CAPÍTULO 05 - A ESCOLHA ERRADA

1206 Words
Alina Montserrat A mulher que chorava minutos atrás limpou o rosto, como se nunca tivesse derramado uma lágrima. Então caminhou até um homem alto parado próximo ao corredor. Ruivo, grande e com uma tatuagem no pescoço. O tipo de presença que fazia qualquer ambiente parecer menor. E o sorriso dele… Era grotesco. — Nem foi tão difícil trazer elas — a mulher comentou. O homem soltou uma risada baixa e nojenta. Mavi permaneceu imóvel, claramente tentando processar o que estava acontecendo. Instintivamente, dei um passo discreto para trás, tentando calcular uma rota de fuga. Foi quando ouvi o movimento atrás de nós. Dois homens saíram da cozinha estreita ao lado da entrada. Outro apareceu próximo da porta. Eles estavam escondidos desde o início. Mavi continuou parada ainda sem acreditar. Eu não. Minha mente começou a calcular distância, espaço e possibilidades automaticamente. Quatro homens visivelmente armados. Ambiente fechado. Um cenário péssimo. O ruivo começou a caminhar lentamente na nossa direção. — Senhoritas Montserrat… Permaneci calada enquanto analisava o posicionamento deles. O homem da porta era o primeiro problema. Grande demais para passar à força sem abrir espaço. O da cozinha parecia mais distraído e talvez mais lento. Mavi finalmente parou de olhar pro nada. — Vocês ficaram completamente malucos? — A voz dela saiu firme apesar do nervosismo evidente. — Vocês fazem ideia de quem nós somos? O ruivo abriu um sorriso ainda pior. — Ah, nós sabemos exatamente. — Meu tio vai destruir vocês — ela disparou. — Meu Deus, vocês não fazem ideia da merda em que— O ruivo avançou um passo abruptamente. — Abaixa o tom antes que eu arranque sua língua fora. Mavi fechou a boca imediatamente. Até eu senti um arrepio subir pela espinha. O homem então voltou os olhos diretamente para mim. — E outra coisa… baixa a bola, principessa. O sotaque carregado tornava tudo ainda mais ameaçador. — Porque não é você que queremos. Ele apontou discretamente na minha direção. — Ela é. No mesmo instante, percebi movimentação atrás de mim. Virei rápido demais para alguém despreparada. Um dos homens tentou segurar meu braço, mas consegui escapar do primeiro movimento e acertar o cotovelo contra o peito dele com força suficiente para fazê-lo perder o equilíbrio. Outro veio pela lateral. Tentei abrir espaço para alcançar a porta, mas o ambiente pequeno jogava contra mim. O ruivo apareceu na frente antes que eu conseguisse avançar. Mavi gritou meu nome quando um dos homens segurou ela pelos braços. Tentei reagir outra vez. Acertei o joelho contra a perna de outro homem e consegui me soltar por um segundo. Só um. Porque alguém surgiu atrás de mim naquele instante. Braços fortes prenderam meus ombros antes que eu pudesse girar completamente. E então um pano foi pressionado contra meu rosto. O cheiro químico invadiu minhas narinas imediatamente. Droga. Prendi a respiração por reflexo e tentei me desvencilhar, mas o homem atrás de mim apertou ainda mais. Minha visão começou a oscilar rápido demais. Ouvi Mavi se debatendo, alguém mandando ela ficar quieta. Tentei acertar outra cotovelada, mas meus movimentos já estavam ficando lentos e pesados. A última coisa que vi antes da escuridão me engolir… Foi minha prima tentando desesperadamente chegar até mim. 