O carro cortava a estrada molhada, os faróis refletindo em poças que pareciam espelhos quebrados. A chuva voltara com força, como se o céu tivesse guardado tudo aquilo só para aquele momento. Eu e Mathias, sozinhos de novo. Depois da praia, depois do beijo, depois de eu ter fugido dele na areia como se pudesse fugir de mim mesma. Ele não falou nada no caminho. Nem eu. Só o barulho dos limpadores de para-brisa e a respiração dele, pesada, controlada. Eu olhava pela janela, fingindo que via algo além do borrão de luzes e água. — Você tá bem? — ele perguntou, baixo, sem tirar os olhos da estrada. — Tô. Mentira. Eu estava em pedaços. Ele sabia. Claro que sabia. Chegamos na casa dele antes que eu pudesse inventar uma desculpa pra ir embora. A garagem automática se abriu, o carro deslizou

