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1093 Words
Felipe narrando… O rádio começou a chiar antes mesmo do despertador tocar. Aquele som seco, cortando o silêncio do quarto, foi o suficiente pra me tirar do sono na hora. Aqui no morro não existe luxo de dormir até tarde. Quem manda não pode se dar esse tipo de fraqueza. Abri os olhos devagar, olhando pro teto por alguns segundos, deixando a mente voltar pro lugar. Ainda tava escuro lá fora. Devia ser umas cinco da manhã. O tipo de hora que a maioria das pessoas ainda tá sonhando… e eu já tô pensando em como manter essa p***a toda funcionando. Estiquei o braço e peguei o rádio na cômoda. Felipe: — Fala. A voz veio do outro lado, meio abafada. Soldado: — Movimento tranquilo, chefe. Só passando a situação. Assenti, mesmo sabendo que ele não tava me vendo. Felipe: — Qualquer coisa me chama. Soltei o rádio de volta na mesa e me levantei. O chão frio bateu no pé, acordando de vez. Passei a mão no rosto, respirando fundo, já entrando no ritmo do dia. Fui direto pro banheiro. Espelho grande na parede, iluminação branca forte. Olhei meu reflexo por um segundo. Corpo marcado, tatuagem espalhada, cicatriz que nunca some. O tipo de corpo que não veio de academia de luxo. Veio de luta, treino pesado e uma vida que não dá segunda chance. Abri o chuveiro e entrei debaixo da água gelada. Sempre gelada. Não tem nada melhor pra acordar o corpo e limpar a cabeça. A água batia no peito, escorrendo pelas tatuagens, enquanto minha mente já rodava tudo que eu tinha pra resolver naquele dia. Entrega de carga, cobrança atrasada, movimentação estranha na parte de baixo do morro… nunca falta problema. Saí do banho, peguei uma toalha e sequei o corpo rápido. Vesti um short preto de treino e uma regata branca colada, deixando os músculos à mostra. Peguei o boné e virei pra trás. Passei pela cozinha e a cafeteira já tava funcionando. Café preto, forte, do jeito que eu gosto. Sem açúcar. Sem frescura. Peguei a xícara e fui até a varanda. A vista lá de cima… é outra coisa. Minha casa fica no ponto mais alto da Rocinha. Não foi por acaso. Foi escolha. De lá eu vejo tudo. Cada movimento, cada luz acendendo, cada pessoa começando o dia. A casa é cercada de câmeras, segurança em todos os pontos, homem armado em cada entrada. Aqui ninguém sobe sem ser autorizado. E quem tenta… não desce. Encostei no parapeito, tomando um gole do café, sentindo o gosto forte descendo pela garganta. Lá embaixo o morro já começava a acordar. Moto passando, gente saindo pra trabalhar, criança ainda sonolenta sendo arrastada pra escola. A vida começando mais um dia. Felipe: — Mais um… Murmurei baixo. Terminei o café, deixei a xícara na pia e peguei a chave do carro. Desci as escadas devagar, já com dois dos meus homens abrindo o portão antes mesmo de eu chegar. Eles sabiam o horário. Sempre sabem. Entrei na Hilux preta, blindada, motor forte, som baixo. Girei a chave e o carro respondeu na hora. Saí devagar, descendo o morro com calma. Não por necessidade… mas porque quem tem controle não precisa correr. As pessoas me viam passando. E reagiam. Alguns abaixavam a cabeça. Outros cumprimentavam com um gesto rápido. E tinha aqueles que simplesmente paravam. Respeito. Medo. Tanto faz. Cheguei na academia em menos de dez minutos. O portão já tava aberto. Sempre tá. Lugar nosso. Seguro. Entrei e estacionei. O som do ferro batendo já ecoava lá dentro. Sorri de lado. Eles já estavam lá. Entrei na academia e dei de cara com Leonardo puxando peso como se quisesse quebrar a máquina. O cara tava suado, camisa sem manga, tatuagem aparecendo, mandíbula travada. Já o Afonso tava mais tranquilo, fazendo repetição controlada, focado, como sempre. Felipe: — Cedo hoje, hein. Leonardo soltou o peso com força, olhando pra mim com um sorriso de lado. Leonardo: — Fala isso pra tu mesmo, p***a. Tu que acorda até antes do sol. Afonso levantou o olhar. Afonso: — Movimento estranho não espera horário. Assenti, tirando o boné e jogando em cima de um banco. Felipe: — E aí? Leonardo pegou a garrafa de água, dando um gole. Leonardo: — Carga de ontem chegou inteira. Produto limpo. Afonso completou: Afonso: — Mas teve movimentação diferente perto da entrada dois. Meu olhar travou nele. Felipe: — Quantos? Afonso: — Não muitos. Mas o suficiente pra chamar atenção. Fiquei em silêncio por um segundo, analisando. Felipe: — Fica de olho. Se for teste… a gente corta antes de crescer. Leonardo abriu um sorriso torto. Leonardo: — Já tava com saudade de resolver problema. Balancei a cabeça. Felipe: — Tu gosta é de confusão. Leonardo: — E tu não? Dei um leve sorriso de lado. Felipe: — Eu gosto de controle. Comecei a aquecer, pegando peso, sentindo o corpo responder. O treino sempre foi minha forma de manter a cabeça no lugar. Cada repetição, cada esforço, cada gota de suor… tudo ajuda a descarregar o que fica acumulado. Mas não demorou muito pra começar. As meninas. Sempre tem. Duas entraram na academia rindo, roupa colada, short curto, top apertado. Olhar direto. Sem vergonha nenhuma. Uma delas se aproximou primeiro. Menina: — Bom dia, chefe… A voz doce, forçada. Nem olhei. Felipe: — Uhum. Ela chegou mais perto. Menina: — Nem vai dar atenção? Leonardo já tava olhando, se divertindo. Leonardo: — Ih… já começou cedo hoje. A outra menina foi direto nele. Menina 2: — E você, não vai falar nada? Leonardo sorriu. Leonardo: — Depende… tu quer o quê? Ela riu, passando a mão no braço dele. Menina 2: — O que você quiser. Afonso nem olhou. Continuou o treino. Sempre assim. Eu terminei a série, levantando e pegando a toalha. A menina ainda tava ali. Esperando. Felipe: — Tu não tem outro lugar pra estar não? Ela fez uma cara de ofendida. Menina: — Nossa… grosso. Leonardo riu alto. Leonardo: — Ele é assim mesmo. Se acostuma. Ela bufou, mas não saiu. Ficou ali. Insistindo. Mas pra mim… não fazia diferença. Nunca fez. Voltei pro treino, ignorando completamente. Porque por mais que o corpo reagisse… Por mais que o desejo existisse… Nada passava disso. Nada ficava. Nada importava. E enquanto o ferro batia, o suor descia e o som da academia preenchia o ambiente… Eu só pensava em uma coisa. Mais um dia. Mais um jogo. Mais uma batalha. E eu ainda estava no topo. Onde ninguém ousava chegar. E ninguém ousava derrubar.
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