👑👑👑👑👑👑 A primeira coisa que senti foi o cheiro forte de. Suor, ferrugem e medo. Uma mistura sufocante que embrulhou meu estômago antes mesmo que eu recuperasse totalmente a consciência. Minha cabeça ainda pesava por causa do sedativo, mas aos poucos os sons começaram a ficar mais claros. Respirações descompassadas. Soluços baixos. Metal vibrando e um ruído grave, ritmado constante ao fundo. Como um motor pesado atravessando longas distâncias. Abri os olhos devagar, piscando algumas vezes até conseguir enxergar melhor o ambiente ao redor. Escuro. A única luz vinha de uma fresta estreita próxima ao teto metálico. Levei alguns segundos para entender onde estava. O chão frio sob meu corpo, as mãos amarradas atrás das costas, os tornozelos presos e então percebi outra coisa. O ambiente inteiro tremia levemente. Como se estivéssemos em movimento. Franzi a testa, tentando organizar os pensamentos ainda lentos pelo efeito da droga. Foi quando ouvi o barulho de água muito próxima. Ondas e o som abafado do mar batendo contra metal. Parecia um navio ou algum tipo de embarcação grande. Meu estômago afundou como uma âncora. Eles tinham nos tirado de Mônaco e eu não estava sozinha. Havia outras garotas ali dentro. Quatro. Nenhuma era Mavi. Duas loiras estavam encolhidas próximas à parede, abraçando os próprios joelhos enquanto choravam. Uma morena balançava o corpo para frente e para trás, murmurando palavras desconexas como se estivesse tentando se convencer de que aquilo não era real. A última era ainda mais ruiva que eu, tinha traços fortes e uma expressão vazia. Ela parecia acordada… mas distante demais da realidade. Corri os olhos mais uma vez pelo ambiente e notei que somente eu estava amarrada. O espaço parecia pequeno demais para tantas pessoas. O ar pesado deixava tudo ainda pior. Fechei os olhos tentando não surtar. A mulher, a casa, o homem ruivo, Mavi e o medo estampado nos olhos castanho-esverdeados dela no instante em que perceberam que era uma armadilha. E então o pano no meu rosto me envolvendo na escuridão. Soltei o ar lentamente. — Não acredito que fui sequestrada. Minha própria voz saiu calma demais e as garotas me olharam. Uma das loiras começou a rir e chorar ao mesmo tempo, claramente perto de um colapso. — Eles vão matar a gente… meu Deus… eles vão matar a gente… — Não… — a ruiva murmurou com dificuldade, a voz arrastada. — Eu ouvi eles conversando… eles não matam… Ela engoliu seco antes de completar: — Eles vendem. Vendem. A palavra pareceu deixar o ar ainda mais pesado ali dentro. A morena começou a tremer. — Eu só estava saindo do hotel… — ela chorava enquanto falava. — Nem vi quando eles me pegaram… A embarcação balançou levemente nesse instante. O suficiente para confirmar o que eu já suspeitava. Estávamos atravessando o Mediterrâneo. E considerando o tempo desacordada… provavelmente já longe demais de Mônaco. Encostei a cabeça na parede metálica atrás de mim, sentindo o frio atravessar minha pele. Meu corpo ainda reagia lentamente por causa da droga, mas minha mente começava a funcionar com clareza outra vez. E estranhamente… Eu não estava em pânico. Frustrada? Sim. Furiosa? Muito. Mas medo não era exatamente o que sentia. A verdade era pior. Eu me sentia fracassada. Meu pai me preparou para situações de risco desde criança. Aos sete anos comecei aulas de defesa pessoal. Depois vieram artes marciais, estratégia, leitura comportamental. Aos onze, aprendi a atirar. Treinei com profissionais militares. Minha mira era precisa. Meu reflexo impecável. Augusto Montserrat sempre dizia que poder sem preparo era fraqueza disfarçada. Ele fez questão de garantir que eu nunca fosse vulnerável. E ainda assim… Ali estava eu. Amarrada dentro de um compartimento clandestino no meio do Mediterrâneo. Capturada de uma forma vergonhosa. Minha mandíbula se contraiu enquanto eu testava discretamente a resistência das cordas nos meus pulsos. A raiva começou a substituir o efeito restante do sedativo. Porque uma coisa ficou muito clara naquele instante. Quem fez aquilo comigo ainda não entendia exatamente o tipo de problema que tinha arrumado.
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