Transilvânia, 1744
Adrien Montreal acreditava que homens eram construídos pela repetição.
Para ele, não bastava ensinar uma vez. Era preciso insistir até que o corpo obedecesse antes da mente. Emoções eram distrações perigosas — e a noite não perdoava distraídos.
Eleno crescera sob essa filosofia.
Todas as manhãs começavam antes do amanhecer. O frio cortava a pele enquanto ele atravessava o pátio rumo ao galpão de armas. Adrien já o aguardava, sempre em silêncio, avaliando postura, foco e disciplina.
— Hoje você lidera — disse certa vez, entregando-lhe o rifle.
Não havia orgulho naquela frase. Apenas expectativa.
Durante as caçadas, Eleno se mostrava atento a detalhes que outros ignoravam. Mudanças no vento. Sons interrompidos de forma abrupta. Rastros que não pertenciam a animais comuns. Alguns homens diziam que ele pensava demais.
— Caça não é filosofia — zombavam.
— É sobrevivência — respondia Eleno, sem elevar a voz.
Adrien observava tudo. Nunca o elogiava. Nunca o repreendia em excesso. Apenas aguardava que o filho se tornasse exatamente o que esperava.
À mesa, o silêncio era regra. Mas certa noite, o pai quebrou-o:
— Você precisa pensar em herdeiros.
Marguerite ergueu os olhos, tensa.
Eleno manteve a calma.
— Ainda não — respondeu. — Não é o momento.
Adrien o encarou por longos segundos.
— O momento não é escolhido — disse. — Ele chega.
Eleno não respondeu.
A palavra “herdeiros” lhe causava desconforto. Não conseguia imaginar aquele futuro. Não sentia desejo. Não sentia urgência. Apenas a sensação persistente de não pertencer ao roteiro que haviam escrito para ele.
Na vila, os rumores aumentavam. Alguns diziam que Eleno evitava mulheres. Outros afirmavam que ele passava tempo demais sozinho. A igreja passou a observá-lo com mais atenção.
— A solidão enfraquece o espírito — dizia o padre.
Mas Eleno não se sentia fraco. Sentia-se alerta.
Certa noite, ao caminhar próximo à floresta, ouviu passos leves demais para serem humanos. O corpo reagiu instantaneamente, os sentidos em alerta. Mas nada surgiu. Apenas o silêncio retornou, mais pesado do que antes.
Quando contou ao pai, Adrien não riu.
— A floresta guarda coisas antigas — disse. — É por isso que caçamos.
Pouco tempo depois, rumores de desaparecimentos começaram a circular. Corpos encontrados sem sangue. Marcas estranhas em árvores. Adrien convocou uma grande caçada noturna, envolvendo homens de várias propriedades.
— Você virá comigo — informou a Eleno.
Não perguntou.
Naquela noite, Eleno teve sonhos inquietos. Vozes o chamavam pelo nome, não em ameaça, mas em reconhecimento. Como se algo o aguardasse.
Na véspera da caçada, Adrien serviu-lhe vinho.
— Amanhã você provará quem é — disse.
Eleno observou o líquido vermelho na taça e sentiu um arrepio inexplicável.
Algo estava prestes a mudar.
E, pela primeira vez, ele teve certeza de que não haveria retorno.