alguma coisa dentro de mim acendeu. Uma chance. Talvez a única. No começo eu fiquei com medo. Sair dali? Ir pra outro estado? Sozinha? Mas aí eu olhei ao redor. Pra aquele barraco. Pra minha mãe caída. Pra vida que eu levava. E entendi uma coisa. Se eu ficasse… nada ia mudar. Nunca. Levantei devagar, caminhando até o pequeno espelho pendurado na parede. Ele estava rachado no canto, mas ainda dava pra me ver. Olhei pra mim mesma. Cabelo preso de qualquer jeito. Roupas largas. Olhar cansado. Serena: — Você precisa ser forte… Sussurrei. Porque ninguém ia ser por mim. Ou eu mudava minha história… ou eu ia continuar vivendo aquela mesma vida pra sempre. E eu não queria isso. Não mais. Naquele mesmo dia, mais tarde, a mulher da igreja voltou. Ela bateu na porta de madeira fraca e eu abri. Mulher: — Oi, Serena. Tudo bem? Assenti de leve. Serena: — Tô… sim. Ela sorriu, daquele jeito calmo de sempre. Mulher: — Eu vim saber se você pensou sobre o projeto. Meu coração acelerou na hora. Era agora. Engoli seco. Serena: — Eu… eu quero ir. Ela abriu um sorriso maior. Mulher: — Tem certeza? Olhei pra dentro da casa por um segundo. Minha mãe ainda caída. Tudo igual. Tudo parado. Voltei o olhar pra ela. Serena: — Tenho. Minha voz saiu mais firme dessa vez. — Eu preciso ir. Ela assentiu, colocando a mão no meu braço com cuidado. Mulher: — Então se prepara. A gente vai sair em poucos dias. Meu coração disparou. Poucos dias. Era rápido demais. Mas talvez fosse exatamente isso que eu precisava. Antes que eu tivesse medo. Antes que eu desistisse. Serena: — Eu vou estar pronta. Ela sorriu novamente e se despediu. Fechei a porta devagar. Encostei nela. Respirei fundo. Pela primeira vez em muito tempo… Eu senti algo diferente. Esperança. Mas junto com ela… vinha o medo. Porque sair dali significava entrar em um mundo que eu não conhecia. Um lugar novo. Pessoas novas. E eu não fazia ideia do que me esperava. Mas uma coisa eu sabia. Qualquer coisa… Era melhor do que continuar ali. E eu estava pronta pra arriscar. Mesmo sem saber que essa escolha… Ia mudar toda a minha vida.
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