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1093 Words
Serena narrando… Eu achei que o mais difícil seria tomar a decisão de ir embora. Mas eu estava errada. O mais difícil… era enfrentar o que vinha depois. A mulher da igreja ainda estava na porta quando tudo começou a dar errado. Eu tinha acabado de dizer que queria ir, que precisava daquela chance, que não aguentava mais viver daquele jeito. Por um segundo… só um segundo… eu senti como se a minha vida pudesse mudar. Mas naquela casa… nada era simples. Nada nunca foi. A porta dos fundos bateu com força, fazendo meu corpo inteiro se arrepiar. Eu não precisei virar pra saber quem era. O cheiro de bebida veio antes. Sempre vinha. Pesado, forte, sufocante. Meu pai. Ele estava ali. Parado atrás de mim. Em silêncio. E aquele silêncio… era pior que qualquer grito. A mulher da igreja percebeu na hora que alguma coisa não estava certa. Mulher: — Boa tarde… o senhor é o pai da Serena? Ele não respondeu de imediato. Eu sentia o olhar dele queimando nas minhas costas. Aquele olhar que eu conhecia bem demais. Aquele que sempre vinha antes de algo r**m acontecer. Meu coração começou a bater mais rápido. Serena: — Pai… Minha voz saiu baixa, quase um sussurro. Erro. Eu sabia que era erro chamar atenção. Mas já era tarde. Ele deu um passo à frente. Depois outro. E parou ao meu lado. Olhei de canto. Os olhos vermelhos. O rosto fechado. A respiração pesada. Ele estava alterado. Mais do que o normal. Pai: — Que história é essa de ir embora? O tom da voz dele era baixo. Mas carregado. Perigoso. A mulher da igreja tentou intervir. Mulher: — Senhor, eu estava explicando pra Serena sobre um projeto social no Rio de Janeiro, uma oportunidade pra ela trabalhar e— Ele levantou a mão, interrompendo. Pai: — Eu não falei com você. O silêncio caiu pesado no ambiente. Eu senti meu corpo travar. A mulher hesitou, claramente desconfortável. Mas continuou ali. Mulher: — Eu só estou tentando ajudar… Ele soltou um riso seco. Sem humor nenhum. Pai: — Ajudar? Ele virou o rosto lentamente pra mim. E naquele momento eu soube. Ia acontecer. Pai: — Você quer ir embora? Engoli seco. Minhas mãos começaram a suar. Mas alguma coisa dentro de mim… não deixou eu abaixar a cabeça dessa vez. Não deixou eu ficar calada. Talvez fosse desespero. Talvez fosse cansaço. Talvez fosse a última gota. Levantei o olhar. Serena: — Quero. O silêncio foi imediato. Pesado. Denso. Perigoso. Pai: — Repete. Meu coração disparou. Mas eu não consegui voltar atrás. Serena: — Eu quero ir embora. Minha voz saiu mais firme. Mesmo com medo. Muito medo. — Eu não aguento mais viver aqui… A mulher da igreja colocou a mão no meu braço, tentando me acalmar. Mas já era tarde. Muito tarde. Ele deu mais um passo na minha direção. Invadindo meu espaço. Ficando perto demais. Como sempre. Pai: — Você acha que vai pra onde, hein? Serena: — Eu vou sim… Minha voz começou a falhar. As lágrimas já estavam nos meus olhos. — Eu não aguento mais isso… eu não aguento mais essa vida… A primeira bofetada veio tão rápido que eu nem vi. Só senti. O impacto forte no rosto, o som seco ecoando dentro do barraco. Meu corpo virou junto. A visão ficou turva. A mulher da igreja gritou. Mulher: — Senhor, para com isso! Mas ele não parou. Nunca parava. Pai: — Você acha que manda em alguma coisa aqui?! Ele segurou meu braço com força, me puxando de volta. Serena: — Tá doendo… Minha voz saiu fraca. Ele apertou mais. Pai: — Você não vai a lugar nenhum! A segunda pancada veio. Depois a terceira. Eu tentei me proteger, levando as mãos ao rosto, mas isso só fez piorar. Ele me empurrou. Meu corpo bateu contra a parede. A dor subiu pela minha coluna. Eu deslizei até o chão. A mulher tentou entrar na frente. Mulher: — Chega! O senhor não pode fazer isso com ela! Ele empurrou ela com força. Pai: — Some da minha casa! Ela quase caiu, mas se segurou. Os olhos dela estavam assustados. Mas ela não saiu. Mulher: — Eu vou chamar ajuda! Ele riu. Aquele riso vazio. Pai: — Vai chamar quem? Silêncio. Porque todo mundo sabia. Ali… ninguém vinha. Ninguém ajudava. Ninguém se metia. Eu tentei levantar. Minhas pernas tremiam. Meu corpo inteiro doía. Mas mesmo assim… eu levantei. Olhei pra ele. Chorando. Mas olhando. Serena: — Eu vou embora… Minha voz saiu quebrada. Mas saiu. — Você querendo ou não… O olhar dele mudou. Ficou mais escuro. Mais pesado. Ele veio pra cima de mim de novo. Mas dessa vez… eu recuei. Pela primeira vez. Serena: — Não… Levantei a mão na frente. — Não encosta em mim! Minha respiração estava descontrolada. Meu coração parecia que ia sair pela boca. Mas eu não ia mais ficar parada. Não ia mais aceitar. Não daquela vez. Ele parou por um segundo. Surpreso. Talvez porque eu nunca tinha reagido antes. Nunca tinha enfrentado. Pai: — Você tá ficando maluca? Serena: — Eu só tô cansada… As lágrimas desciam sem parar. — Eu só quero sair daqui… O silêncio tomou conta do barraco. Pesado. Carregado. E pela primeira vez… Eu vi algo diferente no olhar dele. Raiva. Mas também… Perda de controle. E isso era perigoso. Muito perigoso. A mulher da igreja se aproximou devagar. Mulher: — Serena… você vem comigo. Olhei pra ela. Depois pra ele. Depois pra casa. Pra tudo que eu vivi ali. Pra tudo que me machucou. E entendi. Se eu ficasse… Eu ia continuar quebrando. Aos poucos. Todo dia. Respirei fundo. Serena: — Eu vou. Minha voz saiu mais firme dessa vez. Mais decidida. Ele deu um passo na minha direção. Mas não me tocou. Só ficou ali. Me olhando. Com ódio. Pai: — Se sair por essa porta… não volta mais. Engoli seco. Meu coração apertou. Mas não pelo que ele disse. E sim porque… Pela primeira vez… Aquilo não me doeu. Serena: — Eu sei. Olhei uma última vez pra dentro da casa. Minha mãe ainda caída. Tudo igual. Tudo parado. Tudo quebrado. E então eu virei as costas. E dei o primeiro passo. E depois outro. E mais outro. Cada passo doía. Mas ao mesmo tempo… Me libertava. Eu não sabia o que ia acontecer. Não sabia o que me esperava. Não sabia se ia dar certo. Mas eu sabia de uma coisa. Eu nunca mais ia voltar a ser aquela menina. Nunca mais.
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