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1115 Words
Serena narrando… A dor não me deixou dormir. Na verdade… eu nem tentei. Cada parte do meu corpo doía de um jeito diferente. Meu rosto estava latejando, meu braço ardendo, minhas costas queimando como se ainda estivessem sendo atingidas. Eu estava deitada no chão, encolhida, com o moletom velho cobrindo parte do corpo, tentando me proteger de algo que já tinha acontecido. Mas o pior não era a dor física. Era o que vinha por dentro. O medo. O cansaço. A sensação de que, se eu não saísse dali… eu não ia sobreviver por muito tempo. Abri os olhos devagar. O barraco estava escuro, só uma luz fraca entrando pela fresta da janela quebrada. Olhei pro lado. Minha mãe continuava caída. Do mesmo jeito. Como se nada tivesse acontecido. Como sempre. Engoli seco. Serena: — Eu não posso ficar… Sussurrei pra mim mesma, com a voz fraca. Meu corpo tremia, mas não era só por causa da dor. Era decisão. Levantei devagar, sentindo cada músculo reclamar. Apoiei a mão na parede pra não cair. Minhas pernas estavam fracas, mas eu precisava ir. Agora. Antes que ele acordasse. Antes que tudo começasse de novo. Olhei ao redor. Não tinha nada pra levar. Nada que fosse realmente meu. Nada que valesse o peso. E talvez… isso fosse bom. Porque significava que eu não tinha nada me prendendo. Respirei fundo. Fui até o pequeno espelho rachado e parei na frente dele. E pela primeira vez… eu realmente me olhei. Meu rosto estava roxo. O olho inchado. O lábio cortado. Marcas espalhadas pela pele. Eu parecia… quebrada. Mas não derrotada. Ainda não. Passei a mão no cabelo, puxando ele pra dentro da touca do moletom. Quanto menos eu chamasse atenção, melhor. Serena: — Vai dar certo… Minha voz saiu baixa. Mas firme. Mesmo sem acreditar totalmente. Calcei o tênis velho, já gasto, amarrando com dificuldade por causa do tremor nas mãos. Respirei fundo mais uma vez. Era agora. Fui até a porta. Parei. Olhei pra trás. Pro barraco. Praquela vida. Pra tudo que eu vivi ali. E senti algo estranho. Não era saudade. Não era medo. Era… alívio. Segurei a maçaneta. Abri devagar. E saí. O ar frio da madrugada bateu no meu rosto na hora, fazendo meu corpo arrepiar. Era muito cedo. Ainda escuro. A comunidade estava silenciosa, só alguns barulhos distantes de cachorro, vento e alguma moto passando longe. Perfeito. Quanto menos gente, melhor. Ajeitei a touca, escondendo o rosto o máximo possível, e comecei a andar. Cada passo doía. Mas eu não parei. Não olhei pra trás. Não pensei demais. Só fui. O ponto de encontro era na igreja. Foi o que Celine tinha falado. Celine… Só de pensar nela, algo dentro de mim acalmava um pouco. Ela era diferente. Mais nova que as outras freiras, mais leve, mais humana. Ela me olhava… e parecia realmente me ver. Não com pena. Mas com cuidado. E foi ela que acreditou em mim. Que viu que eu precisava sair dali. Que não me tratou como mais uma. Caminhei por cerca de quinze minutos, atravessando a rua de terra, passando por casas simples, algumas luzes ainda apagadas, outras começando a acender. Meu coração estava acelerado. Cada som me fazia olhar pra trás. Cada movimento me deixava tensa. E se ele acordasse? E se ele viesse atrás? E se… Balancei a cabeça. Serena: — Não… Sussurrei. — Não pensa nisso. Continuei andando. Até ver a igreja. Pequena. Simples. Mas iluminada. E ali… eu vi movimento. Pessoas. Um ônibus. Meu coração disparou. Eu cheguei. Aproximei devagar, meio hesitante, até ver ela. Celine. Ela estava perto do ônibus, conversando com outro voluntário. Quando me viu, parou na hora. O olhar dela mudou. Preocupação. Ela veio na minha direção rápido. Celine: — Serena… A voz dela saiu suave. Mas carregada. Ela parou na minha frente. Me olhou de cima a baixo. E os olhos dela encheram. Celine: — Meu Deus… Ela levou a mão ao meu rosto, com cuidado. — Ele fez isso com você? Baixei o olhar. Não consegui responder. Mas não precisava. Ela já sabia. Celine respirou fundo, segurando minha mão. Celine: — Você veio… Assenti de leve. Serena: — Eu… eu não podia mais ficar lá… Minha voz saiu quebrada. Ela apertou minha mão. Celine: — Você fez a coisa certa. Olhei pra ela. E pela primeira vez… Eu senti que alguém realmente acreditava em mim. Serena: — Eu não trouxe nada… Falei baixo. — Só… isso… Ela sorriu de leve. Celine: — Você trouxe o mais importante. Fiquei confusa. Serena: — O quê? Ela respondeu, olhando direto nos meus olhos: Celine: — Coragem. Aquilo me quebrou por dentro. As lágrimas vieram na hora. Mas dessa vez… não eram só de dor. Eram diferentes. Ela me puxou com cuidado. Celine: — Vem, vamos cuidar de você. Ela me levou até um banco perto da igreja. Pegou uma bolsa e começou a limpar meu rosto com delicadeza. Eu estremeci. Não de dor. Mas porque eu não estava acostumada com aquilo. Com cuidado. Com gentileza. Celine: — Vai arder um pouquinho… Serena: — Tá tudo bem… Ela limpou o corte do meu lábio, passou algo no meu olho, com todo cuidado do mundo. Celine: — Você não vai voltar pra lá. Não era pergunta. Era afirmação. Serena: — Não… Minha voz saiu firme. — Nunca mais. Ela sorriu. Celine: — Então agora você vai recomeçar. Olhei pro ônibus. Grande. Esperando. Um novo caminho. Um novo mundo. Desconhecido. Assustador. Mas… melhor que o que eu deixei pra trás. Celine: — Tá com medo? Olhei pra ela. Serena: — Muito. Ela assentiu. Celine: — Eu também fiquei… quando comecei. Aquilo me surpreendeu. Serena: — Sério? Ela sorriu. Celine: — Medo não é sinal de fraqueza. É sinal de que você tá saindo da zona que te prende. Respirei fundo. Serena: — Eu só… quero uma chance. Ela segurou meu rosto com carinho. Celine: — E você vai ter. O motorista gritou lá de dentro: Motorista: — Vamos sair! Meu coração disparou. Era agora. Celine se levantou e estendeu a mão. Celine: — Vamos? Olhei pra mão dela. Depois pro ônibus. Depois pra estrada escura à frente. E então… segurei. Serena: — Vamos. Subi no ônibus com ela. Sentei perto da janela. Meu corpo ainda doía. Meu rosto ainda ardia. Mas algo dentro de mim… estava diferente. O ônibus começou a andar. Devagar. Saindo da comunidade. Saindo da minha antiga vida. Encostei a cabeça no vidro. Olhei pela janela. E pela primeira vez… eu não estava fugindo. Eu estava indo. Indo em direção a algo novo. Mesmo sem saber o que era. Mesmo com medo. Mesmo machucada. Eu estava indo. E isso… já era tudo.
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