Felipe narrando…
O som do ferro batendo continuava ecoando pela academia enquanto eu puxava mais uma série, o peso descendo controlado e subindo com força. O corpo já tava quente, o suor escorrendo pelas costas, a respiração pesada entrando no ritmo certo. Era ali que minha cabeça funcionava melhor. Sem distração. Sem erro. Só foco.
Leonardo tava no banco ao lado, fazendo supino com carga alta, a veia saltando no braço enquanto ele empurrava o peso pra cima.
Leonardo:
— p***a… isso aqui hoje tá pesado.
Afonso tava mais afastado, fazendo repetição no aparelho com calma, do jeito dele. Sempre controlado. Sempre observando.
Afonso:
— Tu fala isso todo dia.
Leonardo soltou o peso e riu.
Leonardo:
— Porque todo dia é pesado, p***a.
Balancei a cabeça de leve, terminando minha série e me levantando.
Felipe:
— Reclama menos e levanta mais peso.
Leonardo:
— Fala isso porque não é tu que tá sofrendo aqui.
Felipe:
— Tu tá sofrendo porque quer.
Peguei a toalha e passei no rosto, olhando em volta da academia por um segundo. Movimento normal. Gente treinando, som baixo tocando, algumas mulheres olhando mais do que deviam.
Nada fora do lugar.
Ainda.
Afonso terminou a série dele e veio na nossa direção, pegando a garrafa de água.
O jeito dele mudou um pouco.
Mais sério.
Eu percebi na hora.
Felipe:
— Fala.
Ele deu um gole na água antes de responder.
Afonso:
— Vai chegar uma galera aqui no morro nos próximos dias.
Franzi a testa.
Felipe:
— Que galera?
Leonardo limpou o suor do rosto.
Leonardo:
— Ih… lá vem.
Afonso continuou, direto.
Afonso:
— Caravana de igreja. Projeto social. Vão trazer médico, professor, essas coisas… ajudar a comunidade.
Fiquei em silêncio por um segundo.
Só olhando pra ele.
Meu maxilar travou.
Felipe:
— Quem autorizou isso?
O tom da minha voz saiu baixo.
Mas pesado.
Afonso não desviou o olhar.
Afonso:
— Já tava sendo organizado faz um tempo. Disseram que é parceria com umas ONG.
Leonardo deu uma risada de lado.
Leonardo:
— Relaxa, chefe. É só gente querendo pagar de boa ação.
Virei devagar pra ele.
Felipe:
— É assim que começa.
O sorriso dele diminuiu um pouco.
Afonso cruzou os braços.
Afonso:
— Também não gosto muito, mas pode ser só isso mesmo. Médico, ajuda, essas paradas…
Balancei a cabeça negativamente.
Felipe:
— “Só isso mesmo” não existe aqui.
O silêncio caiu por um segundo.
Eu dei alguns passos pela academia, olhando ao redor, mas já pensando em outra coisa.
Felipe:
— Gente de fora entrando sem controle… não gosto.
Leonardo passou a mão no cabelo, respirando fundo.
Leonardo:
— Tu tá vendo problema onde não tem.
Virei pra ele na hora.
Felipe:
— Tu acha?
O olhar dele travou no meu.
Leonardo:
— Acho.
Dei um passo na direção dele.
Felipe:
— E se não for igreja p***a nenhuma?
O silêncio voltou.
Mais pesado dessa vez.
Afonso respondeu.
Afonso:
— Tu acha que é infiltração?
Felipe:
— Eu acho que a gente não pode ser burro.
Aproximei mais, falando mais baixo, mais firme.
Felipe:
— É assim que inimigo entra. Não é chegando armado e fazendo barulho. É entrando quieto. Disfarçado. Observando.
Leonardo cruzou os braços.
Leonardo:
— Tu tá muito paranoico.
Soltei um riso sem humor.
Felipe:
— Paranoico é quem cai.
Afonso ficou em silêncio por alguns segundos.
Pensando.
Sempre assim.
Ele analisa antes de falar.
Afonso:
— Então o que tu quer fazer?
Olhei direto pra ele.
Felipe:
— Quero saber tudo.
Minha voz saiu firme.
Sem espaço pra dúvida.
— Quem vem. Quantos são. De onde são. Quem autorizou. Quem tá por trás.
Afonso assentiu devagar.
Afonso:
— Eu levanto isso.
Aproximei mais.
Felipe:
— Não é levantar.
Pausei.
— É vigiar.
Leonardo soltou o ar pelo nariz.
Leonardo:
— p***a, Felipe… é igreja, cara.
Virei na direção dele.
Felipe:
— Igreja também mente.
O olhar dele mudou.
Menos brincadeira agora.
Felipe:
— Aqui não entra ninguém sem eu saber exatamente quem é.
Afonso falou.
Afonso:
— Quando eles chegarem?
Felipe:
— Quero gente nossa acompanhando desde o primeiro minuto.
Dei mais um passo.
Felipe:
— Cada passo.
— Cada conversa.
— Cada olhar.
O silêncio na academia parecia mais pesado agora.
Mesmo com o som, com o movimento…
Ali entre nós três, o clima mudou.
Leonardo passou a mão no rosto.
Leonardo:
— Tu não cansa de viver assim não?
Olhei pra ele.
Sem expressão.
Felipe:
— Vivo.
Ele soltou uma risada curta.
Leonardo:
— Não parece.
Voltei pro banco, pegando o peso de novo.
Felipe:
— Eu não tenho escolha.
Levantei a barra, descendo controlado, subindo com força.
Cada repetição firme.
Cada movimento preciso.
Felipe:
— É assim que a gente continua no topo.
Soltei o peso com força no suporte.
Olhei pra eles.
Felipe:
— Relaxa demais e perde.
Afonso assentiu.
Ele entendeu.
Sempre entende.
Afonso:
— Vou começar a puxar as informações hoje.
Felipe:
— Hoje não.
Pausa.
Felipe:
— Agora.
Ele pegou o celular na hora.
Já digitando.
Leonardo balançou a cabeça.
Leonardo:
— Tu não muda, né.
Peguei a toalha e passei no rosto.
Felipe:
— É por isso que a gente ainda tá aqui.
Olhei pra porta da academia.
Depois de volta pra eles.
Felipe:
— E vai continuar.
O silêncio se instalou de novo.
Mas dessa vez…
Era um silêncio de decisão.
Porque ali, naquele momento…
Eu já tinha deixado claro.
Nada entrava no meu morro sem passar por mim.
Nada.
E ninguém.